"A Garçonete Salvou o Chefe da Máfia… E Foi Demitida Por Isso" Capítulo 2 — Dezessete Restaurantes Disseram Não
Júlia esperou Ricardo desaparecer na cozinha antes de retirar o celular do bolso.
Fotografou o saco preto em sua mão, o carrinho vazio e o relógio do salão marcando oito e quarenta e três. A imagem ficou tremida, mas o rosto do gerente aparecia de perfil.
Ela saiu sem recuperar o caderno.
Na calçada, o movimento da Alameda Santos parecia indiferente ao desastre de sua vida. Executivos entravam em carros com motorista. Entregadores desviavam do trânsito. Júlia tinha oitenta e três reais e vinte centavos na conta.
O aluguel vencera cinco dias antes.
As cobranças do hospital continuavam chegando mesmo após a morte de sua mãe.
Ela caminhou até o metrô para economizar o dinheiro do ônibus complementar. Durante o trajeto, reviu a fotografia inúmeras vezes.
Ricardo usara luvas para recolher uma única taça.
Por quê?
Em casa, Júlia encontrou três mensagens do proprietário do apartamento e duas da empresa responsável pela dívida hospitalar.
Abriu o armário. Havia arroz, café, meio pacote de feijão e uma lata de sardinha.
Sentou-se diante da pequena mesa onde ainda estavam os frascos vazios dos remédios da mãe. Não conseguira jogá-los fora.
O proprietário telefonou antes que ela abrisse o computador. Júlia pediu mais uma semana. Ele lembrou que já concedera duas. Não foi cruel, apenas cansado, o que tornou a conversa pior. Ela prometeu pagar sem saber de onde o dinheiro viria.
Celina Nascimento passara os últimos meses ensinando a filha a sobreviver à ausência que se aproximava.
— Nunca deixe o medo decidir por você — dizia.
Naquela manhã, o medo parecia a única coisa disposta a permanecer.
Júlia atualizou o currículo e enviou candidaturas a quatro restaurantes. Antes do meio-dia, dois já haviam respondido que a vaga fora preenchida.
O terceiro marcou entrevista para a tarde.
Ela vestiu a melhor camisa, prendeu o cabelo e atravessou a cidade. O gerente do restaurante a recebeu com entusiasmo até ler o nome completo no currículo.
— Você trabalhava no Bellagio Paulista?
— Trabalhava.
— É a moça do vídeo?
— Que vídeo?
Ele virou o monitor. Uma gravação mostrava Júlia correndo até Dante e sendo agarrada pelo segurança. A legenda dizia que uma garçonete provocara confusão durante um jantar reservado.
O vídeo terminava antes da chegada do SAMU.
— Eu chamei a ambulância — explicou ela.
— Ricardo disse que você tocou no cliente sem autorização e acusou a cozinha.
— Eu nunca acusei a cozinha.
O gerente fechou o currículo.
— Não podemos correr riscos.
Nos sete dias seguintes, Júlia entregou currículos em dezessete estabelecimentos.
Alguns recusaram imediatamente. Outros prometeram ligar. Dois entrevistadores perguntaram se ela tinha problemas emocionais. Um deles sugeriu que abandonasse o setor de restaurantes por alguns meses.
Na décima sétima tentativa, a proprietária de um pequeno bistrô em Pinheiros pediu que ela se sentasse.
— Vou ser honesta — disse a mulher. — Ricardo Braga ligou para várias casas da associação.
— O que ele disse?
— Que você desobedece ordens, inventa emergências e ameaça a reputação dos empregadores.
Júlia apertou o currículo entre os dedos.
— Um homem não conseguia respirar.
— Eu vi o vídeo completo. Você fez o certo.
— Então me dê uma oportunidade.
A proprietária desviou os olhos.
— O Bellagio fornece eventos para pessoas muito influentes. Não posso comprar essa briga.
Júlia agradeceu pela sinceridade e saiu antes de chorar.
No banheiro de uma padaria, lavou o rosto e calculou quanto receberia vendendo o celular. Talvez pagasse parte do aluguel, mas perderia o único meio de procurar emprego. Comprou um pão de queijo, dividiu-o em duas porções e guardou metade para o jantar.
Na mesma tarde, do outro lado da cidade, Dante Montenegro abriu os olhos na unidade particular do Hospital Sírio-Libanês.
Rafael Moura estava de pé junto à janela. Dois homens armados protegiam a porta.
— Quanto tempo? — perguntou Dante.
Sua garganta ardia. A voz parecia coberta de areia.
— Oito dias.
