"A Filha da Empregada Fez o Filho do Chefe da Máfia “Falar” Com as Mãos" Capítulo 6 — O Grito Que Bento Nunca Deu
O passaporte de Bento desaparecera do cofre da mansão.
Dante conferiu pessoalmente o compartimento vazio. Apenas três pessoas conheciam o código: ele, Rafael e Lívia.
Depois da morte dela, Álvaro estivera presente quando o cofre foi aberto para guardar documentos médicos.
— Ele viu a combinação — concluiu Rafael.
As passagens partiriam naquela noite. A polícia cercou Congonhas, mas Álvaro não apareceu.
Vitória deixou a delegacia por falta de ordem de prisão. Os advogados alegaram que a pulseira fora colocada na mochila para protegê-la durante a busca.
— Ela voltará — disse Helena.
Dante guardou a arma sob o paletó.
— Não chegará perto das crianças.
O apartamento seguro foi abandonado. O endereço poderia ter sido descoberto por meio de Álvaro ou Cíntia.
Dra. Beatriz sugeriu uma pequena clínica particular, temporariamente fechada para reforma, onde Bento poderia continuar a retirada dos sedativos.
A clínica tinha duas entradas, câmeras independentes e equipe reduzida. Dante levou as crianças para lá antes do anoitecer.
Nina tentou transformar o quarto em acampamento. Pendurar lençóis entre duas cadeiras fez Bento sorrir, embora ele continuasse olhando para a porta.
Helena observava Dante seguir todas as orientações do menino.
— Não imaginava que o chefe dos Montenegro soubesse prender lençóis.
— Não sei. Estou obedecendo à supervisora.
Nina ergueu o polegar.
O momento leve terminou quando o alarme de incêndio disparou.
Rafael entrou no quarto.
— Fumaça no depósito. Precisamos retirar todos.
Dante pegou Bento no colo. Helena segurou Nina. A equipe desceu pela saída lateral até o estacionamento.
Um carro preto surgiu no portão. Dois homens armados abriram fogo contra as câmeras, não contra as pessoas.
— Querem cegar o sistema — gritou Rafael.
Os seguranças formaram uma barreira. Dante levou as crianças para trás de uma ambulância, enquanto Helena se abaixava ao lado delas.
No tumulto, uma mulher de máscara puxou Nina pelo casaco.
Bento agarrou a mão da amiga. Os três caíram no chão.
Helena atingiu a agressora com o extintor. A máscara saiu.
Era Cíntia.
Ela fugiu para o corredor da clínica. Rafael a perseguiu, mas outra explosão de fumaça fechou a passagem.
Quando o alarme cessou, todos voltaram ao quarto protegido. Um funcionário contou que Vitória havia sido vista na recepção antes do incêndio.
— Ela entrou usando ordem judicial falsa — disse Rafael.
Dante verificou Bento e Nina. Nenhum dos dois estava ferido.
Helena, porém, tinha um corte na testa.
— Você precisa de atendimento.
— Primeiro tranque as portas.
Dante obedeceu. Depois limpou o sangue de Helena com uma gaze, sem perceber que suas mãos tremiam.
— O senhor está com medo — disse ela.
— Estou.
Foi a primeira vez que ele admitiu aquilo diante de alguém.
Uma enfermeira levou Helena para fazer curativo. Nina permaneceu com ela. Bento ficou no quarto com Dante e dois seguranças.
O menino apontou para o armário.
Dante abriu a porta. Estava vazio.
Bento insistiu, fazendo o sinal de “dentro”.
Rafael examinou o fundo e encontrou uma passagem técnica usada pela manutenção. A grade havia sido removida.
— Alguém entrou antes de trancarmos — disse ele.
Vitória saiu da passagem segurando uma seringa.
Um dos seguranças tentou alcançá-la, mas Cíntia surgiu atrás dele e aplicou algo em seu pescoço. O homem caiu.
Vitória puxou Bento para junto do corpo.
— Se alguém se mover, eu termino o tratamento.
Dante apontou a arma.
— Solte meu filho.
— Você escolheu uma empregada e duas crianças contra mim.
— Escolhi a verdade.
Vitória encostou a agulha no braço de Bento. O menino fechou os olhos, incapaz de gritar.
— Baixe a arma — ordenou ela.
Dante colocou a pistola no chão.
