"A Filha da Empregada Tocou o Pescoço do Mafioso" Capítulo 1 — O Bichinho de Metal
— Tem alguma coisa atrás do seu pescoço, moço.
A voz de Sofia Oliveira mal ultrapassou o barulho da chuva contra os vidros da biblioteca. Aos cinco anos, ela ainda não compreendia por que todos na mansão Montenegro falavam baixo quando Dante estava por perto.
O homem dormia no sofá de couro, com um livro de contabilidade aberto sobre o peito. A gravata havia sido afrouxada, e o cabelo escuro deixava à mostra uma pequena elevação junto à nuca.
Sofia abandonou os lápis sobre o tapete. Aproximou o rosto, intrigada com o brilho prateado que surgia sob a pele quando a luz do abajur mudava de ângulo.
— Parece um bichinho de metal — murmurou.
Do outro lado da sala, Marina Oliveira limpava uma estante. Quando percebeu a filha inclinada sobre o patrão, sentiu o sangue gelar.
— Sofia, saia daí!
A menina já havia estendido o indicador. Tocou de leve a saliência, sem perceber que quebrava a regra mais importante daquela casa.
Dante abriu os olhos e segurou seu pulso.
O movimento foi tão rápido que Marina deixou o pano cair. Correu até o sofá, ajoelhou-se e tentou manter a voz firme.
— Senhor Montenegro, por favor. Ela é uma criança. Não sabia o que estava fazendo.
Sofia arregalou os olhos. O homem não apertava sua mão com força, mas a expressão dele bastava para assustá-la.
— Quem deixou você entrar aqui? — perguntou Dante.
— Eu trouxe meus desenhos — respondeu a menina. — A mamãe estava trabalhando.
Marina aproximou a mão do braço dele.
— Solte minha filha. Eu assumo a responsabilidade.
Dante olhou para o pulso pequeno que segurava. Soltou-o imediatamente, como se tivesse despertado de um pesadelo.
— O que ela disse?
Sofia se escondeu atrás da mãe. Depois apontou para a própria nuca.
— Tem um bichinho aí. Acho que ele está machucando você.
Dante levou os dedos ao local. Encontrou a cicatriz conhecida, um relevo que os médicos chamavam de fragmento impossível de remover.
— Não é um inseto — disse, com irritação. — É uma marca antiga.
— Mas ele brilhou — insistiu Sofia. — E parecia que estava olhando pra mim.
Marina a ergueu no colo.
— Desculpe. Não vai acontecer de novo.
Antes que chegasse à porta, Otávio Ferraz entrou na biblioteca. Usava um terno cinza impecável e carregava o celular junto ao ouvido.
— O que houve? Ouvi uma gritaria.
Dante se levantou devagar. Uma pontada percorreu a base de seu crânio, como acontecia quase todas as tardes.
— A menina tocou minha cicatriz.
Otávio deixou o telefone cair alguns centímetros antes de recuperá-lo.
— Tocou onde?
— Na nuca. Por que essa pergunta?
O assessor observou Sofia por tempo demais. Marina sentiu a filha esconder o rosto em seu ombro.
— O médico foi claro sobre essa região — respondeu Otávio. — Qualquer pressão pode provocar dor.
— Ela mal encostou — Marina protestou.
— Você está aqui há três meses, Marina. Não conhece as consequências de desobedecer às regras.
Dante ergueu a mão, interrompendo-o.
— Chega. A criança já está assustada.
A frase surpreendeu Marina. Desde que começara a trabalhar na mansão do Morumbi, ouvira histórias sobre a crueldade de Dante, mas nunca o vira falar com alguém para defendê-lo.
Otávio abriu a porta e indicou o corredor.
— Leve sua filha para a área dos funcionários. Conversaremos depois.
Marina saiu sem responder. Na cozinha, colocou Sofia numa cadeira e examinou seu pulso. Não havia marcas, apenas a memória do susto.
— Você está brava comigo? — perguntou a menina.
— Estou com medo, meu amor. Eu pedi que não se aproximasse do senhor Dante quando ele estivesse descansando.
— Mas ele parecia triste.
Marina não soube o que dizer. Sofia desenhava animais, flores e pessoas sorrindo. Nunca tinha demonstrado interesse por cicatrizes.
— Por que você falou que o bichinho olhava para você?
Sofia pegou o lápis prateado.
— Tinha uma pontinha brilhando. Quando eu mexi a cabeça, ela mudou de lugar.
