"A Noiva do Diabo" Capítulo 6 — O PRIMEIRO BEIJO QUE A NOIVA NÃO PODIA VER
Na manhã em que Dante conseguiu dar alguns passos com apoio do fisioterapeuta, Sofia comemorou como se o pai tivesse vencido uma corrida. Bateu palmas, pulou no tapete e correu para contar a Marina.
— Ele andou! O papai andou!
Marina apareceu à porta da sala de exercícios. Dante estava cansado, mas seus olhos procuraram os dela imediatamente.
— Parece que tenho uma torcida exigente — comentou.
— E merecida — Marina respondeu.
A recuperação avançava devagar. Ainda havia dias de dor e frustração, mas Dante começara a aceitar ajuda sem confundi-la com fraqueza. Também reservara as tardes de domingo para Sofia, cancelando reuniões que antes consideraria indispensáveis.
Num desses domingos, os três prepararam brigadeiros na cozinha. Dante errou a quantidade de chocolate, Sofia espalhou confeitos pelo chão e Marina declarou que os dois estavam proibidos de abrir uma confeitaria.
— Injustiça! — Sofia protestou.
— A chef decidiu — Dante respondeu.
Marina riu. Ele ficou observando aquele sorriso por tempo demais.
Mais tarde, no jardim, Sofia mostrou um desenho novo. Havia uma casa, um cachorro imaginário e três pessoas diante de um portão.
— Podemos ser uma família assim para sempre? — perguntou.
Dante sentiu o peso da pergunta. Marina desviou os olhos para as flores.
— Já somos pessoas que se amam muito — ela respondeu com cuidado.
Sofia pareceu satisfeita, mas Dante percebeu a tristeza discreta no rosto de Marina.
Naquela noite, ela pediu uma conversa.
— Acho melhor eu voltar às minhas funções habituais — disse. — A Sofia precisa de uma rotina que não dependa tanto de mim.
Dante franziu a testa.
— Ela está feliz com você.
— Eu também estou feliz com ela.
— Então qual é o problema?
Marina respirou fundo.
— O senhor ainda tem uma história mal resolvida com Verônica. E eu trabalho nesta casa.
Dante aproximou a cadeira.
— Você acha que não sei disso?
— Acho que sentimentos não resolvem todas as diferenças entre nós.
Ele ficou em silêncio. Marina continuou antes que perdesse a coragem.
— Não quero que a Sofia confunda carinho com uma promessa que ninguém fez.
Dante respeitou o pedido. Mas, naquela mesma noite, chamou Rafael para conversar sobre a situação do noivado.
A cerimônia religiosa nunca fora marcada, e o casamento civil também não. Ainda assim, Verônica continuava se apresentando publicamente como futura senhora Montenegro.
— Quero encerrar isso de maneira definitiva — Dante afirmou.
Rafael recomendou uma comunicação formal, a devolução dos itens vinculados ao compromisso e a separação de qualquer negociação patrimonial.
— Não tome essa decisão por causa de Marina — advertiu.
— Não estou tomando. O noivado acabou quando descobri que Verônica tentou atingir minha filha.
No dia seguinte, Dante recebeu Verônica no escritório, com Rafael presente. A ex-noiva entrou confiante, carregando uma pasta de propostas para a festa.
— Podemos conversar sobre a data do casamento? — perguntou.
Dante não a convidou a sentar.
— Não haverá casamento.
Verônica piscou, incrédula.
— Você não pode estar falando sério.
— Estou encerrando nosso noivado.
Ela lançou um olhar furioso para Rafael.
— Foi ele que colocou isso na sua cabeça?
— A decisão é minha.
— É por causa daquela empregada!
Dante manteve a voz firme.
— É por causa das suas atitudes. Você desrespeitou Sofia, tentou interferir no patrimônio dela e mentiu sobre a noite da queda.
Verônica empalideceu.
— Você não tem provas.
— A investigação vai determinar o que pode ser provado. Meu casamento, porém, não depende dela.
Ele colocou sobre a mesa uma caixa com o anel de noivado que Verônica deixara para ajuste semanas antes.
— Não quero que use meu nome para anunciar planos que não existem.
Verônica pegou a caixa com mãos trêmulas.
— Você vai se arrepender.
