"A Garçonete Salvou o Chefe da Máfia… E Foi Demitida Por Isso" Capítulo 5 — O Veneno Estava Dentro da Casa
O segurança morreu antes da chegada do médico da família.
Dante permaneceu ao lado do corpo, imóvel. A frase do homem parecia continuar no quarto: o traidor jantava com ele todas as noites.
Júlia olhou para o corredor. Bianca e Caetano haviam acabado de chegar.
— O que aconteceu? — perguntou Caetano.
Rafael explicou que o guarda invadira o quarto e ingerira veneno. Não repetiu suas últimas palavras.
Bianca fitou Júlia.
— Desde que essa mulher entrou, nossa casa virou um necrotério.
— O homem trabalhava aqui havia seis anos — respondeu Júlia. — Talvez o problema já estivesse na casa antes de mim.
Dante ordenou que ninguém deixasse a propriedade. Telefones, veículos e acessos seriam verificados.
— Inclusive os nossos? — perguntou Caetano.
— Principalmente os nossos.
O sorriso cordial do primo desapareceu por um instante.
Quando o corredor esvaziou, Júlia mostrou a Dante um pequeno pedaço de plástico encontrado sob a cama. Era parte do lacre de um frasco farmacêutico.
— Ele não veio apenas me atacar. Procurava alguma coisa.
— Seu bloco com o número da garrafa — concluiu Rafael.
— Estava na minha mochila. Ele não encontrou porque eu o escondi dentro do caderno da minha mãe.
Dante encarou a mochila.
— Você dormiu sobre a única prova que temos?
— Dormi sobre a única coisa que ainda era minha.
Rafael enviou o lacre ao laboratório. Júlia pediu para acompanhar a busca no quarto do invasor, mas Dante recusou.
— Já foi alvo de um atirador e de um homem envenenado.
— E em ambos os casos percebi detalhes que seus homens ignoraram.
— Isso não a torna invulnerável.
— Também não me torna decoração da sua casa.
Dante respirou fundo. Mandou Rafael entregar a ela um colete leve e autorizou sua presença.
O quarto do guarda ficava perto da garagem. Havia poucas roupas, nenhum objeto pessoal e uma gaveta trancada.
Rafael abriu a fechadura. Dentro, encontraram cinquenta mil reais, uma fotografia da filha do homem saindo da escola e um bilhete sem assinatura.
“Faça o que foi pedido e ela continuará segura.”
Júlia sentiu o estômago se contrair.
— Ele não traiu Dante por dinheiro.
— Foi coagido — disse Rafael.
— E tomou veneno para não revelar quem ameaçou a filha.
Dante pegou a fotografia.
— Localize a menina e a mãe. Proteção integral.
Rafael saiu para cumprir a ordem.
Júlia observou Dante guardar o bilhete. A crueldade de sua reputação convivia com uma regra inesperada: crianças não pagariam pelas escolhas dos adultos.
— Você acreditou nele — disse ela.
— Acreditei na fotografia.
— É mais fácil confiar em provas do que em pessoas?
— Provas não mudam de lado quando recebem uma oferta melhor.
Naquela tarde, Júlia ajudou a organizar os medicamentos recuperados do quarto de Dante. Não tocou em nada sem luvas e fotografou cada embalagem antes de abri-la.
— O que procura? — perguntou Dante.
— Algo fora do padrão. Minha mãe tomava doze remédios. Eu reconhecia cada comprimido pelo formato.
Ela separou duas cápsulas de um frasco de vitaminas. Uma tinha a junção mais grossa e pó acumulado na borda.
— Esta foi aberta e fechada novamente.
Dante comparou as cápsulas. A diferença era quase invisível.
— Quem prepara meus comprimidos é a equipe médica.
— Quem entrega?
— A governanta leva a caixa ao café da manhã.
— E quem tem acesso antes disso?
Dante não respondeu. A farmácia interna ficava na ala administrativa, controlada pela diretoria financeira de Caetano.
O laboratório confirmou horas depois que a cápsula continha traços do mesmo composto encontrado no sangue de Dante.
Não se tratava de um ataque isolado.
Júlia pediu os exames anteriores de Dante. Três semanas antes do jantar, ele procurara um médico por dormência nas mãos. Dez dias depois, cancelara uma reunião por causa de visão turva. Cada episódio coincidia com a reposição semanal das cápsulas.
