"A Filha da Empregada Fez o Filho do Chefe da Máfia “Falar” Com as Mãos" Capítulo 4 — A Última Noite da Mãe
Dante chegou à mansão antes da polícia.
A porta do antigo escritório de Lívia estava aberta. Uma mancha escura atravessava o tapete e terminava perto da janela quebrada.
Rafael examinou o corredor.
— Um dos seguranças desapareceu. O sangue provavelmente é dele.
— Quem estava de serviço?
— Mauro Vilela. Trabalha aqui há oito anos.
Helena havia ficado no hospital com as crianças. Dante não queria expô-las à cena, mas pediu que Nina permanecesse disponível para traduzir Bento.
A chave de latão abriu a estante de Lívia.
Atrás de uma fileira de livros havia uma segunda caixa musical, idêntica à primeira, mas sem carrossel. Dante girou a chave lateral.
Uma melodia antiga começou a tocar.
Rafael reconheceu a canção usada na festa de casamento de Dante e Lívia.
— Ela queria que o senhor encontrasse isto.
Dante pressionou a estrela dourada. O fundo se abriu, revelando um cartão de memória e uma fotografia.
Na imagem, Lívia aparecia no consultório de Vitória, segurando um frasco sem rótulo. A data era de três dias antes de sua morte.
No verso, ela escrevera:
“Se acontecer alguma coisa comigo, não foi acidente.”
Dante precisou apoiar a mão na mesa.
Durante nove meses, aceitara a versão de que Lívia tropeçara na escada depois de beber vinho. Vitória estivera ao seu lado no funeral, cuidara de Bento e o convencera de que o menino reviveria o trauma se fosse questionado.
— Ela construiu tudo ao meu redor — murmurou.
Rafael inseriu o cartão num computador isolado. Havia quatro vídeos, duas planilhas e uma gravação de áudio protegida por senha.
O primeiro vídeo mostrava Vitória entregando caixas de medicamento ao médico da família, Álvaro Nunes.
O segundo mostrava Mauro desligando as câmeras da ala infantil.
— O segurança desaparecido trabalhava com eles — concluiu Rafael.
— Ou decidiu falar e foi silenciado.
A planilha registrava pagamentos mensais feitos por uma empresa pertencente ao irmão de Vitória. Os destinatários eram Álvaro, Mauro e uma enfermeira particular.
O objetivo ainda não estava claro.
Dante ligou para Helena por chamada de vídeo. Nina apareceu ao lado dela, enquanto Bento permanecia sentado na cama.
— Encontramos uma fotografia e vídeos — disse Dante. — Preciso saber o que significa o círculo vermelho no desenho.
Nina sinalizou a pergunta.
Bento começou a tremer.
Dante manteve distância da tela.
— Diga a ele que pode parar quando quiser.
Nina transmitiu a frase. Bento fechou os olhos, respirou e posicionou dois bonecos sobre a mesa hospitalar.
Um representava Lívia. O outro usava um pedaço de papel branco como vestido.
Ele colocou os bonecos no topo de uma escada desenhada. Fez a figura branca empurrar a azul. Depois desenhou um círculo vermelho no pulso da figura branca.
Nina olhou para a câmera.
— A pessoa que empurrou a mãe dele usava uma pulseira vermelha.
Dante lembrou-se imediatamente. Vitória usava uma pulseira de rubis naquela noite, presente de noivado dado por ele.
— Pergunte se ele viu o rosto.
Bento confirmou.
— Foi Vitória? — perguntou Nina com as mãos.
O menino começou a chorar, mas confirmou novamente.
Dante desligou a câmera depois de prometer que voltaria ao hospital.
Rafael permaneceu em silêncio.
— Encontre Vitória — ordenou Dante.
— O telefone dela foi deixado na garagem. O carro continua aqui.
— Então alguém a tirou da propriedade.
A polícia chegou e recolheu as provas. O delegado advertiu Dante para não agir por conta própria.
— Se ela perceber que temos uma testemunha, pode tentar chegar ao menino.
— Não chegará.
No hospital, Helena notou uma mulher usando uniforme de enfermagem perto do elevador. A desconhecida evitava olhar para os profissionais e mantinha uma das mãos dentro do bolso.
