"A Noiva do Diabo" Capítulo 5 — A EMPREGADA QUE DORMIU AO LADO DO MAFIOSO
Dante odiava a cadeira de rodas. Odiava depender de alguém para alcançar um copo, atravessar uma porta estreita ou subir até o quarto. Acima de tudo, odiava perceber o medo nos olhos de quem se aproximava.
Na terceira semana de recuperação, dispensou dois auxiliares antes do almoço. Um deixara cair sua bengala. O outro tentara ajudá-lo sem perguntar.
Marina encontrou a sala silenciosa e a bandeja de comida intocada.
— O senhor brigou com todo mundo de novo?
— Não estou com fome.
Ela puxou uma cadeira e sentou-se diante dele.
— Sofia preparou a sobremesa.
Dante olhou para o prato.
— Ela cozinhou?
— Misturou o chocolate e declarou que fez todo o trabalho.
Ele pegou a colher. Marina disfarçou um sorriso e foi buscar a menina.
Sofia entrou correndo com um guardanapo na mão.
— Papai, você precisa provar!
Dante experimentou o brigadeiro e fingiu pensar seriamente.
— Acho que vou contratar a melhor confeiteira de São Paulo.
— Eu sou a melhor! — Sofia respondeu.
— Então o contrato está fechado.
A menina riu. Marina ficou perto da porta, observando uma cena que parecia impossível algumas semanas antes.
Depois do almoço, o fisioterapeuta chegou. Dante realizou os exercícios com dificuldade e se irritou quando precisou interromper uma sequência por causa da dor.
— Eu conseguia caminhar quilômetros — murmurou.
— E voltará a progredir no seu ritmo — explicou o profissional.
Dante não gostou da expressão. Queria datas, metas e resultados. Não estava acostumado a negociar com o próprio corpo.
À noite, insistiu em ficar sozinho no quarto. Marina deixou água e o telefone ao alcance de sua mão, verificou se a campainha funcionava e saiu.
Pouco depois da meia-noite, ouviu um ruído abafado.
Quando abriu a porta, encontrou Dante sentado na beirada da cama, tentando se levantar sem apoio. A cadeira estava afastada. Ele perdera o equilíbrio e se segurava no móvel ao lado.
— Não se mexa — Marina pediu.
— Eu só precisava pegar uma coisa.
— Então me diga onde está.
Dante apontou para uma fotografia de Sofia sobre a cômoda. Queria mantê-la perto da cama.
Marina trouxe a moldura e ajudou-o a se acomodar, seguindo as orientações recebidas da equipe médica. Dante respirava rápido, irritado e envergonhado.
— Não precisava ver isso.
— Ver o quê? Um pai querendo uma foto da filha?
Ele desviou o rosto.
— Um homem que não consegue ficar de pé.
Marina se sentou na poltrona.
— O senhor não deixou de ser pai porque machucou a perna.
Dante permaneceu calado.
— Nem precisa provar que é forte o tempo todo.
Ele olhou para ela com uma expressão desconhecida. Marina estava acostumada a ver sua autoridade, nunca sua fragilidade.
— Tenho medo — ele confessou.
Ela não respondeu imediatamente.
— De não voltar a andar?
— De não conseguir proteger Sofia. De ela precisar de mim e eu não chegar a tempo.
Marina sentiu os olhos arderem.
— A Sofia não precisa de um homem perfeito. Precisa do pai dela.
Dante segurou a fotografia.
— Você sempre sabe o que dizer?
— Não. Às vezes falo demais.
Ele sorriu de leve.
A conversa se prolongou. Dante contou que a morte da primeira esposa o deixara incapaz de lidar com o sofrimento da filha. Trabalhar parecera mais simples do que entrar num quarto onde Sofia chorava pela mãe.
Marina falou sobre sua própria infância, sobre a mãe que fazia jornadas duplas e sobre as noites em que esperava acordada apenas para receber um abraço.
— Eu aprendi que presença não se compra — disse.
Dante assentiu.
— Você tem razão.
Era a primeira vez que Marina o ouvia admitir aquilo sem ironia.
Quando a dor aumentou, ela chamou a equipe responsável pelo acompanhamento domiciliar. Depois da avaliação e da medicação prescrita, Dante conseguiu descansar.