Marina compreendeu que a filha talvez tivesse visto apenas um reflexo. Mesmo assim, lembrou-se das pequenas peças médicas que conhecera quando trabalhava como auxiliar de cuidados num hospital.
Uma cicatriz não deveria parecer ter bordas regulares. Também não explicava o modo como Otávio reagira ao ouvir a pergunta.
Na biblioteca, Dante tentava voltar ao livro. Não conseguia ler duas linhas sem levar a mão à nuca.
— Você ficou pálido quando ela falou da cicatriz — disse a Otávio.
— Fiquei preocupado com sua saúde.
— É sempre essa a resposta.
Otávio fechou a pasta sobre a mesa.
— Há três anos, você quase morreu numa explosão em Campinas. Os cirurgiões retiraram estilhaços do seu ombro e da cabeça. Um fragmento próximo à coluna teve de ficar.
Dante conhecia a explicação. Ouvira-a tantas vezes que podia repeti-la palavra por palavra.
— Quem decidiu deixá-lo?
— A equipe médica. Temos os relatórios.
— Então quero vê-los.
Otávio demorou um instante a responder.
— Posso pedir cópias amanhã.
— Hoje.
O assessor assentiu, mas seu sorriso não chegou aos olhos.
Antes de dormir, Marina telefonou para Joana, que ainda terminava o turno na cozinha. Perguntou se havia alguma razão para o descanso de Dante acontecer sempre no mesmo horário.
— As luzes ficam apagadas e ninguém pode levar comida — contou Joana. — O senhor Otávio diz que o tratamento exige silêncio absoluto.
— E o médico vem todos os dias?
— Não. Às vezes chega uma maleta, e Otávio sobe sozinho.
Marina agradeceu e encerrou a chamada. Não tinha provas de nada, apenas detalhes que não combinavam com uma cicatriz comum. Decidiu anotar as informações num caderno, com datas, sem expor a filha a novas perguntas.
Na cama, Sofia perguntou se precisaria pedir desculpas novamente.
— Você pode pedir desculpas por tocar alguém sem permissão — explicou Marina. — Mas nunca precisa pedir desculpas por contar a verdade sobre o que viu.
A menina concordou e apagou a luz. Marina ficou acordada, ouvindo a chuva diminuir sobre o telhado.
À noite, Marina encontrou um bilhete de advertência sobre a bancada do quarto de serviço. Nele, a administração lembrava que crianças não tinham autorização para circular nas áreas privadas.
Abaixo havia uma frase escrita à mão: “Uma nova infração resultará em desligamento imediato.”
Ela dobrou o papel e o guardou longe de Sofia. Precisava do salário para pagar a escola e o aluguel do pequeno apartamento onde viviam antes de aceitar o emprego com moradia.
A menina estava sentada na cama, desenhando. No papel havia um homem de terno e, atrás de sua cabeça, uma forma oval com três riscos finos.
— Isso é o quê? — Marina perguntou.
— O bichinho.
— E esses risquinhos?
— As perninhas. Eu vi quando a luz bateu.
Marina se sentou ao lado dela. O desenho era infantil, mas a simetria da forma a incomodou.
No andar superior, Dante dispensou os empregados e entrou sozinho no banheiro. Afastou o cabelo com uma mão e posicionou dois espelhos até conseguir observar a nuca.
A cicatriz parecia menor do que imaginava. Ao lado dela, porém, havia uma linha fina, quase reta, que nunca tinha notado.
Ele se aproximou da luz. Uma borda clara surgiu sob a pele, acompanhando a curva de um pequeno objeto.
Dante pressionou a região.
A dor veio como um golpe. O espelho escapou de sua mão e se partiu na pia. Por alguns segundos, ele não soube se estava em casa ou no hospital onde acordara após a explosão.
Viu um clarão, ouviu alguém dizendo seu nome e sentiu o cheiro de borracha queimada. Depois a lembrança desapareceu, deixando apenas náusea.
Apoiou as mãos na bancada até recuperar o equilíbrio.
No escritório de segurança, o celular de Otávio vibrou. Um aviso codificado indicava uma alteração inesperada no registro de monitoramento do paciente Montenegro.
Ele abriu a mensagem e leu duas vezes. Então ligou para um número salvo sem nome.
— Precisamos antecipar a próxima avaliação — disse.
Do outro lado, uma voz feminina perguntou o motivo.
Otávio olhou para a porta fechada.
— Ele descobriu.
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