"A Filha da Empregada Tocou o Pescoço do Mafioso" Capítulo 5 — A Menina Que Salvou o Mafioso
Sofia colocou três biscoitos num prato e declarou que um deles era para Dante. Marina tentou explicar que o patrão estava ocupado, mas a menina insistiu em deixar o presente na cozinha.
— Quando alguém está triste, chocolate ajuda — disse Sofia.
Joana sorriu e guardou o prato. Marina observou a filha com ternura, embora continuasse preocupada com a segurança na mansão.
Naquela manhã, Dante havia marcado uma reunião importante com representantes de uma empresa de logística. Queria revisar contratos ligados ao porto de Santos, onde suspeitava que Otávio escondia movimentações financeiras.
O assessor apareceu antes do encontro, acompanhado de um profissional que se apresentou como técnico da clínica responsável pelo acompanhamento neurológico.
— Seu tratamento de rotina está atrasado — disse Otávio.
Dante examinou a maleta fechada.
— A doutora Camila vai revisar minhas prescrições. Até lá, não quero alterações.
— Não se trata de alteração. É o procedimento de sempre.
Dante recusou a aplicação proposta e pediu os registros médicos. O técnico pareceu desconfortável, mas entregou apenas uma folha sem identificação completa.
Otávio saiu contrariado. Minutos depois, telefonou para alguém da clínica, reclamando que Dante estava se tornando imprevisível.
No escritório, Dante tentou continuar a análise dos contratos. Sentiu um gosto amargo na boca depois de beber água, mas não atribuiu importância imediata ao detalhe.
A dor começou como uma pressão discreta atrás da orelha. Em poucos minutos, tornou-se intensa, acompanhada de tontura e dificuldade para focar os números da tela.
Ele se levantou para alcançar o telefone. A cadeira deslizou para trás. Dante perdeu o equilíbrio e caiu de lado, atingindo o tapete.
No corredor, Sofia procurava Joana para perguntar sobre os biscoitos. Viu a porta entreaberta e percebeu o homem caído.
— Tio Dante?
Ele tentou responder, mas as palavras saíram confusas. Sofia correu até a entrada e gritou pelo nome da mãe.
Marina chegou primeiro. Viu que Dante estava consciente, embora desorientado, e pediu a Sofia que buscasse Joana e não voltasse sozinha.
A menina obedeceu, chorando.
Marina acionou a emergência, descreveu os sintomas e seguiu as orientações recebidas. Evitou levantar Dante e verificou se ele continuava respirando normalmente.
Otávio surgiu com dois seguranças.
— Coloquem-no na cama. Isso acontece sempre.
— A ambulância está vindo — Marina respondeu. — Não vamos movê-lo sem orientação.
— Você não tem autoridade para discutir comigo.
— Não estou discutindo autoridade. Estou evitando que uma queda se transforme em outra lesão.
Rafael chegou ao ouvir os gritos. Viu Dante tentando falar e confirmou que os socorristas haviam sido chamados.
— Vamos esperar a equipe — decidiu.
Otávio lançou-lhe um olhar gelado. Rafael não recuou.
A ambulância chegou poucos minutos depois. Marina contou aos profissionais o horário aproximado do início dos sintomas e mencionou a tentativa de atendimento realizada pela clínica naquela manhã.
Otávio a interrompeu.
— Ela não conhece o histórico do paciente.
Um socorrista pediu que todos deixassem Marina terminar. A informação sobre medicamentos e procedimentos recentes era importante para a avaliação.
Dante foi levado ao hospital. Sofia permaneceu com Joana, abraçada ao coelho Pipoca, enquanto Marina acompanhou a equipe com autorização dele.
No trajeto, Dante abriu os olhos por alguns segundos.
— A menina...
— Está segura — respondeu Marina. — Ela chamou ajuda.
Ele tentou apertar sua mão. Marina a segurou sem prometer que tudo ficaria bem, porque ainda não sabia.
Na sala de espera, Marina também falou com Rafael sobre a segurança de Sofia. O homem reconheceu que as regras antigas tinham sido feitas para proteger Dante de visitantes, não para proteger os funcionários de pessoas poderosas dentro da mansão.
— Uma autorização assinada por Otávio abre qualquer porta — admitiu.
