"A Filha da Empregada Tocou o Pescoço do Mafioso" Capítulo 4 — A Noiva Que Sabia Demais
A primeira coisa que Marina viu ao entrar no salão foi o balde de gelo derrubado. Depois percebeu Verônica Albuquerque ao lado da mesa principal, segurando uma taça vazia e observando o vinho escorrer pelo mármore.
— Limpe isso agora — ordenou Verônica.
Marina olhou para os convidados que chegavam para o jantar beneficente. Nenhum deles parecia disposto a ajudar.
— Vou buscar o material adequado — respondeu.
— Não. Quero que limpe aqui, diante de todos. Com esse pano.
Verônica apontou para um guardanapo caído no chão. Marina sentiu os olhares se voltarem para ela, mas manteve as costas eretas.
— Não vou me ajoelhar para servir de diversão aos seus convidados.
Um homem junto à janela abafou uma risada. Verônica avançou um passo, o rosto vermelho de raiva.
— Você esqueceu seu lugar.
— Meu lugar é trabalhando com respeito. Não sendo humilhada.
Verônica ergueu a mão. Antes que pudesse atingir o rosto de Marina, Dante segurou seu pulso.
— Ninguém toca nela.
A música continuou por alguns segundos, até que um garçom desligou o som. Verônica encarou o noivo, incrédula.
— Você vai me constranger por causa de uma empregada?
Dante soltou sua mão.
— Você se constrangeu sozinha.
Ele pediu a um funcionário que isolasse a área molhada, para evitar que alguém escorregasse, e indicou a Marina que não precisava permanecer ali.
— Eu posso terminar meu trabalho — respondeu ela. — Não preciso que me escondam.
Dante sustentou seu olhar e assentiu. Aquela resposta lhe pareceu mais digna do que qualquer discurso feito à mesa.
Verônica se recompôs diante dos convidados, mas a hostilidade permaneceu em seus olhos. Aproximou-se de Otávio, que observava tudo do corredor.
— Você disse que ele não teria energia para enfrentar ninguém esta noite.
— Não controlo cada gesto dele — respondeu o assessor.
— Então encontre outra maneira de afastar aquela mulher.
Marina voltou à cozinha. Joana lhe ofereceu um copo de água e perguntou se estava bem.
— Estou com vontade de pegar Sofia e ir embora — confessou Marina. — Mas Helena disse que o perigo está dentro desta casa. Sair sem entender o que está acontecendo também me assusta.
Joana contou que, depois da explosão, Otávio substituíra vários funcionários antigos. Alguns foram dispensados sem explicação; outros receberam dinheiro para assinar documentos de confidencialidade.
— Eu só fiquei porque trabalhava aqui antes de Dante nascer — disse. — Mesmo assim, nunca soube o que aconteceu naquela segunda cirurgia.
Marina pediu que Joana não arriscasse o emprego procurando papéis. Precisavam de provas obtidas de forma segura, não de mais pessoas ameaçadas.
Antes de retornar ao salão, Marina encontrou uma funcionária recém-contratada chorando perto da despensa. A jovem, chamada Bia, havia sido acusada de quebrar uma bandeja que nem sequer tocara.
— Não sei se vou receber pelo dia — contou Bia.
Marina ajudou a recolher os utensílios e sugeriu que a colega procurasse Joana para registrar o ocorrido. Não queria que a humilhação sofrida naquela noite se repetisse com outra pessoa.
Bia explicou que a ordem partira de Verônica, que exigira a substituição de toda a equipe de serviço antes do casamento.
— Ela disse que ninguém daqui merece aparecer nas fotografias — acrescentou.
Marina sentiu uma raiva tranquila. Entendeu que a violência daquela casa não estava apenas nos segredos médicos de Dante, mas na certeza de certas pessoas de que poderiam tratar trabalhadores como objetos.
Quando voltou ao salão, não procurou aprovação de ninguém. Continuou trabalhando, decidida a não entregar sua dignidade para conservar um salário.
No salão, Dante encontrou Helena sentada junto a uma janela. A mãe segurava a bolsa contra o colo como se quisesse fugir.
— Você disse a Marina que o homem da explosão mora aqui — afirmou ele.
Helena ficou imóvel.
— Ela contou?
