"A Noiva do Diabo" Capítulo 7 — A FOTO QUE DESTRUIU A REPUTAÇÃO DA EMPREGADA
Às seis e quinze da manhã, o celular de Marina começou a vibrar sem parar. A primeira mensagem veio de uma colega da cozinha. A segunda, de uma vizinha. Quando abriu a terceira, encontrou uma fotografia sua beijando Dante no jardim.
A legenda dizia que uma empregada ambiciosa seduzira o patrão enquanto ele se recuperava de um acidente. Outra publicação insinuava que Marina provocara a queda para afastar Verônica e conquistar a fortuna Montenegro.
Marina ficou imóvel. O beijo havia sido um momento delicado, escolhido livremente pelos dois. Agora desconhecidos transformavam aquele instante numa acusação pública.
— Marina? — Sofia chamou da porta. — Por que você está chorando?
Marina bloqueou a tela imediatamente.
— É só uma notícia desagradável, meu amor.
Sofia se aproximou, desconfiada.
— É sobre você e o papai?
Marina não quis mentir.
— Algumas pessoas estão falando coisas que não são verdade.
— Foi a Verônica?
— Ainda não sabemos quem publicou.
Sofia segurou sua mão.
— Eu sei que você não fez nada errado.
No andar de baixo, Helena lia as mesmas notícias. Uma fotografia da mansão aparecia ao lado de comentários cruéis sobre a diferença social entre Dante e Marina.
— Isso vai atingir a empresa — ela disse quando Dante entrou na sala.
Ele apoiava parte do peso numa bengala. A fisioterapia avançava, mas o trajeto até a mesa ainda exigia cuidado.
— Vai atingir Marina primeiro — respondeu.
Helena mostrou o telefone.
— Estão dizendo que ela se aproximou de você por interesse.
— E você acredita nisso?
A mãe demorou a responder.
— Acredito que esta família precisa de tranquilidade.
Dante colocou a bengala ao lado da cadeira.
— Então não repita uma mentira só porque ela é conveniente.
Marina apareceu na entrada e ouviu a última frase. O silêncio entre os três tornou-se constrangedor.
— Não quero ser motivo de briga — disse ela.
Dante se levantou devagar.
— Você não é o motivo. Quem divulgou aquela imagem é.
Rafael chegou pouco depois. Havia preservado cópias das publicações, os horários e os perfis que primeiro divulgaram o vídeo. Explicou que procuraria identificar a origem, sem prometer resultados imediatos.
— Também precisamos proteger Sofia — alertou. — Já mencionaram a menina em alguns comentários.
Marina sentiu um aperto no peito.
— Então talvez seja melhor eu sair daqui.
— Não — Dante respondeu imediatamente.
— Escute antes de decidir por mim. Sofia está lendo coisas horríveis. A sua mãe está preocupada. E eu preciso respirar sem ser observada o tempo todo.
Dante fechou os olhos por um instante.
— Não vou impedir você de escolher.
Marina agradeceu, mas a decisão lhe doeu mais do que imaginara. Subiu ao quarto e começou a dobrar as roupas. Cada peça parecia carregar uma lembrança daquela casa.
Sofia entrou sem bater.
— Você está arrumando a mala?
— Vou passar uns dias no meu apartamento.
A menina ficou pálida.
— Você prometeu voltar.
Marina se ajoelhou diante dela.
— E voltei. Agora preciso resolver algumas coisas. Não estou abandonando você.
— Todo mundo diz isso antes de ir embora.
A frase atingiu Marina com força. Sofia ainda associava qualquer despedida à perda da mãe.
— Olhe para mim. Vou telefonar. Vou visitar você quando for possível. E seu pai continuará aqui, todos os dias.
Sofia começou a chorar. Marina a abraçou sem tentar apressar suas lágrimas.
Do corredor, Dante ouviu parte da conversa. Percebeu que defender Marina não significava decidir onde ela deveria morar. Se a amava, precisava respeitar o espaço que ela pedia.
Verônica, enquanto isso, acompanhava a repercussão de um apartamento luxuoso nos Jardins. Sua assistente Beatriz permanecia perto da porta.
— A notícia está se espalhando — Beatriz informou.
— Ótimo. Quero que todos saibam quem ela é.
— A fotografia não prova nada de criminoso.
Verônica se aproximou.
— Não preciso provar. Preciso que as pessoas desconfiem.
