"A Garçonete Salvou o Chefe da Máfia… E Foi Demitida Por Isso" Capítulo 3 — Os Duzentos e Cinquenta Mil Reais
Júlia manteve a corrente presa.
— Como sabe que descobriram meu endereço?
— Porque foi fácil para mim descobrir — respondeu Dante. — E meu inimigo teve dez dias de vantagem.
A resposta não a tranquilizou.
Ela observou o corredor. Rafael permanecia próximo à escada. Outros homens aguardavam na entrada do prédio. Dante não parecia ter vindo pedir permissão para protegê-la.
— Cinco minutos — decidiu Júlia.
Abriu a porta e se afastou.
Dante entrou sozinho. Seu olhar percorreu as paredes descascadas, o sofá gasto e as caixas de medicamentos ainda empilhadas perto da cozinha.
Júlia sentiu vergonha por um instante. Depois se irritou consigo mesma. A pobreza não era uma confissão.
— Quer café?
Dante pareceu surpreso.
— Quero.
Ela serviu café solúvel em uma caneca lascada. Dante aceitou sem comentário e se sentou diante da pequena mesa.
O homem que ocupava salões inteiros com sua presença parecia grande demais para aquela cozinha.
Ele retirou um envelope grosso do paletó.
— Duzentos e cinquenta mil reais.
Júlia não tocou nele.
— Para quê?
— Você salvou minha vida.
— Eu chamei uma ambulância.
— Enquanto todos os outros decidiram assistir.
Dante empurrou o envelope.
— Isso paga suas dívidas e permite que recomece.
Júlia abriu o envelope. Os maços de dinheiro estavam acompanhados de um documento dobrado.
Ela retirou as folhas e leu a primeira cláusula.
— Confidencialidade absoluta sobre os acontecimentos no Bellagio.
— É uma medida de segurança.
— A sua ou a minha?
— Das duas partes.
Júlia continuou lendo. O acordo a impedia de falar com jornalistas, funcionários do restaurante ou autoridades sem autorização dos advogados de Dante.
— Você quer comprar meu silêncio.
— Quero impedir que você diga algo que atraia atenção.
— Já perdi meu emprego por obedecer à minha consciência. Não vou perder a voz por aceitar seu dinheiro.
Ela rasgou o documento ao meio.
Dante permaneceu imóvel.
Júlia rasgou outra vez e deixou os pedaços sobre os maços.
— Eu teria ajudado você mesmo que não tivesse um real. Não transforme isso em uma dívida que pode quitar.
— Você precisa desse dinheiro.
— Preciso.
— Então aceite.
— Sem o acordo?
Dante inclinou o rosto.
— Não.
— Então leve de volta.
Júlia empurrou o envelope com firmeza, embora cada conta sobre a mesa gritasse para que fizesse o contrário. Aquele dinheiro poderia quitar o hospital, impedir o despejo e comprar meses de tranquilidade. Justamente por isso, aceitar as cláusulas seria entregar a Dante poder sobre todas as suas escolhas futuras.
Durante alguns segundos, apenas a chuva contra a janela ocupou o apartamento.
Dante estava acostumado a negociações em que todos escondiam o preço. Júlia acabara de admitir sua necessidade e, ainda assim, recusara a única coisa capaz de resolvê-la.
— Você sempre é tão imprudente? — perguntou ele.
— Só quando homens ricos confundem ajuda com propriedade.
Uma sombra de irritação atravessou o rosto de Dante.
— Não pertenço ao grupo de homens que você pode insultar sem consequência.
— E eu não pertenço ao grupo de pessoas que você pode comprar sem consentimento.
Rafael observava do corredor. Estava preparado para intervir se Júlia levantasse a voz ou ameaçasse o chefe. Em vez disso, viu Dante permanecer sentado, ouvindo uma garçonete recusar uma ordem que diretores milionários aceitariam sem respirar.
Os dois se encararam.
Para surpresa de Júlia, Dante recolheu o envelope.
— Justo.
Ele colocou sobre a mesa uma fotografia do salão. Nela, um homem de uniforme entregava a garrafa a Ricardo.
— Os médicos encontraram veneno no meu organismo.
Júlia sentiu os dedos esfriarem.
— Que tipo?
— Um composto sintético. Rápido o suficiente para me matar, discreto o bastante para parecer reação alérgica.
— Ricardo anunciou que era alergia antes de o hospital divulgar qualquer informação.
Dante se inclinou.
— Tem certeza?
— Ele reuniu a equipe naquela noite. Usou exatamente essa palavra.
