"A Noiva do Diabo" Capítulo 8 — A TRAIÇÃO DO HOMEM MAIS CONFIÁVEL
Marina chegou à delegacia acompanhada de um advogado indicado por Rafael. Levava documentos, registros de trabalho e as mensagens que recebera na noite do acidente. Não queria favores. Queria que os fatos fossem examinados.
A investigadora Camila Duarte mostrou uma cópia do documento falsificado. Ao lado do nome de Marina havia uma assinatura de recebimento que ela nunca fizera.
— Reconhece esta rubrica? — perguntou Camila.
— Não. Nem estive nesse banco.
— Temos uma pessoa afirmando que entregou os papéis a você.
Marina sentiu a garganta apertar.
— Quem?
— Ainda estamos verificando a credibilidade do depoimento.
Camila não prometeu que o problema seria resolvido depressa. Recolheu amostras autorizadas da escrita de Marina e solicitou os registros de acesso da agência.
Ao sair, Marina encontrou Dante esperando no corredor, apoiado na bengala.
— Você não precisava vir — disse.
— Eu queria estar aqui.
Ela olhou para os fotógrafos do lado de fora.
— Vão usar isso contra nós.
— Talvez. Mas não vou me esconder enquanto tentam destruir sua vida.
Marina segurou sua mão por alguns segundos. Depois soltou, consciente de que precisavam continuar agindo com prudência.
Rafael reuniu os dois no escritório. Um funcionário do banco confirmara que os documentos tinham sido entregues por um mensageiro ligado a uma empresa de Verônica. A assinatura atribuída a Marina aparecia apenas numa cópia digital.
— Há indícios de falsificação — explicou. — Mas precisamos da documentação original e de uma análise técnica.
Dante olhou para a janela.
— E Marcelo?
— Continua trabalhando como chefe da segurança. Isso me preocupa.
A confiança de Dante naquele homem remontava a muitos anos. Marcelo conhecia as rotinas da mansão, os trajetos da família e até os horários de Sofia.
— Suspenda o acesso dele às áreas privadas — Dante ordenou.
Rafael fez uma pausa.
— Sem alertá-lo antes de preservar os registros.
Dante concordou. Não permitiria que a raiva destruísse provas.
Naquela tarde, uma equipe especializada examinou os equipamentos de vigilância da mansão. Descobriu que câmeras próximas à escadaria haviam ficado sem gravação durante minutos decisivos.
O registro administrativo indicava uma alteração feita com as credenciais de Marcelo.
— Alguém poderia usar a senha dele? — Dante perguntou.
— É possível — respondeu o técnico. — Precisamos confirmar quem estava no terminal.
A resposta não era a certeza que ele desejava, mas já justificava aprofundar a investigação.
Sofia, enquanto isso, aguardava notícias sobre sua câmera cor-de-rosa. Rafael a visitou com uma cópia dos desenhos e uma pergunta simples.
— Você se lembra de onde estava quando ouviu a conversa?
A menina abriu seu livro de histórias e mostrou a folha escondida.
— Fiz um mapa.
Havia setas, horários aproximados e uma marca vermelha junto ao escritório.
Rafael examinou o papel com atenção.
— Você fez isso naquela noite?
— Antes da festa. Eu estava brincando de detetive.
Ele agradeceu e pediu permissão para fotografar a folha. Também explicou que Sofia não precisava enfrentar ninguém sozinha.
— Se algum adulto pedir que esconda alguma coisa, conte para seu pai ou para a investigadora.
Sofia assentiu, séria.
— Eu quero que a Marina volte.
— Estamos trabalhando para esclarecer tudo.
O técnico responsável pela câmera conseguiu acessar parte do cartão de memória. Os arquivos tinham danos, mas a conversa entre Verônica e Marcelo estava preservada em uma cópia verificável.
Havia também imagens da escadaria, registradas antes da queda. Um trecho mostrava Verônica se aproximando de Dante pelas costas. O movimento final ainda estava incompleto.
Rafael encaminhou o material para análise pericial e avisou Camila.
— Isso não é só uma discussão de casal — a investigadora comentou.
— Eu sei.
No fim da tarde, chegaram relatórios financeiros. Marcelo recebera transferências de empresas relacionadas a Verônica. Algumas tinham justificativas comerciais genéricas, sem contratos correspondentes.
