"A Garçonete Salvou o Chefe da Máfia… E Foi Demitida Por Isso" Capítulo 4 — A Garçonete Entrou na Mansão
Os portões da mansão Montenegro se abriram pouco depois da meia-noite.
Júlia observou jardins iluminados, câmeras giratórias e homens armados distribuídos entre as árvores. A propriedade parecia menos uma casa do que uma embaixada preparada para uma guerra.
Dante notou seu olhar.
— Está segura aqui.
— A bala pertencia à sua empresa.
— Estará segura quando eu descobrir quem autorizou o disparo.
— Isso foi menos tranquilizador do que imaginou.
O carro parou diante de uma escadaria larga. Funcionários aguardavam em duas filas, despertados no meio da noite. Júlia percebeu como todos evitavam olhar diretamente para Dante. Naquele lugar, medo e respeito usavam o mesmo uniforme.
Rafael escondeu um sorriso. Dante não respondeu.
No salão principal, Bianca Ferraz aguardava vestindo um robe de seda. Seus olhos passaram pelo corte no rosto de Júlia, pelo casaco de Dante em seus ombros e pela mochila simples.
— Você trouxe a garçonete para casa?
— Tentaram matá-la.
— E isso agora é problema da família?
Dante entregou o projétil a Rafael.
— Tornou-se problema da família quando usaram munição da nossa empresa.
Bianca perdeu a cor por um instante. Recuperou-se rapidamente.
— Talvez ela tenha inimigos próprios.
— Eu servia mesas até dez dias atrás — disse Júlia. — Minha maior inimiga era uma máquina de café que queimava todos os domingos.
Bianca a ignorou.
— Caetano precisa saber disso.
— Caetano saberá pela manhã — respondeu Dante. — Júlia ficará no quarto azul.
— O quarto azul é reservado a convidados.
— Foi exatamente o que eu disse.
Bianca chamou a governanta e mudou a ordem assim que Dante subiu para falar com os seguranças. Júlia foi conduzida a um quarto estreito na ala dos empregados.
Ela não reclamou. Trancou a porta, empurrou uma cadeira contra a maçaneta e dormiu com a mochila sob o travesseiro.
Às seis da manhã, acordou com vozes no corredor.
Duas funcionárias comentavam que Dante levara uma desconhecida para casa. Uma delas dizia que Júlia tentara seduzi-lo no hospital. A outra afirmava que recebera dinheiro para inventar o envenenamento.
Júlia abriu a porta.
— Se vão falar de mim, pelo menos acertem a história.
As duas fugiram, envergonhadas.
No café da manhã, Dante ocupava a cabeceira de uma mesa longa. Caetano Montenegro estava à sua direita. Bianca, à esquerda.
Caetano se levantou para cumprimentar Júlia.
— A mulher que salvou meu primo. A família tem uma dívida com você.
Ele parecia cordial. Tinha voz calma, terno impecável e um sorriso que não revelava nada.
Júlia observou suas mãos. Nenhum tremor. Nenhuma pressa. Apenas um anel antigo com o brasão Montenegro.
— Não quero dívidas — respondeu.
— Todos querem alguma coisa.
— Foi o que seu primo pensou.
Dante ergueu os olhos do café.
Bianca soltou uma risada curta.
— Ela realmente acredita que pode falar assim nesta mesa.
— Foi convidada por mim — disse Dante.
— Não sabia que abríamos a casa para qualquer funcionária que chama uma ambulância.
Júlia se sentou sem pedir licença.
— Também não sabia que salvar uma vida exigia determinada faixa salarial.
Caetano disfarçou um sorriso. Bianca apertou a xícara.
Durante a refeição, Rafael informou que o atirador usara acesso interno para retirar munição do depósito. Os registros digitais haviam sido apagados.
— Quantas pessoas poderiam fazer isso? — perguntou Júlia.
Bianca olhou para ela.
— Isto não é uma reunião de garçons.
— Responda — ordenou Dante a Rafael.
— Doze pessoas. Incluindo membros da segurança e quatro diretores do grupo.
Caetano pousou o guardanapo.
— Devemos considerar que a moça pode ter sido seguida por alguém ligado ao restaurante.
— A munição saiu daqui — lembrou Júlia.
— Ou foi colocada no apartamento para nos fazer pensar assim.
A hipótese era razoável. Isso a incomodou.
Depois do café, Júlia pediu acesso aos objetos recuperados de sua casa. Encontrou seu celular, as contas, os remédios e um pequeno bloco de papel.