Cíntia recolheu a arma e trancou os dois seguranças no banheiro. Depois empurrou Dante para fora do quarto.
— O menino fica comigo até você retirar as acusações — disse Vitória.
A porta fechou.
Dante tentou arrombá-la, mas o sistema eletrônico fora bloqueado.
Helena e Nina chegaram correndo.
— Onde está Bento? — perguntou Nina.
Dante apontou para a câmera interna. Na tela, Vitória mantinha o menino perto da maca.
Nina aproximou-se do vidro da porta e começou a sinalizar.
— Olhe para mim. Não olhe para a agulha.
Bento encontrou os olhos dela através do vidro.
— Quando eu levantar três dedos, derrube a bandeja — continuou Nina.
Vitória percebeu o movimento.
— Pare com isso!
Ela puxou Bento para longe, mas o menino chutou a bandeja metálica. A seringa caiu e deslizou pelo chão.
Cíntia tentou pegá-la. Bento correu para a porta, batendo com os punhos.
Dante atingiu o painel com um extintor. Helena usou uma cadeira. O vidro começou a rachar.
Vitória alcançou Bento pelo tornozelo.
Ele caiu, virou-se e viu a agulha novamente em sua direção.
Então o som que não saía havia nove meses rompeu o quarto inteiro.
— PAPAI!
Dante golpeou o vidro com toda a força. A placa se partiu.
Ele atravessou a abertura, protegeu o rosto com o braço e arrancou Bento das mãos de Vitória.
Rafael imobilizou Cíntia. Helena chutou a seringa para longe.
Dante caiu de joelhos, abraçando o filho.
Bento repetiu entre soluços:
— Papai… papai…
Dante encostou a testa na dele.
— Eu estou aqui. Desculpe por ter demorado tanto.
Vitória foi algemada, mas ainda sorria.
— Ele falou porque eu o curei.
Bento levantou o rosto. Sua voz saiu fraca, porém clara.
— Você matou minha mãe.
Os policiais gravaram a declaração espontânea, mas Dra. Beatriz encerrou qualquer tentativa de aprofundá-la. Bento estava exausto e precisava recuperar a sensação de segurança.
No corredor, Dante encostou as mãos na parede. Helena aproximou-se sem tocá-lo.
— Ele chamou por mim porque estava em perigo — disse Dante. — Não porque confia em mim.
— Confiança começa quando alguém aparece no momento em que é chamado.
— Eu não apareci durante nove meses.
— Então apareça amanhã. E depois de amanhã.
Dante olhou para ela. Não havia piedade em seu rosto, apenas uma verdade simples.
No quarto, Nina pediu papel. Ela e Bento desenharam uma lista de novas regras: ninguém daria remédio sem explicar; nenhuma porta seria trancada; adultos pediriam permissão antes de tocar nele.
Dante assinou a folha. Rafael assinou em seguida. Helena acrescentou que as regras valeriam para todos, inclusive para o próprio Dante.
— Principalmente para mim — concordou ele.
Bento apontou para uma linha vazia. Nina escreveu: “Papai não vai embora quando eu estiver com medo.”
Dante assinou novamente.
Mais tarde, Cíntia aceitou falar. Ela confirmou que Vitória pagava Álvaro para alterar prontuários, mas disse desconhecer o mandante financeiro.
— Ela recebia ordens por um telefone sem nome — contou. — Sempre depois das reuniões da família.
Rafael encontrou registros de chamadas próximas à mansão. O aparelho secreto estivera ali na noite da morte de Lívia e também durante o incêndio da clínica.
Enquanto a polícia rastreava o sinal, uma mensagem chegou ao telefone apreendido de Cíntia:
“Vitória falhou. Termine o trabalho antes que o menino volte a falar.”
Dante leu diante de Helena.
— Eles sabem que Bento me chamou.
— Então vão atacar a voz dele de outra forma — respondeu ela. — Vão dizer que ele mente.
Na manhã seguinte, a previsão se confirmou. Vídeos antigos das crises de Bento foram enviados à imprensa, acompanhados por laudos falsos que o descreviam como incapaz de distinguir fantasia e realidade.
Dante assistiu apenas alguns segundos antes de desligar a tela.
— Quem tinha esses vídeos?
— Vitória, Álvaro e o conselho da família — respondeu Rafael.
A guerra deixara de acontecer apenas dentro da mansão.
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