Dante passou os olhos pelos valores.
— Ele entrou nesta casa quando Sofia ainda era bebê.
Rafael não respondeu. Conhecia o peso daquela confiança quebrada.
— Não faça nada sozinho — advertiu.
Dante pediu que Marcelo fosse convocado para uma reunião com a presença do advogado e da equipe responsável pela segurança.
O homem entrou sorrindo, mas percebeu imediatamente que algo estava errado. Seu cartão de acesso deixara de funcionar no corredor do escritório.
— Algum problema, chefe?
Dante colocou sobre a mesa o registro de alterações das câmeras.
— Explique isso.
Marcelo leu o documento e deu de ombros.
— Uma manutenção de rotina.
— Não existe ordem de serviço.
— O técnico deve ter esquecido.
Rafael mostrou as transferências.
— E estes pagamentos?
O sorriso desapareceu.
— Serviços particulares. Não têm relação com a família.
— Então apresente os contratos — Rafael pediu.
Marcelo se levantou.
— Vocês estão acreditando naquela empregada contra mim?
Dante manteve a voz baixa.
— Estamos seguindo documentos.
Marcelo apontou para Marina, que entrara para entregar um relatório solicitado por Camila.
— Foi ela quem inventou tudo! Seduziu você e agora quer me tirar do caminho!
Marina não recuou.
— Eu não estava no alto da escada. Você sabe disso.
Por um instante, Marcelo pareceu prestes a avançar. Um segurança independente se aproximou da porta, e ele voltou a se sentar.
Rafael informou que suas credenciais estavam suspensas enquanto a investigação prosseguia. Marcelo respondeu que procuraria um advogado e saiu sem se despedir.
Pouco depois, descobriu-se que ele deixara a mansão por uma saída de serviço antes de receber a notificação formal.
Seu telefone estava desligado.
Verônica recebeu uma mensagem curta: “Ele sabe de tudo. Precisamos terminar o serviço.”
Ela tentou ligar. Ninguém atendeu.
Naquela noite, Sofia pediu para dormir com a avó. Helena concordou, mas a menina voltou ao próprio quarto para buscar seu ursinho favorito.
Uma funcionária ouviu passos no corredor e imaginou que fossem de algum segurança. Minutos depois, encontrou a porta entreaberta e a cama vazia.
Na cozinha da mansão, os funcionários conversavam em voz baixa sobre o desaparecimento de Marcelo. Uma copeira lembrava que ele sempre exigira acesso às chaves de serviço, mesmo quando não havia motivo para isso. Um motorista contou que recebera ordens contraditórias na noite do noivado.
Rafael pediu que cada pessoa registrasse apenas o que lembrava com segurança. Não queria que a pressão da família contaminasse depoimentos. Marina concordou. Conhecia o peso de uma acusação sem provas e não desejava reproduzir aquela injustiça.
Sofia, por sua vez, começou a dormir com a luz do corredor acesa. Dante percebeu e perguntou se a filha gostaria de conversar com uma profissional especializada em crianças que passaram por situações assustadoras. A menina aceitou, desde que pudesse levar o ursinho.
— Você pode levar o que quiser — ele prometeu.
Marina ficou orgulhosa da decisão. Dante estava aprendendo a pedir ajuda em vez de acreditar que precisava resolver tudo sozinho.
Naquela noite, antes do desaparecimento, Sofia escreveu num papel: “Eu quero que ninguém mais brigue.” Guardou a frase na gaveta e colocou o ursinho sobre o travesseiro.
O alarme foi acionado. Dante percorreu o corredor com dificuldade, chamando a filha. Helena procurou nos banheiros e na biblioteca. Marina, avisada por telefone, chegou pouco depois.
Nenhum deles encontrou Sofia.
Sobre o travesseiro estava a fita cor-de-rosa que prendia os cabelos da menina. Ao lado, um papel dobrado.
Dante abriu a mensagem com as mãos trêmulas.
— Se quiser sua filha viva, entregue a gravação.
Marina segurou o braço dele antes que perdesse o equilíbrio.
— Vamos encontrá-la — prometeu.
Dante encarou o corredor vazio. Pela primeira vez desde a queda, sentiu um medo maior do que qualquer dor física.
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