— Não a culpe. Eu perguntei porque vi que você estava aterrorizada.
— Não sei tudo, Dante.
— Então me diga a parte que sabe.
Helena respirou fundo. Explicou que, após a explosão em Campinas, Otávio controlara a entrada de médicos no hospital. Ela lembrava um homem de jaleco sem identificação que insistira na urgência de um procedimento adicional.
— O doutor Henrique Vasconcelos discutiu com ele — acrescentou. — Ouvi Henrique dizer que não havia indicação clara.
Dante guardou o nome. Era a primeira informação nova que sua mãe lhe dava sem a presença do assessor.
— Você consegue reconhecer o outro médico?
— Talvez. Mas nunca mais o vi.
— Vamos procurar Henrique primeiro.
Enquanto os convidados jantavam, Rafael examinou os registros de entrada da sede do Grupo Montenegro. Descobriu que Verônica visitara o escritório de Otávio em horários coincidentes com várias crises de Dante.
Havia também chamadas frequentes para uma clínica particular, sempre antes das avaliações médicas organizadas pelo assessor.
Rafael não concluiu que as ligações provavam um crime. Salvou os registros disponíveis e pediu orientação jurídica sobre como preservá-los.
Dante recebeu a informação no jardim de inverno. A noite estava quente, mas ele sentia um frio desagradável na nuca.
— Quero que a doutora Camila Ribeiro avalie os exames — disse. — Sem Otávio escolher o horário ou conversar com ela antes.
— Posso conseguir uma consulta discreta — respondeu Rafael.
— Não quero uma consulta clandestina. Quero uma consulta que seja minha.
Rafael assentiu. A distinção parecia pequena, mas significava que Dante começava a recuperar decisões básicas sobre a própria saúde.
Mais tarde, Marina encontrou Dante perto da biblioteca. Ele estava sozinho, segurando o desenho de Sofia.
— Obrigado por não aceitar o que Verônica fez — disse ele.
Marina cruzou os braços.
— Não foi um favor que fiz ao senhor. Eu me defendi.
— Eu sei. Deveria ter impedido que ela tratasse qualquer funcionário assim antes.
— Sim, deveria.
Dante soltou uma risada breve.
— Você nunca facilita uma conversa.
— Passei tempo demais facilitando a vida de gente que não me respeitava.
Ele se tornou sério.
— Verônica vai sair da mansão até que eu esclareça algumas coisas.
— Isso é assunto entre vocês. Eu só quero que Sofia esteja segura.
— Quero isso também.
Marina percebeu que ele falava com sinceridade, mas não confundiu uma promessa com proteção suficiente. Pediu informações sobre os novos procedimentos de segurança e sobre quem teria acesso ao quarto das funcionárias.
Dante chamou Rafael e determinou que todas as entradas fossem registradas, inclusive as de pessoas próximas à família. Nenhuma autorização verbal de Otávio bastaria para retirar uma criança da propriedade.
A decisão irritou Verônica quando soube. Ela entrou no escritório de Otávio e fechou a porta.
— Dante está investigando minhas visitas à clínica.
Otávio permaneceu sentado.
— Então precisamos acelerar o afastamento dele do grupo.
— O casamento é em sete semanas. Se ele cancelar, perdemos acesso aos documentos.
— Há outras formas de conseguir uma assinatura.
Verônica olhou para a pasta sobre a mesa. Reconheceu a cópia da procuração que vira dias antes.
— Você está falando em declarar Dante incapaz?
— Estou falando em proteger os interesses que construímos.
Ela hesitou. Até então, imaginara que a manipulação terminaria com o casamento e o controle das contas. A palavra incapaz revelava um plano mais amplo.
Do lado de fora, Dante se aproximava do corredor para procurar Rafael. Ouviu a voz de Verônica através da porta entreaberta.
— Se ele recuperar a memória, nós dois estamos mortos.
Dante parou antes de ser visto. Não sabia se ela falava de culpa, medo ou ameaça, mas compreendeu que sua noiva conhecia algo sobre os três anos que ele perdera.
Recuou em silêncio. Pela primeira vez, decidiu não confrontar os dois imediatamente. Precisava descobrir o que escondiam antes que percebessem o quanto ele já sabia.
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