— Você pode ficar mais um pouco? — ele perguntou.
Marina hesitou.
— Até o senhor dormir.
Ela permaneceu na poltrona ao lado da cama. Dante estendeu a mão, e ela a segurou. Nenhum dos dois comentou o gesto.
Durante a madrugada, ele acordou assustado com a lembrança da queda. Marina falou com calma até reconhecer que estava em segurança.
— Foi só um sonho — ela disse.
— Eu ouvi a voz dela.
— Da Verônica?
Dante assentiu. Lembrava-se de uma ameaça, mas ainda não conseguia ordenar todos os detalhes. Marina não o pressionou.
Pouco antes do amanhecer, o cansaço venceu os dois. Marina adormeceu na poltrona, com a cabeça apoiada de lado. Dante continuou segurando sua mão.
Sofia abriu a porta às sete horas, carregando um ursinho. Parou ao encontrar a cena.
O pai dormia tranquilo. Marina também. As mãos estavam unidas sobre a beirada da cama.
A menina recuou sem fazer barulho e correu até o quarto de Helena.
— Vovó! Acho que o papai está apaixonado pela Marina!
Helena quase derrubou a xícara de café.
— Sofia, fale baixo!
— Mas é verdade!
A avó tentou explicar que adultos podiam demonstrar carinho sem estarem apaixonados. Sofia, porém, estava convencida. Ela conhecia o pai melhor do que todos imaginavam.
No café da manhã, Dante apareceu mais disposto. Pediu que trouxessem uma cadeira extra para Marina se sentar com eles.
Helena observou o gesto.
— Ela ainda está trabalhando, Dante.
— Hoje vai tomar café conosco.
Marina tentou recusar, mas Sofia puxou a cadeira.
— Senta aqui, por favor.
A refeição foi simples. Sofia contou uma história da escola, Dante fez perguntas e Marina precisou conter o riso quando ele errou o nome de uma personagem do desenho favorito da filha.
Por alguns minutos, a mansão pareceu uma casa comum.
Verônica chegou sem avisar e encontrou os três à mesa. Sua expressão endureceu ao perceber Marina sentada perto de Dante.
— Que interessante — comentou. — Agora os empregados fazem parte da família?
Dante pousou a xícara.
— Não fale assim com ela.
Verônica sorriu friamente.
— Só estou tentando entender as novas regras.
Sofia apertou a mão de Marina por baixo da mesa.
— A Marina é minha amiga.
— Amigos também precisam conhecer seu lugar — Verônica respondeu.
Dante encarou a ex-noiva em silêncio. A frase confirmou algo que vinha percebendo: Verônica nunca aceitara o afeto que Sofia sentia por Marina.
— Sua visita terminou — ele disse.
Verônica ficou imóvel.
— Está me expulsando?
— Estou pedindo que saia.
Ela deixou a sala com passos rápidos. No corredor, ouviu Sofia rir novamente e sentiu uma raiva quase física.
Mais tarde, ligou para Marcelo.
— Descubra tudo o que puder sobre Marina Oliveira.
— Já estamos correndo riscos demais.
— Então faça valer o dinheiro que recebeu.
Verônica desligou antes de ouvir a resposta.
Naquela noite, Marina encontrou um bilhete de Sofia sob a porta: “Obrigada por fazer meu papai sorrir.”
Marina também começou a perceber como a mansão havia mudado. Dante pediu que as refeições fossem servidas em horários previsíveis, para que Sofia soubesse quando encontraria o pai. Mandou abrir a biblioteca, antes reservada aos convidados, e deixou a filha escolher livros para lerem juntos.
Numa tarde chuvosa, Marina encontrou os dois no tapete, cercados de almofadas e histórias infantis. Dante fazia vozes diferentes para cada personagem, sem o menor talento para isso. Sofia gargalhava tanto que mal conseguia respirar. Marina ficou parada na porta, emocionada.
O homem que todos chamavam de impiedoso estava aprendendo a fazer algo que nenhum contrato poderia garantir: construir confiança com uma criança. E talvez fosse justamente essa mudança que tornava seus sentimentos tão difíceis de esconder.
Ela guardou o papel na gaveta e percebeu que sua maior dificuldade já não era enfrentar Verônica.
Era admitir o que começava a sentir por Dante.
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