"A Noiva do Diabo" Capítulo 9 — A EMPREGADA ENTROU SOZINHA NO ARMAZÉM
Dante quis sair imediatamente atrás de Marcelo. Rafael impediu que tomasse uma decisão precipitada. A polícia já havia sido chamada, e qualquer movimento sem coordenação poderia colocar Sofia em risco.
— É minha filha! — Dante gritou.
— Justamente por isso precisamos agir com cuidado — Rafael respondeu.
Marina permaneceu junto à porta, segurando o ursinho que Sofia deixara cair. O brinquedo tinha uma costura remendada por ela mesma, meses antes.
Helena chorava no sofá. Dante se aproximou da mãe, mas não encontrou palavras. A casa inteira parecia suspensa à espera de uma notícia.
Camila Duarte chegou com uma equipe especializada. Pediu os registros de entrada e saída, ouviu os funcionários e examinou a mensagem encontrada no quarto.
— Não divulguem o desaparecimento — orientou. — Precisamos evitar que os responsáveis mudem de plano.
Rafael entregou os arquivos recuperados da câmera. A investigadora confirmou que a gravação original estava preservada sob custódia adequada.
— Não vamos destruir provas para negociar — disse.
Dante apertou os punhos.
— Então o que fazemos?
— Identificamos onde Sofia está e buscamos uma forma segura de retirá-la.
Marina lembrou-se do relógio infantil que dera à menina no aniversário. O aparelho podia compartilhar a localização quando encontrava conexão.
— Sofia estava usando o relógio ontem — informou.
A equipe verificou os dados disponíveis. Surgiu um último registro, enviado de uma área próxima ao Porto de Santos.
— Pode ser um sinal antigo — Camila advertiu.
— Mas é uma pista — Rafael respondeu.
O endereço correspondia a uma região de armazéns e galpões industriais. O Grupo Montenegro possuía contratos de transporte naquela área, embora o imóvel apontado não estivesse registrado em nome de Dante.
Rafael encontrou uma ligação indireta com uma empresa de fachada usada nos pagamentos a Marcelo.
Dante se levantou com ajuda da bengala.
— Eu vou.
Henrique, avisado da situação, pediu que não sobrecarregasse a perna lesionada. Dante respondeu que suportaria a dor, mas Camila insistiu que a operação não poderia depender dele.
— Sua presença descontrolada pode comprometer o resgate.
Marina tocou o ombro de Dante.
— Deixe a polícia trabalhar.
Ele olhou para ela, desesperado.
— Prometi à Sofia que nunca mais a deixaria sozinha.
— Então cumpra essa promessa ficando vivo e ajudando a trazê-la de volta.
Uma chamada chegou ao telefone de Dante. A voz de Marcelo estava alterada por um aplicativo, mas o empresário reconheceu a maneira como pronunciava seu nome.
— Quero a câmera e todas as cópias.
Camila sinalizou para que a conversa fosse registrada.
— Preciso ouvir minha filha — Dante respondeu.
Houve silêncio. Depois, Sofia falou, chorando.
— Papai?
— Estou aqui, princesa. Você está machucada?
— Quero a Marina.
Uma voz masculina interrompeu a ligação.
— Sem polícia. Uma pessoa entra com o material. A empregada.
A chamada terminou.
Marina sentiu o sangue gelar. Marcelo a escolhera porque sabia que ela faria qualquer coisa para proteger Sofia.
Camila explicou que não aceitariam simplesmente as condições do sequestrador. Uma equipe avaliaria o local, os acessos e a possibilidade de negociar sem colocar a criança em perigo.
Marina ouviu tudo. Quando perguntaram se ela estaria disposta a participar de uma aproximação controlada, respondeu sem hesitar.
— Se isso ajudar a Sofia, sim.
Dante segurou suas mãos.
— Não posso perder vocês duas.
— Não vamos agir por impulso — Marina respondeu. — Mas também não vou abandonar aquela menina.
Horas depois, a equipe confirmou atividade no armazém. Havia veículos estacionados, luzes acesas e indícios de que Sofia estava no interior do prédio.
Camila preparou uma operação com profissionais posicionados em pontos distintos. Marina recebeu instruções claras: não confrontar os sequestradores, não fazer movimentos inesperados e seguir as orientações da equipe.
A câmera original permaneceu preservada. O objeto que Marina carregaria fazia parte da estratégia definida pelos investigadores.