— Então isso precisa mudar antes de minha filha voltar a circular pelos corredores.
Rafael concordou e começou a revisar os acessos. Descobriu que alguns crachás de funcionários dispensados ainda funcionavam. Mandou desativá-los e informou a Dante assim que ele recuperou condições de conversar.
A descoberta não indicava quem manipulava o tratamento, mas demonstrava como a administração permitira que a segurança se transformasse numa fachada.
Quando Marina contou a Sofia que Dante estava sendo atendido, a menina pediu que não jogassem fora seus biscoitos.
— Ele pode comer depois — explicou. — Quando o médico deixar.
Marina guardou o prato numa caixa fechada. A filha não podia resolver a doença de Dante, mas encontrara uma maneira pequena de esperar por ele.
No Hospital São Gabriel, a equipe realizou exames e iniciou a investigação das crises. O médico responsável informou que seria necessário revisar medicações e obter imagens adequadas da região cervical.
Dante permaneceu em observação. Quando conseguiu conversar, pediu para ver Sofia.
Marina telefonou para Joana. A menina apareceu na chamada, com os olhos vermelhos.
— Tio Dante, você vai morrer?
Ele demorou a responder. A pergunta era simples demais para permitir uma mentira confortável.
— Estou com médicos que vão cuidar de mim — disse. — E quero voltar para ouvir suas histórias.
— Eu fiz biscoito pra você.
— Então tenho um ótimo motivo para melhorar.
Sofia mostrou o coelho à câmera. Dante sorriu, apesar da dor.
Mais tarde, Marina encontrou o médico no corredor e perguntou sobre os resultados. Ele explicou que não poderia discutir tudo sem autorização do paciente, mas confirmou a necessidade de uma avaliação especializada.
Dante autorizou Marina a acompanhar a conversa. Também pediu que Rafael recebesse uma lista dos exames, para impedir que informações desaparecessem novamente.
Camila Ribeiro chegou no fim da tarde. Não conhecia Otávio e fora indicada por um especialista independente consultado por Rafael.
Ela ouviu o histórico inteiro, incluindo a explosão, a segunda cirurgia e os episódios de confusão mental.
— Não vou afirmar uma causa antes de examinar os dados — explicou. — E nenhuma pessoa deve mexer nessa região por conta própria.
Dante concordou. A lembrança do espelho quebrado ainda o envergonhava.
Marina saiu para comprar café. Quando voltou, encontrou Dante observando uma fotografia de Sofia no telefone.
— Ela salvou minha vida? — ele perguntou.
— Ela percebeu que você precisava de ajuda. Isso fez diferença.
— Cinco anos. E foi mais atenta do que muita gente adulta.
— Crianças percebem coisas que nós aprendemos a ignorar.
Dante olhou para Marina.
— Você não ignorou.
Ela se sentou ao lado da cama.
— Eu já vi pessoas perderem tempo precioso porque alguém importante disse que não era nada. Não queria repetir isso.
A conversa avançou para a vida dela antes da mansão. Marina contou que trabalhara em turnos hospitalares, mas deixara o emprego quando os horários se tornaram incompatíveis com os cuidados de Sofia.
O pai da menina não participava de sua criação. Marina não dramatizou a ausência; falou sobre contas, noites mal dormidas e a alegria de ouvir a filha aprender uma palavra nova.
Dante percebeu que sabia o salário de Marina, mas quase nada sobre a mulher que atravessara a biblioteca para defender uma criança.
— Você nunca me pediu um favor — disse.
— Pedi que tratasse minha filha com respeito. É um favor que não deveria ser necessário.
Ele aceitou a correção.
Ao anoitecer, Camila retornou com as imagens disponíveis. Pediu que Dante observasse uma área ampliada do exame.
— Este contorno é regular demais para ser interpretado simplesmente como um estilhaço — explicou. — Precisamos de exames complementares e de toda a documentação cirúrgica.
Dante aproximou-se da tela.
— Então o que está dentro de mim?
Camila respirou antes de responder.
— Isso não parece um fragmento comum de explosão.
Marina sentiu a mão dele procurar a sua.
— Parece um dispositivo implantado — concluiu a médica.
Dante ficou em silêncio. A pergunta de Sofia, que todos haviam chamado de fantasia infantil, acabava de se transformar na primeira pista concreta de um crime.
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