Júlia pegou o celular e mostrou a fotografia feita na manhã seguinte.
— Também o vi recolhendo sua taça com luvas.
Dante ampliou a imagem.
— Por que não entregou isso à polícia?
— Porque ainda estava tentando entender o que vi. Depois, todos os restaurantes começaram a recusar meu currículo.
— Ricardo fez isso.
— Foi o que me disseram.
Júlia mostrou ainda os e-mails de rejeição. Quatro haviam chegado minutos depois de suas entrevistas, usando frases quase idênticas sobre “conduta incompatível”. Dante reconheceu um bloqueio coordenado. Não pretendiam apenas deixá-la sem emprego; queriam torná-la desesperada o bastante para desaparecer.
Dante passou a fotografia para Rafael, que surgira silenciosamente à porta.
— Encontre esse saco.
Rafael assentiu.
Júlia cruzou os braços.
— Agora acabou sua conversa. Pode ir.
— Você virá conosco.
— Não.
— Júlia, alguém tentou me matar. Ricardo apagou imagens, escondeu uma taça e destruiu sua reputação profissional. Você é a única testemunha que agiu fora do plano deles.
— Isso não lhe dá o direito de me levar.
— Dá-me a responsabilidade de impedir que morra por minha causa.
— Responsabilidade não é autoridade.
Dante reconheceu a acusação. Durante anos, proteger alguém significara cercá-lo de homens armados e eliminar suas opções. Júlia exigia algo que ninguém em sua família costumava oferecer: proteção sem posse. Ele não sabia ainda como fazer isso, mas percebeu que ordenar sua ida apenas confirmaria tudo o que ela pensava.
Dante se levantou. Ainda estava pálido, mas a fragilidade vista no restaurante havia desaparecido.
— Reforce a porta, então. Feche as cortinas. Não atenda ninguém. Rafael deixará dois homens no corredor.
Júlia abriu a boca para protestar.
O estampido veio primeiro.
A janela explodiu.
Dante lançou o corpo contra Júlia e a derrubou no chão. Fragmentos de vidro atravessaram a cozinha. A caneca se partiu onde ela estivera sentada segundos antes.
Rafael sacou a arma e apagou a luz.
— Tiro do prédio em frente!
Outro disparo atingiu a parede acima do sofá.
Dante cobriu a cabeça de Júlia com o braço.
— Está ferida?
— Não.
— Tem certeza?
Ela tocou o próprio rosto. Havia um corte pequeno na bochecha, causado pelo vidro.
Homens correram pelo corredor e desceram as escadas. Motores foram ligados na rua.
Rafael falou pelo rádio, coordenando a busca. O atirador, porém, desapareceu antes que a equipe alcançasse o edifício vizinho.
Dante ajudou Júlia a se levantar.
Ela olhou para a cadeira atravessada pela bala. Se tivesse permanecido ali, o projétil teria atingido suas costas.
— Ainda acredita que pode ficar? — perguntou Dante.
Júlia estava assustada, mas não queria lhe entregar uma vitória fácil.
— Acredito que alguém quer que eu tenha medo.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
— Não significa que vou morar na sua casa.
— Não precisa morar. Precisa sobreviver esta noite.
Júlia recolheu o celular, os documentos e o caderno de anotações da mãe. Colocou tudo em uma mochila.
Dante observou quando ela guardou os frascos vazios.
— Eram dela?
— Minha mãe.
— Sinto muito.
A simplicidade da frase a desarmou mais do que qualquer ameaça.
No térreo, vizinhos espiavam pelas portas. Dante colocou o próprio casaco sobre os ombros de Júlia para esconder o uniforme simples e o sangue do corte.
Ela entrou no carro central.
— Uma noite — avisou.
— Uma noite — repetiu Dante.
Quando o veículo se moveu, Júlia olhou para a janela destruída no terceiro andar. Uma vizinha recolhia cacos do corredor, assustada. O atentado não atingira apenas sua vida. Permanecer ali colocaria todo o prédio em risco. Pela primeira vez, deixar o apartamento pareceu uma decisão sua, não uma rendição.
Rafael ocupou o banco dianteiro. Antes de o veículo arrancar, entregou a Dante uma pequena cápsula metálica encontrada entre os cacos da janela.
— O projétil foi modificado.
Dante examinou a gravação quase invisível na base.
Era o símbolo da empresa de segurança do próprio grupo Montenegro.
O atirador não trabalhava para um rival distante.
Trabalhava para alguém dentro da família.
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