"A Garçonete Salvou o Chefe da Máfia… E Foi Demitida Por Isso" Capítulo 10 — A Verdade Servida na Mesa Quatro
Dante rompeu as cordas com uma faca e deitou Júlia no chão.
— Olhe para mim.
Ela tentou responder, mas os músculos da mandíbula já não obedeciam.
Rafael trouxe o estojo médico preparado após o primeiro envenenamento. O antídoto estava ali porque Júlia exigira que todas as equipes carregassem uma dose.
Dante aplicou a injeção na coxa dela.
— Você vai ficar comigo.
O peito de Júlia subiu com dificuldade. Seus olhos permaneceram abertos, fixos nele.
— Ambulância em dois minutos — informou Rafael.
Dante segurou a mão dela como Júlia segurara a sua no Bellagio.
— Não feche os olhos.
Os paramédicos chegaram quando a cor começava a retornar aos lábios dela.
No hospital, Júlia ficou sob observação durante vinte e quatro horas. A dose não fora fatal porque parte do líquido vazara durante a invasão.
Dante permaneceu junto à porta, recusando reuniões e chamadas.
Durante a madrugada, ele recebeu o relatório do antídoto, autorizou a polícia a acessar contas do grupo e transferiu temporariamente suas funções executivas a um conselho externo. Pela primeira vez, proteger Júlia não significava concentrar mais poder nas próprias mãos.
Rafael encontrou-o lendo o caderno de pedidos recuperado do galpão.
— Ela correu perigo porque ficou perto de mim.
— Ela correu perigo quando decidiu salvar o senhor. Ficar ou partir continuará sendo decisão dela.
Dante fechou o caderno. O conselho era exatamente o que Júlia diria.
Ao despertar, Júlia viu o paletó dele dobrado sobre a cadeira e um copo de café intocado.
— Você ficou aqui?
— Prometi protegê-la.
— Não conseguiu impedir que me levassem.
A culpa atravessou o rosto dele.
— Não.
— Mas entendeu o código e chegou antes que terminassem a gravação.
— Cheguei tarde o bastante para ele injetar o veneno.
Júlia estendeu a mão.
— Dante, eu não preciso que seja infalível. Preciso que não minta sobre seus erros.
Ele segurou seus dedos.
— Então errei ao acreditar que podia controlar cada risco. Errei ao pensar que dinheiro reparava tudo. E errei ao permitir que Caetano parecesse família apenas porque carregava meu sobrenome.
— Essa foi uma confissão longa.
— Não pretendo repeti-la.
Júlia sorriu pela primeira vez desde o sequestro.
Rafael entrou com novidades. Caetano convocara uma coletiva no Bellagio para aquela noite. Alegava que Dante estava emocionalmente instável e incapaz de comandar o grupo.
Também anunciaria a criação de um conselho provisório sob sua liderança.
— Ele acredita que estou internada — disse Júlia.
— E que Dante ficará aqui — completou Rafael.
Júlia afastou o lençol.
— Então vamos deixar que comece a coletiva.
Dante tentou impedi-la de levantar.
— Você quase morreu.
— Você também voltou ao trabalho dez dias depois.
— Eu sou teimoso.
— Finalmente outra coisa em que concordamos.
Às oito da noite, o Bellagio estava reaberto parcialmente. O incêndio destruíra a cozinha, mas o salão principal permanecera intacto.
Júlia chegou pela entrada de serviço. Parou diante do armário onde seu caderno desaparecera e vestiu um uniforme idêntico ao usado na noite do atentado.
Não queria parecer integrante da família Montenegro. Queria que todos vissem quem reunira as provas quando empresários, advogados e homens armados escolheram o silêncio.
Dante esperava no corredor.
— Posso entrar primeiro.
— Se entrar primeiro, as câmeras olharão para você.
— Eles podem tentar humilhá-la.
— Já tentaram. Desta vez, eu trouxe documentos.
Ele abriu espaço para que ela passasse.
Caetano reuniu acionistas, jornalistas e representantes políticos. Sentou-se diante da mesa quatro, transformando o lugar do atentado em palco para sua vitória.
— Dante Montenegro foi manipulado por uma criminosa — declarou às câmeras. — Júlia Nascimento planejou a falsa emergência para infiltrar-se em nossa família.
No telão surgiu a confissão gravada. Caetano cortara as frases codificadas e mantivera apenas trechos em que Júlia lia o texto.
Ricardo foi levado ao salão sob escolta para confirmar a versão.
— Diga quem colocou o veneno na taça — ordenou Caetano.
Ricardo olhou para as câmeras e depois para dois homens posicionados perto da saída. Sua família ainda estava ameaçada.
— Foi Júlia Nascimento — mentiu.
As portas do salão se abriram.