Quando Nina saiu para buscar água, a mulher começou a segui-la.
Helena entrou no corredor.
— Posso ajudar?
A falsa enfermeira acelerou o passo.
Helena viu o cabo de uma seringa dentro do bolso e gritou por segurança.
A mulher agarrou Nina pelo braço.
— Fique quieta.
Nina derrubou o copo e mordeu a mão dela. Helena avançou, puxou a filha para trás e recebeu um golpe no ombro.
Dois seguranças de Dante chegaram correndo. A mulher tentou usar a seringa, mas foi imobilizada antes de alcançar Helena.
No bolso, encontraram um frasco do mesmo sedativo administrado a Bento.
Dante entrou no corredor minutos depois. Viu Nina abraçada à mãe e perdeu o controle pela primeira vez.
— Quem mandou você?
A mulher permaneceu calada.
Helena tocou o braço de Dante.
— Não na frente das crianças.
Ele percebeu que Bento observava da porta do quarto. Recuou imediatamente.
— Rafael, tire-a daqui.
A falsa enfermeira foi identificada como Cíntia Lopes, antiga assistente de Vitória. No celular dela havia uma mensagem enviada por um número desconhecido:
“A menina entende o garoto. Ela precisa desaparecer primeiro.”
Dante leu a frase duas vezes.
— Nina virou alvo porque deu voz ao meu filho.
Helena ergueu o queixo.
— Então minha filha e eu vamos embora de São Paulo.
Bento ouviu. Correu até Nina, agarrou sua mão e balançou a cabeça desesperadamente.
— Eu preciso protegê-la — disse Helena.
Dante se aproximou com cuidado.
— Fugir não encerrará a ameaça. Vitória conhece seus documentos e sua família. Deixe-me colocar vocês num lugar seguro.
— Na sua mansão, onde tudo isso começou?
— Num apartamento que não está em meu nome. Apenas Rafael saberá o endereço.
Helena hesitou.
— Sem homens armados dentro do apartamento. Nina precisa se sentir protegida, não presa.
— Aceito.
— E eu decido quando saímos.
— Aceito.
— O senhor não está acostumado a ouvir condições.
— Estou aprendendo que controle não é o mesmo que proteção.
Bento sinalizou para Nina. Ela traduziu com os olhos marejados:
— Ele quer ir conosco.
Dante olhou para o filho.
— Eu também vou.
Antes que Helena respondesse, Rafael voltou ao corredor com o telefone na mão.
— Encontramos Mauro.
— Onde?
— Dentro do carro de Vitória, no estacionamento de Congonhas.
— Vivo?
— Sim. E ele quer fazer um acordo.
Rafael mostrou a mensagem enviada pelo segurança desaparecido:
“Eu vi quem empurrou Lívia. Mas Vitória não agiu sozinha.”
Dante pediu o nome do cúmplice, mas Mauro se recusou a dizê-lo por telefone. Exigia proteção para a esposa e o filho antes de prestar depoimento.
Rafael informou que o segurança estava ferido e apavorado. Segundo os agentes, repetia que alguém poderoso acompanhava cada movimento da polícia.
Helena observou Bento e Nina juntos. Os dois haviam transformado uma folha hospitalar numa conversa que os adultos passaram meses evitando.
— Se houver outra pessoa por trás de Vitória, ela sabe que Bento se lembrou — disse Helena.
— E sabe que Nina consegue entendê-lo — completou Dante.
Ele ordenou a mudança imediata das crianças para uma ala reservada, mas Helena exigiu que a pediatra autorizasse o transporte. Dante aceitou sem discutir.
Enquanto Rafael organizava a saída, Bento entregou a Dante o desenho da escada. No canto inferior havia uma terceira figura, quase escondida atrás de uma porta.
Dante apontou para ela.
— Quem é esse homem?
Bento começou a sinalizar, mas parou quando as luzes do corredor se apagaram.
O gerador deveria ter ligado imediatamente. Não ligou.
No escuro, uma porta de emergência bateu. Rafael sacou a arma e ordenou que todos se abaixassem.
Dante puxou Bento para junto do corpo. Helena abraçou Nina no chão.
Quando as luzes voltaram, trinta segundos depois, a falsa enfermeira havia desaparecido da sala de custódia.
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