Dante aguardava num ponto seguro, acompanhado de Rafael e de um médico. Queria acompanhar cada passo, mas respeitou a orientação de não se aproximar.
Marina entrou no galpão por uma porta lateral. O cheiro de madeira úmida e óleo antigo fez seu estômago se contrair.
— Estou aqui! — chamou.
Verônica surgiu de trás de uma pilha de caixas. Usava roupas escuras, muito diferentes dos vestidos elegantes da mansão.
— Você realmente veio — disse, surpresa.
— Quero ver Sofia.
— Primeiro, a gravação.
Marina mostrou o objeto que carregava, mas não o entregou.
— A menina primeiro.
Verônica soltou uma risada amarga.
— Sempre tão corajosa. Foi isso que Dante viu em você?
— Não estamos aqui para falar de Dante.
— Você roubou tudo o que era meu!
Marina sentiu raiva, mas manteve a voz estável.
— Dante não é um objeto. Sofia também não.
Verônica aproximou-se com os olhos brilhando.
— Eu planejei aquele casamento durante anos. Você apareceu com seu uniforme barato e destruiu tudo.
— Você destruiu o que tinha quando decidiu machucar as pessoas.
Uma porta se abriu no fundo do galpão. Sofia apareceu, assustada, acompanhada de Marcelo. Quando viu Marina, tentou correr, mas o homem a segurou pelo ombro.
— Devagar — ele ordenou.
Marina levantou as mãos.
— Sofia, olhe para mim. Estou aqui.
A menina começou a chorar.
— Eu sabia que você vinha.
Verônica exigiu a câmera novamente. Marcelo, porém, apontou para ela.
— Chega de ordens. Você não vai sair daqui com o dinheiro.
Verônica ficou imóvel.
— O que está dizendo?
— Tenho cópias dos pagamentos e documentos. Se cair, você cai comigo.
A discussão cresceu rapidamente. Marcelo queria usar os arquivos para negociar sua fuga. Verônica ameaçava contar tudo à polícia.
Marina percebeu que os dois já não confiavam um no outro. Aproveitou a distração para se aproximar da porta onde Sofia estava.
— Venha até mim, devagar — sussurrou.
Sofia deu um passo. Marcelo se virou, furioso.
— Ninguém se mexe!
Marina parou. Ouviu um ruído distante, quase imperceptível, vindo do lado de fora. Sabia que a equipe de resgate estava posicionada.
Verônica tentou arrancar um envelope das mãos de Marcelo. Ele a empurrou contra uma mesa. Sofia aproveitou a confusão e correu para Marina.
Marina se abaixou e abraçou a menina, protegendo sua cabeça com os braços.
— Estou com você — murmurou. — Não solte minha mão.
Marcelo puxou uma arma. Verônica gritou. Um disparo ecoou pelo galpão.
Do lado de fora, Dante ouviu o som e tentou avançar. Rafael o segurou enquanto a equipe policial entrava no prédio.
Durante o trajeto até Santos, Marina observou as luzes da estrada pela janela do veículo policial. Lembrou-se do primeiro dia em que Sofia a chamara pelo nome. A menina estava escondida atrás de uma cortina, recusando-se a entrar na sala onde os adultos discutiam.
Marina se sentara no chão, a uma distância respeitosa, e começara a desenhar uma coruja. Sofia aparecera aos poucos, curiosa, até pedir um lápis amarelo. A confiança nascera daquele gesto pequeno, sem promessas grandiosas.
Agora, Marina se perguntava se conseguiria manter a própria calma diante dos sequestradores. Uma agente percebeu suas mãos trêmulas e lembrou que sentir medo não significava incapacidade.
— Siga as instruções e não tente resolver tudo sozinha — orientou.
Marina assentiu. Não queria provar coragem a ninguém. Queria apenas que Sofia pudesse voltar para casa e continuar desenhando, estudando e reclamando quando o pai errasse as vozes das histórias.
— MARINA! — Dante gritou.
Lá dentro, Marina caiu de joelhos, mantendo Sofia protegida junto ao peito. Por um instante, não soube se o sangue que sentia no ombro era seu.
A menina levantou o rosto, aterrorizada.
— Marina, você está machucada!
Marina tentou sorrir.
— O importante é que você está comigo.
Passos rápidos se aproximaram. Vozes ordenaram que todos largassem as armas. Marina fechou os olhos e abraçou Sofia com mais força.
A porta se abriu violentamente. E, pela primeira vez naquela noite, Marina ouviu alguém dizer que as duas estavam a salvo.
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