— Saia, Verônica.
Ela atravessou o corredor sem olhar para ninguém. Do lado de fora, ligou imediatamente para Marcelo, exigindo uma reunião.
Marina soube do rompimento por Helena. A senhora apareceu na cozinha e pediu que conversassem.
— Dante terminou o noivado — anunciou.
Marina ficou imóvel.
— Entendo.
— Não sei o que existe entre vocês. Mas não quero ver meu filho ferido outra vez.
— Nem eu, dona Helena.
Helena estudou seu rosto.
— Você gosta dele?
Marina baixou os olhos.
— Gosto muito desta família.
A resposta não satisfez Helena, mas também não lhe deu motivos para continuar a discussão.
No fim da tarde, Marina saiu para o jardim. Precisava pensar longe dos corredores e das expectativas. Encontrou Dante perto das roseiras, apoiado na bengala que começara a usar em trajetos curtos.
— Estava procurando você — ele disse.
— A Sofia está com a avó.
— Não vim falar da Sofia.
Marina sentiu o coração acelerar.
Dante parou a uma distância respeitosa.
— Encerrei meu noivado com Verônica. Não porque você pediu. Porque já não havia confiança, respeito nem futuro entre nós.
— Eu soube.
— Também sei que você teme o que as pessoas vão dizer.
Marina soltou uma risada sem humor.
— Elas já dizem coisas terríveis.
— E isso não é justo.
— Não é só a opinião dos outros, Dante. Eu não quero ser uma empregada que recebe atenção especial do patrão. Quero ser vista como alguém que pode escolher.
Ele assentiu imediatamente.
— Então escolha. Sem obrigação, sem promessa de dinheiro e sem medo de perder o emprego.
Marina o observou. Era a primeira vez que ele lhe oferecia algo sem tentar resolver a situação com autoridade.
— E se eu escolher ir embora?
— Vou respeitar. Mas não vou fingir que não sinto nada.
O vento moveu as folhas das roseiras. Marina sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
— Eu tentei não gostar de você.
Dante sorriu com tristeza.
— Eu também tentei.
Ela deu um passo à frente.
— Não quero que a Sofia sofra se isso não der certo.
— Nem eu. Por isso precisamos fazer as coisas com cuidado.
Dante tocou a mão dela, esperando que Marina decidisse se queria se aproximar. Ela entrelaçou os dedos nos dele.
— Posso beijar você? — ele perguntou.
Marina respondeu aproximando o rosto.
O beijo foi lento, inseguro no primeiro instante, depois cheio de uma ternura que nenhum dos dois conseguira expressar em palavras. Quando se afastaram, Dante encostou a testa na dela.
— Não quero esconder você — murmurou.
— Também não quero viver uma mentira.
Perto da varanda, Sofia apareceu com um livro nas mãos. Viu os dois juntos, sorriu para si mesma e voltou para dentro antes que a percebessem.
Marina apoiou a mão no peito de Dante.
— Precisamos conversar sobre muitas coisas.
— Amanhã — ele respondeu. — Hoje podemos só ficar aqui?
Ela assentiu.
Do outro lado do jardim, atrás de uma janela parcialmente aberta, uma câmera de celular registrou o beijo. A pessoa que filmava não fez barulho.
Poucos minutos depois, Verônica recebeu o vídeo.
Ela assistiu uma vez. Depois outra. Seu rosto permaneceu imóvel até a imagem mostrar Marina sorrindo nos braços de Dante.
Verônica digitou uma mensagem para um contato da imprensa.
“Tenho uma história sobre a empregada que seduziu o patrão enquanto ele estava ferido.”
Em seguida, encaminhou o vídeo e escreveu:
“Quero isso em todos os lugares amanhã cedo.”
A resposta chegou quase imediatamente.
“Você tem certeza?”
Verônica olhou para a fotografia do próprio anel, ainda guardada no celular, e respondeu:
“Absoluta.”
Na mansão, Marina se despediu de Dante com um sorriso. Não sabia que, antes do amanhecer, milhões de desconhecidos poderiam assistir ao momento mais íntimo de sua vida.
Verônica bloqueou a tela e sussurrou:
— Agora eu tenho exatamente o que preciso para destruir vocês dois.
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