"A Garçonete Salvou o Chefe da Máfia… E Foi Demitida Por Isso" Capítulo 1 — Às 21h17, Dante Montenegro Começou a Morrer
Às nove e dezessete da noite, a taça escorregou dos dedos de Dante Montenegro e tombou sobre a toalha branca da mesa quatro.
O vinho escuro se espalhou pelo tecido como uma mancha de sangue. Mesmo assim, nenhum dos cento e vinte clientes do Bellagio Paulista se levantou.
Ninguém se aproximava de Dante Montenegro sem ser convidado.
Júlia Nascimento parou entre duas mesas, segurando uma bandeja de sobremesas. A princípio, pensou que o homem tivesse derrubado a taça por irritação. Então percebeu a rigidez dos dedos dele.
Dante levou uma mão ao colarinho. Seus lábios começavam a perder a cor.
— Senhor Montenegro?
Ricardo Braga surgiu ao lado dela e apertou seu braço.
— Nem pense nisso.
— Ele está passando mal.
— Ele deixou ordens para não ser incomodado.
Júlia voltou a olhar para a mesa. Dante estava sozinho no canto mais reservado do salão, embora dois seguranças ocupassem o corredor de entrada. Seu rosto permanecia imóvel, mas o peito subia em movimentos curtos e desesperados.
Uma gota de sangue escorreu de sua narina.
Júlia deixou a bandeja sobre a mesa mais próxima.
— Precisamos chamar uma ambulância.
— Precisamos continuar trabalhando — respondeu Ricardo. — Não transforme uma indisposição em espetáculo.
Ele sorriu para um casal de clientes, fingindo que nada acontecia. Júlia conhecia aquele sorriso. Era o mesmo usado quando alguém encontrava um cabelo na comida ou reclamava do preço do vinho.
Mas Dante não estava reclamando.
Ele estava sufocando.
Durante dois anos, Júlia cuidara da mãe entre turnos no restaurante. Aprendera a reconhecer uma queda de oxigenação, uma crise respiratória e o instante exato em que o medo aparecia nos olhos de alguém incapaz de pedir socorro.
Ela viu esse medo em Dante Montenegro.
Não era embriaguez. Não era raiva. Não era uma encenação.
Júlia lembrou a última madrugada da mãe no hospital. Celina também tentara parecer forte enquanto o ar lhe faltava. Uma enfermeira percebera a mudança antes dos aparelhos e agira sem esperar autorização. Desde então, Júlia prometera nunca confundir silêncio com ausência de sofrimento.
— Chame o SAMU — ordenou Júlia a outro garçom.
O rapaz olhou para Ricardo e abaixou a cabeça.
— Ninguém vai chamar ninguém — disse o gerente.
Dante tentou se levantar. A cadeira recuou alguns centímetros, mas suas pernas não o sustentaram. Ele se apoiou na mesa e derrubou os talheres.
O ruído finalmente chamou a atenção dos seguranças.
Júlia pegou o celular do bolso.
Ricardo tentou arrancá-lo de sua mão.
— Você quer ser demitida?
— Prefiro ser demitida a assistir um homem morrer.
Ela se desvencilhou e correu até a mesa quatro. Os clientes abriram caminho, mais assustados com a identidade do homem do que com o estado dele.
Júlia se ajoelhou ao lado de Dante.
— Senhor Montenegro, consegue me ouvir?
Os olhos escuros encontraram os dela. Ele tentou responder, mas nenhum som saiu. Seus dedos estavam curvados e rígidos sobre a toalha molhada.
Júlia ligou para a emergência e colocou o telefone no viva-voz.
— Homem, aproximadamente quarenta anos. Dificuldade respiratória, cianose nos lábios, rigidez nas mãos e sangramento nasal. Está consciente, mas não consegue falar.
A atendente fez perguntas. Júlia respondeu enquanto afrouxava a gravata de Dante e abria os primeiros botões de sua camisa.
— Não tente se levantar. A ajuda está vindo.
O medo dele permaneceu exposto por apenas um segundo. Depois, Dante tentou reconstruir a expressão fria que fazia empresários e políticos medirem cada palavra diante dele.
Seu corpo, porém, já não obedecia.
— Continue olhando para mim — pediu Júlia. — Não feche os olhos.
Um dos seguranças chegou correndo e a puxou pelo ombro.
— O que você fez com ele?
Júlia perdeu o equilíbrio, mas manteve o celular na mão.
— Estou tentando mantê-lo consciente.
— Afaste-se!
O segurança ergueu Júlia. O outro examinou a taça caída e levou a mão para dentro do paletó.
— Foi ela que serviu o vinho?
Ricardo permaneceu alguns metros atrás.
— Eu avisei que essa funcionária era problemática.
Júlia o encarou, incrédula.
— Você tentou me impedir de chamar socorro.
— Tire essa mulher daqui — ordenou o primeiro segurança.
Dante bateu a mão na mesa.
O movimento foi fraco, mas todos pararam.
Ele apontou para Júlia. Os músculos de seu pescoço se contraíram enquanto lutava para pronunciar duas palavras.
— Ela… ajudou.
O segurança a soltou imediatamente.
Júlia voltou para perto de Dante. Segurou a mão rígida dele e continuou descrevendo os sintomas à atendente.
— Fique comigo. Mais alguns minutos.
As sirenes chegaram antes que ele perdesse completamente a consciência.
Os socorristas entraram com maca, cilindro de oxigênio e equipamentos. Júlia repetiu tudo o que observara, incluindo o momento em que Dante bebera o vinho.
Ricardo tentou interrompê-la.
— Não sabemos se a bebida teve alguma relação.
— Eu não disse que teve — respondeu Júlia. — Disse quando os sintomas começaram.
Um socorrista recolheu a informação. Outro colocou a máscara de oxigênio em Dante.
Enquanto era levado, Dante abriu os olhos e procurou Júlia no salão. Ela não soube se havia gratidão, desconfiança ou apenas confusão naquele olhar.
As portas se fecharam atrás da maca.
O restaurante explodiu em murmúrios. Clientes filmavam a saída da ambulância. Ricardo olhava para Júlia como se ela tivesse provocado um incêndio.
— No meu escritório. Agora.
— Meu turno ainda não acabou.
— Acabou para você.
No escritório, Ricardo fechou a porta e desligou a câmera interna.
— Você desobedeceu uma ordem direta.
— Sua ordem teria deixado um homem morrer.
— Você não é médica.
— Não. Sou a pessoa que percebeu que ele não conseguia respirar.
Ricardo aproximou o rosto.
— Homens como Dante Montenegro não agradecem. Eles procuram culpados. Se ele morrer, os seguranças vão perguntar quem tocou nele por último.
— Então diga a verdade.
— A verdade é aquilo que pessoas poderosas conseguem provar.
Júlia sentiu um arrepio. Havia mais do que medo na voz do gerente. Havia urgência.
Ricardo mandou que ela voltasse ao salão e permanecesse calada. Disse que decidiriam seu futuro pela manhã.
Quando Júlia retornou, a mesa quatro já estava sendo desmontada.
Dois funcionários retiravam pratos e talheres. Um terceiro trocava a toalha. Júlia procurou a taça de Dante, mas ela não estava sobre o carrinho.
— Onde está o vinho? — perguntou.
Ninguém respondeu.
Perto das onze, Ricardo reuniu a equipe.
— O senhor Montenegro sofreu uma reação alérgica. Nenhum funcionário dará entrevistas. Quem publicar qualquer coisa será processado.
Júlia observou os rostos assustados. Nenhum deles questionou como Ricardo obtivera um diagnóstico antes mesmo de o hospital divulgar informações.
Na manhã seguinte, ela chegou quinze minutos antes do turno.
Ricardo a esperava com seu avental dentro de uma sacola plástica.
— Você está demitida.
— Dante está vivo?
— Isso não é mais problema seu.
— Por que desligou a câmera do escritório ontem?
O rosto dele endureceu.
— Assine sua rescisão e vá embora.
Júlia não assinou. Guardou uma fotografia do documento, pegou a sacola e atravessou o salão sob os olhares dos colegas.
Ao chegar à saída de serviço, lembrou que deixara seu caderno de pedidos no armário. Voltou pelo corredor lateral sem ser vista.
A porta do salão estava entreaberta.
Ricardo se encontrava sozinho diante da mesa quatro. Usava luvas pretas e colocava a taça de Dante dentro de um saco escuro.
Júlia conteve a respiração.
Seu primeiro impulso foi confrontá-lo. O segundo, mais sensato, foi recuar. Ricardo não teria apagado câmeras e removido objetos por simples preocupação com a reputação do restaurante. Se ele a visse ali, a fotografia desapareceria junto com qualquer chance de provar o que acontecera.
Ele não estava limpando o restaurante.
Estava escondendo alguma coisa.
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