"A Filha da Empregada Tocou o Pescoço do Mafioso" Capítulo 2 — A Regra Que Ninguém Podia Quebrar
Na manhã seguinte, Dante encontrou o relatório médico sobre a mesa de café. A pasta estava limpa demais para um documento de três anos: nenhuma dobra, nenhuma anotação, apenas páginas impressas na mesma tinta.
— Isto é tudo? — perguntou a Otávio.
— É o resumo que os médicos prepararam.
— Pedi o prontuário completo.
Otávio puxou uma cadeira.
— Não vejo motivo para reviver aquele período. Você sofre sempre que tenta reconstruir o acidente.
Dante folheou o documento. Havia fotografias dos ferimentos, uma descrição da cirurgia e uma conclusão repetida em várias páginas: fragmento metálico residual sem indicação de retirada.
— Não há imagem da nuca — observou.
— Deve estar nos arquivos do hospital.
— Então vamos ao hospital.
Otávio respondeu que precisava confirmar a disponibilidade do especialista. Dante fechou a pasta, cansado de depender de autorizações para conhecer o próprio corpo.
Na cozinha, Marina preparava o lanche de Sofia quando Verônica Albuquerque apareceu. Vestia um conjunto de linho claro e não costumava entrar naquela parte da casa.
— Soube do incidente de ontem — disse.
Marina colocou o copo de leite diante da filha.
— Eu já pedi desculpas ao senhor Montenegro.
— Dante pode ser generoso quando está confuso. Eu não.
Verônica deixou um envelope sobre a mesa. Dentro havia um termo de confidencialidade e uma declaração afirmando que Sofia inventara a história do objeto na nuca.
— Assine. Depois, ninguém mais precisará falar disso.
Marina leu o documento até o fim.
— Minha filha não mentiu. Ela descreveu o que achou ter visto.
— Uma criança de cinco anos não sabe o que vê.
— Por isso não vou colocar na boca dela uma confissão que nunca fez.
Verônica inclinou-se para a menina.
— Sofia, querida, você quer que sua mãe perca o emprego?
Marina se colocou entre as duas.
— Não fale com ela dessa maneira.
O sorriso da noiva desapareceu.
— Você tem até o fim do dia para decidir se pretende continuar nesta casa.
Quando Verônica saiu, Sofia perguntou por que a mulher estava zangada. Marina respondeu que adultos também cometiam erros e que nenhuma ameaça feita a uma criança era aceitável.
Passou o resto da manhã considerando a demissão. Tinha economias para poucas semanas, mas ficar talvez significasse expor Sofia a um perigo que ainda não compreendia.
Enquanto dobrava roupas no quarto, ouviu a filha chamar.
— Mamãe, fiz outro desenho.
Sofia havia acrescentado uma luz amarela ao oval prateado.
— Você viu essa luz mesmo? — Marina perguntou.
— Vi quando o tio mexeu a cabeça. Parecia um olho pequenininho.
Marina estudou o papel. Um reflexo podia explicar o brilho, mas não o medo de Verônica. Guardou o desenho entre seus documentos pessoais.
À tarde, Dante convocou Rafael Costa, chefe de sua segurança particular. O homem trabalhava na mansão havia anos e costumava cumprir as ordens de Otávio sem questioná-las.
— Quero a lista de médicos que me atenderam depois da explosão — disse Dante. — E a data exata de cada procedimento.
Rafael hesitou.
— O senhor Otávio centraliza essas informações.
— Não perguntei quem as centraliza. Perguntei se consegue encontrá-las.
O segurança endireitou os ombros.
— Vou tentar pelos registros administrativos.
Dante percebeu a diferença entre obediência e lealdade. Pela primeira vez, não tinha certeza de qual delas recebera durante aqueles anos.
Antes de ir ao hospital, Dante percebeu que a gaveta onde guardava seus medicamentos estava trancada. A chave permanecia com Otávio, segundo a governanta.
— Desde quando preciso pedir autorização para abrir uma gaveta minha? — perguntou.
A governanta, dona Célia, respondeu que recebera instruções depois de uma crise antiga. Não sabia quem preparava as doses; apenas recebia os comprimidos separados em envelopes.
Dante pediu que ninguém alterasse ou descartasse os medicamentos até que fossem examinados por profissionais responsáveis. Rafael fotografou os rótulos e registrou o horário de cada entrega.