Júlia entrou usando o antigo uniforme preto do restaurante.
O murmúrio cresceu. Caetano perdeu a cor.
— Uma garçonete não interrompe esta reunião.
Júlia caminhou até a mesa quatro e colocou a taça recuperada diante dele.
— Foi uma garçonete que impediu você de herdar um império através de um cadáver.
Dante entrou logo atrás, acompanhado de Rafael e investigadores.
Caetano tentou sorrir.
— A mulher que envenenou você agora escolhe o que deve acreditar?
— Não — respondeu Dante. — As provas escolhem.
Rafael conectou o pen drive ao telão. As gravações de Ricardo foram reproduzidas sem distorção após perícia técnica.
A voz de Caetano descrevia o composto, a troca da garrafa e os vinte minutos de câmera apagada.
Em seguida, apareceram as transferências da Brava Logística, as autorizações eletrônicas e os registros da farmácia interna.
Uma perita independente explicou ao vivo que os arquivos continham assinaturas digitais compatíveis com os servidores do grupo. O laudo da taça confirmou o mesmo composto encontrado nas cápsulas e no sangue de Dante.
Júlia exibiu a fotografia tirada no dia da demissão. O saco preto possuía o número do cofre em que a taça fora encontrada.
— Ricardo me afastou do mercado porque eu podia ligar o restaurante à tentativa de homicídio — disse ela. — Dezessete casas recusaram meu currículo depois das ligações dele.
Três antigos funcionários levantaram-se entre os jornalistas. Confirmaram que receberam ordens para não ajudar Dante e para apagar registros da mesa quatro.
Caetano levantou-se.
— Arquivos podem ser falsificados.
— Concordo — disse Júlia. — Por isso trouxemos algo que você não sabia que existia.
Sônia entrou pela porta lateral.
Ela não fora sequestrada no hospital. Rafael a retirara secretamente após receber informação sobre uma segunda tentativa de assassinato. O desaparecimento fora mantido para protegê-la e fazer Caetano acreditar que controlava o jogo.
— Ele ameaçou meu filho — declarou Sônia. — Mandou trocar os remédios e obrigou Bianca a esconder o frasco.
Caetano recuou.
— Palavra de uma empregada comprada.
Sônia ergueu o rosto.
— O senhor usou meu filho porque acreditou que uma governanta pobre não teria coragem de falar. Foi o seu erro.
No telão apareceram as ameaças recebidas por ela, acompanhadas de registros telefônicos ligados a um aparelho usado pelo supervisor de Caetano.
Bianca surgiu por videoconferência sob custódia. Admitiu ter sedado Júlia e participado da armação, mas confirmou que as ordens e o veneno vieram de Caetano.
— Ele prometeu que Dante morreria antes do casamento — declarou. — Depois, eu herdaria as ações e assinaria o controle para ele.
Ricardo começou a rir, nervoso.
— É assim que chama todo mundo quando deixa de servir?
Ele contou onde escondera a gravação original. A polícia já havia localizado uma cópia automática enviada para um servidor estrangeiro.
Júlia abriu a transmissão ao vivo do próprio celular.
— O Brasil inteiro está ouvindo.
Caetano puxou uma arma do tornozelo.
Dante colocou-se diante de Júlia. Rafael apontou primeiro.
— Largue a arma — ordenou Dante.
— Você destruiria o nome Montenegro por causa de uma garçonete?
— Você destruiu o nome quando decidiu que pessoas sem dinheiro não teriam voz.
Caetano apontou para Júlia.
— Ela vai deixá-lo assim que não precisar de proteção.
— Essa escolha pertence a ela.
Júlia ficou imóvel ao ouvir a resposta. Meses antes, Dante teria anunciado que ninguém tocaria no que era dele. Agora, diante de toda a família, recusava-se a transformá-la em posse até para declarar proteção.
A resposta o desarmou mais do que a arma de Rafael. Caetano percebeu que Dante não tentaria possuir Júlia para vencê-lo.
Os policiais avançaram. Ele foi algemado diante das câmeras.
Bianca aceitou colaborar e entregou mensagens, contas e gravações. Ricardo também firmou acordo judicial, assumindo que recebera dinheiro e impedira o socorro.
Quando o salão esvaziou, Dante encontrou Júlia retirando o avental.
— Venha para casa comigo.
— A mansão não é minha casa.
— Pode ser.
— Não quero que seja.
Dante ficou em silêncio.
— Você me protegeu quando ninguém acreditava em mim — continuou Júlia. — Mas não sobrevivi a tudo isso para trocar a autoridade de Ricardo pela sua.
— O que vai fazer?
— Reconstruir minha vida.
Ela deixou o avental dobrado sobre a mesa quatro.
Dante não a impediu.
Pela primeira vez, amar alguém significou permitir que ela fosse embora.
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