Não era o caderno de pedidos perdido no Bellagio. Era um bloco reserva que carregava no bolso do avental.
Ela folheou as páginas.
Na noite do envenenamento, anotara o pedido da mesa quatro antes de transferi-lo ao sistema: água com gás, filé malpassado, legumes e café sem açúcar.
Não havia vinho.
Na margem, Júlia escrevera o número da garrafa entregue como cortesia: BLP-0719.
Ela procurou Dante no escritório.
Dois seguranças tentaram barrá-la.
— Se eu tivesse obedecido homens armados, ele estaria morto — disse Júlia. — Chamem-no.
Dante ouviu de dentro e mandou que entrasse.
Júlia colocou o bloco sobre a mesa.
— Você não pediu vinho.
— Não bebo durante reuniões.
— Então por que aceitou a garrafa?
— O garçom disse que era um presente da casa. Trazia um cartão do proprietário.
— O Bellagio não oferece aquela marca. Eu decorei os códigos do estoque porque Ricardo descontava qualquer erro do nosso salário.
Júlia explicou que as duas primeiras letras indicavam o fornecedor, enquanto os números identificavam lote e mês de entrada. O código BLP jamais aparecera nos relatórios semanais do restaurante. Alguém levara a garrafa de fora e criara uma falsa cortesia para colocá-la diante de Dante.
Rafael fotografou a anotação.
— Podemos rastrear o lote.
— Meu caderno original tinha mais detalhes — disse Júlia. — Deixei no armário quando fui demitida.
Dante ordenou que buscassem o objeto.
Horas depois, Rafael informou que o armário fora esvaziado. Ricardo continuava desaparecido.
Naquela noite, Bianca organizou um jantar para três acionistas. Obrigou Júlia a vestir um uniforme cinza da equipe doméstica, alegando que uma “hóspede sem educação” não deveria circular entre convidados.
Júlia aceitou o uniforme.
Entrou no salão com o bloco nas mãos e o colocou diante de Dante.
— Já que sua casa prefere me ver como funcionária, vou trabalhar. Comece perguntando quem autorizou a entrada do lote BLP-0719 no seu depósito.
Os acionistas ficaram em silêncio.
Bianca se levantou.
— Isso é uma chantagem?
— É uma pergunta.
— Você entra nesta casa, inventa um atentado e agora acusa a família?
Dante afastou a cadeira.
— Chega.
Bianca esperou que ele repreendesse Júlia.
— Enquanto ela estiver sob meu teto, ninguém a humilhará por trabalhar — continuou Dante. — Muito menos alguém que nunca precisou trabalhar para sobreviver.
Um dos acionistas desviou os olhos. Outro baixou a taça. Bianca compreendeu que a repreensão não terminaria no jantar; Dante acabara de retirar dela o direito de definir o lugar de Júlia dentro da casa.
Bianca ficou imóvel diante dos convidados.
Júlia também se surpreendeu. Dante não tentou consolá-la nem ofereceu dinheiro. Apenas impôs uma regra que deveria ser óbvia.
Depois do jantar, ela voltou ao quarto dos empregados. A cadeira continuava encostada à maçaneta, mas estava alguns centímetros fora da posição.
Alguém entrara pela janela.
Júlia não acendeu a luz.
Escutou uma respiração atrás da cortina.
Pegou o abajur e puxou o tecido de uma vez. Um homem avançou. Ela atingiu o braço dele, desviou da primeira tentativa de agarrá-la e gritou.
O invasor a empurrou contra a cama.
Rafael e dois seguranças arrombaram a porta segundos depois. O homem tentou alcançar a janela, mas recebeu um tiro na perna e caiu.
Dante entrou logo atrás.
Júlia reconheceu o invasor. Era um dos guardas que patrulhavam a ala norte.
— Quem mandou você? — perguntou Dante.
O homem ria e chorava ao mesmo tempo. Espuma surgia no canto de sua boca.
— Ele tomou alguma coisa — percebeu Júlia.
Ela se ajoelhou, mas Dante a puxou para trás.
— Não toque nele.
O segurança agonizante segurou a barra da calça de Dante.
— O traidor… janta com o senhor… todas as noites.
Seu corpo perdeu a força.
Júlia olhou para Dante.
Todas as noites, apenas três pessoas se sentavam à mesa principal da mansão.
Dante.
Bianca.
E Caetano Montenegro.
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