"A Noiva do Diabo" Capítulo 4 — A NOIVA QUE QUERIA ROUBAR A HERANÇA
A primeira coisa que Dante fez ao voltar para a mansão foi pedir que retirassem o retrato do noivado da sala principal. Verônica observou dois funcionários carregarem a moldura e sentiu o rosto queimar.
— Você está me humilhando diante dos empregados.
Dante permaneceu na cadeira de rodas, com a perna apoiada e uma expressão fechada.
— Não quero fotografias daquela noite na sala da minha filha.
— Sofia precisa esquecer o que aconteceu.
— Ela precisa saber que está segura.
Verônica apertou a bolsa.
— E você acha que Marina pode garantir isso?
Dante não respondeu. Chamou Rafael e pediu que providenciasse o retorno de Marina ao trabalho, caso ela desejasse. A decisão deixou Verônica furiosa.
Marina chegou na manhã seguinte. Sofia correu pelo corredor e se lançou em seus braços, tomando cuidado com o ferimento.
— Você voltou!
— Voltei, meu amor.
Dante assistiu à cena da porta do escritório. Não sorriu abertamente, mas seus ombros relaxaram. Havia dias que não via a filha tão feliz.
Helena, porém, chamou Marina para uma conversa reservada.
— