"A Noiva do Diabo" Capítulo 10 — O MAFIOSO SE AJOELHOU DIANTE DA EMPREGADA
Quando os policiais entraram no galpão, Marina estava sentada no chão com Sofia nos braços. Uma mancha vermelha crescia no tecido de sua blusa, perto do ombro.
— Minha filha! — Dante chamou da entrada, depois de receber autorização para se aproximar.
Sofia correu para ele. Dante se ajoelhou com dificuldade e a abraçou, ignorando por alguns segundos a dor na perna.
— Você está aqui — repetiu. — Você está aqui.
A menina chorava contra seu peito.
— A Marina me salvou.
Dante levantou o rosto. Dois socorristas já atendiam Marina. O ferimento parecia superficial, mas ela precisava ser examinada no hospital.
— Marina! — ele chamou.
Ela abriu os olhos.
— Cuide da Sofia.
— Vou cuidar das duas.
Marcelo fora desarmado e detido. Verônica também estava sob custódia, após tentar fugir por uma porta lateral. A investigação apuraria as responsabilidades de cada um no sequestro e no disparo.
Camila explicou a Dante que Sofia seria ouvida de forma apropriada para sua idade, com acompanhamento especializado. O pai concordou imediatamente.
— Ela não vai enfrentar aqueles dois outra vez — afirmou.
No hospital, Henrique examinou Marina e informou que o projétil provocara uma lesão no ombro, sem atingir estruturas vitais. Ela precisaria de tratamento e repouso.
Dante permaneceu no corredor enquanto aguardava notícias. Sofia dormia numa poltrona, abraçada ao ursinho que Helena levara.
Rafael sentou-se ao lado dele.
— Encontraram documentos e dispositivos no armazém — contou. — A polícia está preservando tudo.
— E a câmera?
— O arquivo original continua seguro. A perícia recuperou mais imagens.
Dante fechou os olhos. Pensou na noite do noivado, na escada, no rosto de Marina ensanguentado. Durante semanas, ela suportara acusações por ter feito a coisa certa.
— Eu devia ter protegido as duas desde o começo — murmurou.
— Você não pode mudar o que aconteceu — Rafael respondeu. — Pode decidir o que fará agora.
Beatriz Nogueira procurou a investigadora na manhã seguinte. Levava um computador e uma pasta com registros de mensagens, transferências e orientações recebidas de Verônica.
— Eu tive medo de falar antes — confessou.
Camila explicou que o depoimento precisaria ser formalizado e que a participação de Beatriz também seria examinada.
— Entendo — ela respondeu. — Mas não quero continuar escondendo a verdade.
Entre os arquivos havia instruções para contratar um intermediário, criar versões falsas sobre Marina e obter acesso aos documentos patrimoniais de Sofia.
A análise pericial da câmera trouxe outro elemento decisivo. O vídeo mostrava Verônica aproximando-se de Dante no alto da escada e empurrando-o com as duas mãos.
Não era mais apenas a palavra de Marina contra a de Verônica.
A gravação foi incorporada à investigação, juntamente com os registros bancários, os depoimentos e os dados de vigilância. Camila ressaltou que caberia à Justiça avaliar o conjunto de provas.
Dante não pediu privilégios. Queria que os responsáveis fossem investigados e que Marina deixasse de carregar uma acusação injusta.
Dias depois, a autoridade policial informou que não havia fundamento para manter Marina como suspeita nos fatos investigados. Os procedimentos relativos aos documentos falsificados também passaram a apontar para outros envolvidos.
Marina recebeu a notícia sentada na varanda do hospital, ainda com o braço imobilizado.
— Acabou? — perguntou a Rafael.
— A investigação contra os responsáveis continua. Mas você não está mais sob suspeita nesses episódios.
Ela respirou fundo. Não sentiu alegria imediata. Sentiu cansaço, como se finalmente pudesse largar um peso carregado por tempo demais.
Dante entrou logo depois, trazendo flores escolhidas por Sofia.
— Ela insistiu nas amarelas — explicou.
Marina sorriu.
— São minhas favoritas.
Ele se sentou perto dela.
— Quero que volte para casa quando receber alta.
Marina acariciou uma pétala.
— Preciso conversar sobre isso.
Dante esperou.
— Eu amo você. Amo a Sofia. Mas passei meses sendo chamada de empregada interesseira, mentirosa e criminosa. Não quero voltar sem saber quem sou fora daquela casa.
— Você nunca foi apenas uma função para mim.
— Eu sei. Mas preciso descobrir isso por mim mesma.
Dante baixou a cabeça.
— Quer que eu me afaste?
— Quero tempo. E quero trabalhar em algo que seja meu.
Ele assentiu.
— Então vou respeitar.
Marina percebeu o esforço que aquela resposta exigia dele. O homem que antes resolvia tudo dando ordens estava aprendendo a amar sem controlar.
Depois da alta, Marina voltou ao apartamento na Vila Mariana. Sofia a visitava com o pai, sempre que os médicos permitiam e a rotina escolar não era prejudicada.
Helena apareceu numa dessas tardes com um bolo caseiro.
— Eu devia ter acreditado em você — disse, sem rodeios.
Marina ficou surpresa.
— A senhora estava preocupada com sua família.
— Isso não justifica ter tratado você como alguém inferior.
Helena pousou o bolo sobre a mesa.
— Se puder, gostaria de começar de novo.
Marina aceitou o pedido de desculpas. Não apagava tudo, mas abria uma porta.
Nas semanas seguintes, Dante continuou a fisioterapia. Passou a caminhar distâncias curtas sem a cadeira, embora ainda precisasse de pausas e acompanhamento.
Marina pesquisou cursos de gestão social e começou a desenhar um projeto de apoio a crianças e famílias em situação vulnerável. Queria um lugar onde ninguém fosse tratado com desprezo por usar uniforme simples.
Dante ouviu suas ideias sem tentar assumir o controle.
— Parece importante — disse.
— É importante para mim.
— Então merece existir.
Numa tarde ensolarada, ele apareceu diante do prédio dela, sem a habitual escolta ostensiva. Sofia esperava no carro com Helena, segurando uma pequena caixa.
Marina desceu ao receber a mensagem. Encontrou Dante perto do portão, apoiado numa bengala discreta.
— Aconteceu alguma coisa?
— Sim — ele respondeu. — Eu entendi uma coisa que demorei demais para aprender.
Marina cruzou os braços, emocionada e desconfiada.
— O quê?
— Que amar você não significa oferecer uma mansão. Significa caminhar ao seu lado, mesmo quando você escolher um caminho diferente do meu.
Ele tirou uma pequena caixa do bolso e se ajoelhou cuidadosamente sobre um joelho.
Marina levou a mão à boca.
— Dante, sua perna!
— O fisioterapeuta autorizou movimentos controlados — ele respondeu com um sorriso nervoso. — Mas prometo não demorar.
Abriu a caixa. Havia um anel simples e elegante.
— Eu não quero uma empregada na minha casa. Quero a mulher que amo ao meu lado. Marina Oliveira, você aceita se casar comigo?
Ela chorava tanto que mal conseguia falar.
Antes que respondesse, a porta do carro se abriu. Sofia correu até eles, segurando sua própria caixinha, decorada com estrelas.
— Marina! — chamou. — Posso te chamar de mamãe?
Na semana seguinte ao resgate, Sofia começou acompanhamento psicológico com uma profissional indicada por Camila. Dante participou das orientações para compreender como lidar com pesadelos, sustos e perguntas difíceis. Não tentou apressar a recuperação da filha.
Marina também procurou apoio para processar o medo que sentira no armazém. Às vezes acordava com a lembrança do disparo. Outras vezes, bastava ouvir uma porta bater para sentir o coração acelerar. Dante não minimizou nada disso.
— Não precisamos fingir que está tudo bem — ele disse durante uma visita.
Marina concordou. A vida não voltaria a ser exatamente como antes, mas poderia ser boa de outra maneira. Eles estavam aprendendo que proteção não era esconder o sofrimento. Era permitir que cada pessoa recebesse ajuda e encontrasse seu próprio ritmo.
Marina olhou para a menina e depois para Dante. Compreendeu que aquela pergunta era maior do que qualquer anel.
Ajoelhou-se diante de Sofia e abriu os braços.
— Se você quiser, meu amor. Mas sua primeira mamãe sempre terá um lugar no seu coração.
Sofia a abraçou.
— Eu sei. Meu coração tem lugar para vocês duas.
Dante enxugou os olhos. Marina voltou-se para ele.
— Sim — respondeu. — Eu aceito.
E, pela primeira vez, a promessa de uma nova família nasceu sem medo e sem mentira.
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