— Estavam testando a dose — disse ela. — Aumentavam aos poucos e observavam sua reação.
— Como alguém observa sem levantar suspeita?
— Ficando perto quando você toma o remédio e perguntando depois se está cansado.
Dante recordou Bianca oferecendo café, Caetano comentando sua aparência e a governanta insistindo para que não esquecesse as vitaminas. Gestos aparentemente cuidadosos se transformaram em peças de uma experiência cruel.
Alguém vinha administrando pequenas doses havia semanas.
— A última taça deveria concluir o serviço — disse Júlia.
Dante fechou a mão em torno do laudo.
— Meu cansaço, as tonturas, a perda de força…
— Não eram excesso de trabalho.
Ele se levantou e caminhou até a janela. Pela primeira vez, Júlia o viu compreender que seu corpo fora invadido dentro da própria casa.
— Eu me sentei à mesa com eles todas as noites.
— E alguém observou você engolir cada dose.
Dante virou-se.
— Você também está dentro desta casa agora.
— Não por escolha.
— A bala atravessou sua cadeira.
— Isso não transforma uma prisão em abrigo.
Ele se aproximou, mas parou antes de invadir o espaço dela.
— O que seria proteção para você?
A pergunta surpreendeu Júlia.
— Poder sair do quarto sem pedir licença. Saber o que sua equipe descobre. Ter um telefone que ninguém monitore. E decidir quando vou embora.
— Um telefone não monitorado é um risco.
— Então me explique o risco. Não esconda uma coleira atrás da palavra segurança.
Dante concordou com três das quatro exigências. O telefone permaneceria protegido, mas Júlia receberia aviso sobre qualquer rastreamento.
Foi a primeira negociação em que ele cedeu sem exigir algo em troca.
Rafael entregou o aparelho e mostrou os alertas de segurança. Júlia testou a câmera, desligou a localização e anotou quais permissões estavam ativas. Dante observou a verificação minuciosa.
— Não confia em ninguém?
— Confio em atitudes repetidas. Promessas são fáceis quando a pessoa controla todas as portas.
— E quantas atitudes serão necessárias para confiar em mim?
— Mais de uma.
A resposta não o ofendeu. Pela primeira vez, Dante aceitou que respeito não era uma dívida adquirida por resgate ou proteção.
À noite, Caetano convocou uma reunião na sala de jantar. Disse que o conselho precisava saber se Dante estava em condições de comandar o grupo.
— Uma tentativa de assassinato não me torna incapaz — respondeu Dante.
— Não. Mas confiar decisões internas a uma garçonete talvez torne.
Júlia não reagiu à provocação.
— Quem aprovou a compra das vitaminas? — perguntou.
Caetano olhou para ela.
— A equipe médica.
— A nota passou por sua diretoria.
— Milhares de notas passam.
— Então não terá dificuldade em entregar os registros.
Bianca pousou a taça com força.
— Você não interroga um Montenegro.
— Se um Montenegro colocou veneno nas cápsulas, interrogo.
Dante não a repreendeu. Pediu a Caetano os documentos até a manhã seguinte.
O jantar terminou sem sobremesa.
Mais tarde, Júlia atravessava o corredor quando percebeu um reflexo no espelho. Caetano estava parado diante do escritório, observando-a.
Ele sorriu com gentileza.
— Você é muito corajosa.
— Não tanto quanto pareço.
— Pessoas corajosas costumam morrer porque confundem medo com fraqueza.
— Isso foi um conselho?
— Uma preocupação.
Caetano se afastou.
Júlia entrou no quarto e examinou as fotografias tiradas durante a busca. Ampliou a imagem do dinheiro guardado pelo segurança morto.
As cintas bancárias traziam uma data.
O saque fora realizado na manhã seguinte ao envenenamento.
Ela consultou o relatório financeiro entregue por Rafael. O valor saíra de uma empresa terceirizada do grupo Montenegro.
A assinatura de autorização era de Caetano.
Antes que pudesse chamar Dante, alguém bateu à porta.
Uma funcionária entrou carregando uma bandeja.
— Seu chá, senhora.
Júlia não pedira chá.
Na superfície da bebida, um pó branco ainda não havia se dissolvido completamente.
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