Dante tentou se sentar. Rafael acionou a cama.
— Os médicos disseram que o senhor teve sorte.
— Eu não acredito em sorte.
O médico entrou minutos depois. Explicou que os exames haviam identificado um composto sintético capaz de causar insuficiência respiratória, alterações neuromusculares e sangramento.
— Não foi alergia — concluiu Dante.
— Não. A concentração indica ingestão deliberada.
— Veneno.
O médico hesitou antes de confirmar.
Dante olhou para Rafael.
— Quem tocou na bebida?
— Estamos levantando todos os funcionários, fornecedores e clientes. A câmera que cobria sua mesa ficou fora do ar por vinte minutos.
— Coincidência?
— Não trabalhamos com coincidências.
Dante se lembrou da mulher ajoelhada ao lado da cadeira. Cabelos presos, uniforme preto, olhos firmes apesar das armas.
— A garçonete.
— Júlia Nascimento. Vinte e sete anos. Sem antecedentes. A mãe faleceu há quatro meses. Dívida hospitalar, aluguel atrasado e nenhum vínculo conhecido com nossos rivais.
— Onde ela está?
Rafael demorou a responder.
— Foi demitida na manhã seguinte.
O silêncio de Dante fez o quarto parecer menor.
— Por quê?
— O gerente disse que ela causou o incidente.
— Ela chamou a ambulância.
— Eu sei.
Dante tirou o acesso preso ao dedo, ignorando o protesto do médico.
— Traga Ricardo Braga.
— Ele viajou ontem. Segundo o restaurante, está visitando parentes no Paraná.
— Encontre-o.
Rafael colocou um tablet diante dele. Mostrou as imagens recuperadas de outras câmeras.
Às nove e quatro, um garçom desconhecido entrava na área de serviço com uma garrafa. Às nove e seis, Ricardo assumia pessoalmente a bandeja destinada à mesa quatro.
Às nove e dezessete, Dante tombava a taça.
— O homem da garrafa não consta na escala — explicou Rafael.
— E a taça?
— Desapareceu.
Dante pensou em Júlia outra vez.
— Ela viu alguma coisa.
— Ou participou.
— Se tivesse participado, teria me deixado morrer.
Rafael não contestou, mas sua expressão permaneceu desconfiada.
Dante recebeu alta dois dias depois. Antes de voltar à mansão, mandou investigar a situação financeira de Júlia.
Também exigiu o prontuário completo da noite do atentado. A equipe médica registrara que Júlia fornecera horários precisos, sintomas e a quantidade aproximada de vinho ingerida. Sem aquelas informações, o antídoto teria sido administrado tarde demais.
O relatório o irritou mais do que esperava.
Ela vendera o carro para pagar o tratamento da mãe. Trabalhava em jornadas duplas. Não havia recebido qualquer depósito incomum. Depois da demissão, todos os pedidos de emprego tinham sido recusados.
— Ricardo está fechando portas para ela — afirmou Rafael.
— Porque ela me manteve vivo.
— Ou porque sabe quem levou a garrafa.
Dante ordenou que preparassem duzentos e cinquenta mil reais em dinheiro. Rafael ergueu uma sobrancelha.
— Gratidão?
— Reparação.
— E se ela não aceitar?
Dante fechou o paletó.
— Todo mundo aceita alguma coisa.
Naquela noite, chovia em Santa Cecília.
Júlia preparava café ralo quando ouviu motores parando diante do prédio. Afastou a cortina e viu três SUVs pretos ocupando a rua estreita.
Homens de terno desceram primeiro.
Seu coração acelerou.
Ela procurou o celular, mas alguém bateu à porta.
Três pancadas lentas.
Júlia olhou pelo visor. Reconheceu Rafael, o segurança que a agarrara no restaurante.
— Senhorita Nascimento — disse ele. — O senhor Montenegro deseja conversar.
— Se veio me acusar, pode trazer a polícia.
Rafael recuou.
Dante Montenegro apareceu atrás dele, vivo, pálido e perfeitamente vestido em um terno cinza-chumbo.
— Não vim acusá-la, Júlia.
Ela abriu apenas a corrente de segurança.
— Então por que trouxe um exército?
Dante olhou para os dois lados do corredor.
— Porque quem tentou me matar já sabe onde você mora.
No apartamento, o telefone de Júlia começou a tocar. O visor mostrava um número desconhecido. Ela recusou a chamada. Uma mensagem apareceu imediatamente: “Você deveria ter obedecido ao seu gerente.” Dante viu a tela através da abertura e sua expressão se transformou.
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