No hospital, Dante contou ao médico que não conhecia com precisão tudo o que tomava. A informação mudou a avaliação. O profissional solicitou uma revisão da prescrição e recomendou que ele não interrompesse nenhum tratamento por conta própria.
Dante saiu da consulta com uma lista de perguntas. Pela primeira vez, parecia mais útil do que uma lista de ordens.
No fim da tarde, uma dor intensa o obrigou a interromper uma reunião por telefone. As palavras do interlocutor se tornaram indistintas, embora o sinal estivesse perfeito.
Ele se levantou para buscar água, mas perdeu o equilíbrio perto da escrivaninha. Um copo caiu e se quebrou.
Marina ouviu o ruído ao passar pelo corredor. Abriu a porta e encontrou Dante ajoelhado, apoiado no móvel.
— Senhor Dante?
— Saia — ele murmurou. — Não quero plateia.
Ela notou sua palidez e a dificuldade de organizar as palavras.
— Vou chamar ajuda médica.
— Otávio disse que isso passa.
— Pode passar, mas não vou apostar sua segurança numa frase.
Marina telefonou para a equipe de emergência indicada pela casa. Evitou movê-lo sem necessidade e permaneceu por perto, observando sua respiração e o nível de consciência.
Dante tentou dizer o nome de uma cidade. Repetiu a primeira sílaba, irritado, e desistiu.
— Campinas? — Marina perguntou, lembrando-se da explosão.
Ele assentiu, mas segundos depois pareceu não recordar por que falavam do assunto.
O médico que chegou examinou Dante e recomendou avaliação hospitalar. Otávio apareceu antes da saída e tentou minimizar a crise.
— Episódios assim são esperados.
— Esperados por quem? — Marina perguntou.
Otávio a encarou.
— Sua função é cuidar da casa, não discutir diagnósticos.
Dante, ainda sentado, ergueu a cabeça.
— Ela foi a única pessoa que chamou um médico.
O assessor ficou em silêncio. Rafael acompanhou Dante ao hospital, onde exames iniciais não apontaram uma emergência cirúrgica evidente, mas motivaram investigação neurológica adicional.
Marina permaneceu na mansão com Sofia. Não conseguia dormir. O medo de perder o emprego agora dividia espaço com a certeza de que algo grave estava sendo escondido.
Na manhã seguinte, Dante a chamou à biblioteca. A menina ficou com a cozinheira, Joana, que prometeu ensinar uma receita de biscoitos.
— Você já trabalhou em hospital? — perguntou ele.
— Como auxiliar de cuidados. Não sou médica.
— Mesmo assim percebeu que eu precisava de ajuda.
— Qualquer pessoa teria percebido se estivesse olhando.
Dante examinou o rosto dela.
— As pessoas aqui olham para Otávio antes de olhar para mim.
Marina não negou.
— Talvez tenham medo de perder alguma coisa.
— E você não tem?
— Tenho uma filha. Tenho medo todos os dias. Isso não significa que vou concordar com uma mentira.
Ele se aproximou da janela, pensativo.
— Quero que continue trabalhando aqui, se desejar. E Sofia não será punida por ter feito uma pergunta.
Marina agradeceu, mas não prometeu ficar. Pediu que a menina pudesse circular apenas com sua supervisão e que ninguém voltasse a ameaçá-la.
Dante concordou. Depois ordenou a Rafael que localizasse os arquivos originais do Hospital São Gabriel, sem passar por Otávio.
Naquela noite, o segurança retornou com um envelope obtido por solicitação formal. Havia duas datas cirúrgicas, embora Dante só conhecesse uma operação.
A segunda entrada mencionava um procedimento complementar autorizado depois de sua estabilização.
— Quem assinou? — Dante perguntou.
Rafael virou a última folha. Sua expressão mudou.
Dante tomou o papel e leu a linha impressa acima da assinatura: “Procedimento complementar autorizado pela responsável legal”.
Abaixo, reconheceu a caligrafia da pessoa em quem mais confiara durante a infância.
Helena Montenegro.
Por um longo instante, ficou imóvel. Depois pediu que Rafael não informasse Otávio sobre a descoberta.
— Amanhã vou conversar com minha mãe — disse. — E desta vez ninguém vai responder por ela.
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