Beatriz desviou os olhos. Guardava cópias de mensagens antigas, e cada nova ordem aumentava seu medo de acabar envolvida na investigação.
— Não vou publicar acusações falsas em meu nome — disse.
Verônica sorriu.
— Então encontre alguém que publique.
Na mansão, Helena procurou Marina antes de sua saída.
— Talvez seja realmente melhor se afastar por algum tempo.
Marina fechou a mala.
— Eu não estou fugindo por vergonha. Estou saindo porque não quero que uma criança pague pelo ódio dos adultos.
Helena observou o curativo já quase cicatrizado no braço da jovem.
— Você ama meu filho?
Marina respirou fundo.
— Amo. Mas isso não significa que eu tenha que aceitar qualquer humilhação.
A senhora ficou em silêncio. Pela primeira vez, não encontrou uma resposta baseada em dinheiro ou posição social.
Dante acompanhou Marina até a porta. Não tentou beijá-la diante dos funcionários.
— Rafael está trabalhando para identificar quem espalhou isso — informou.
— Obrigada.
— Posso ligar hoje à noite?
Ela assentiu.
— Pode.
Quando o carro saiu, Sofia permaneceu junto à janela. Dante sentou-se ao lado dela.
— Está com raiva de mim? — perguntou.
— Estou com raiva de quem fez a Marina chorar.
Ele passou o braço pelos ombros da filha.
— Eu também.
Na tarde seguinte, Dante convocou uma entrevista coletiva na sede do Grupo Montenegro, na Avenida Faria Lima. Rafael recomendou que não comentasse a investigação criminal.
Dante concordou. Falaria apenas do que sabia e de suas próprias decisões.
Diante das câmeras, confirmou que encerrara o noivado com Verônica antes de iniciar qualquer relacionamento com Marina.
— Marina Oliveira salvou minha vida — afirmou. — Ela não merece ser humilhada por isso.
Uma repórter perguntou se ele pretendia casar-se com a antiga empregada.
— Pretendo respeitar as escolhas dela. O resto pertence à nossa vida particular.
A resposta surpreendeu até Rafael.
Dante acrescentou que ameaças contra Sofia e acusações sem provas seriam encaminhadas às autoridades. Não citou Verônica, embora soubesse que ela assistia à transmissão.
No começo da tarde, uma antiga vizinha telefonou para Marina. Disse que a conhecia desde jovem e que não acreditava nas acusações. A conversa foi curta, mas ajudou Marina a recuperar a coragem. Não era verdade que todos a desprezavam. Algumas pessoas ainda distinguiam boatos de fatos.
Ela abriu o caderno onde costumava anotar as despesas do mês. Havia economias suficientes para algumas semanas, mas não para um longo período sem trabalho. Mesmo assim, decidiu que não aceitaria dinheiro de Dante como condição para continuar perto dele. Queria reconstruir sua vida profissional com dignidade.
Marina pesquisou vagas e encontrou anúncios que exigiam referências recentes. Pensou em como explicaria a investigação a um empregador desconhecido. Sentiu medo, mas também uma determinação que não experimentava havia muito tempo.
Quando Dante telefonou, ela contou parte dessas preocupações. Ele ofereceu ajuda, mas ouviu sua resposta antes de insistir.
— Preciso resolver algumas coisas por conta própria — Marina disse.
— Entendo. Se quiser conversar, estou aqui.
A simplicidade da resposta a emocionou. Pela primeira vez, o amor que sentia por ele parecia capaz de existir sem transformar sua liberdade numa dívida.
No apartamento, Marina acompanhou a entrevista pelo telefone. Chorou quando ouviu Dante defendê-la sem tratá-la como propriedade.
O alívio durou pouco.
Um policial entrou na sala de imprensa e pediu uma conversa reservada com Rafael. Minutos depois, aproximou-se do microfone, diante de jornalistas que ainda não haviam desligado as câmeras.
— Precisamos localizar Marina Oliveira para esclarecimentos sobre documentos suspeitos apresentados em nome do Grupo Montenegro.
Rafael interrompeu a transmissão. Dante exigiu conhecer a origem da nova acusação.
O policial explicou que uma denúncia apontava Marina como intermediária da falsificação.
No apartamento, Marina recebeu uma ligação da delegacia. Olhou para a própria mala, ainda fechada junto à porta.
A guerra contra sua reputação acabara de começar outra vez.
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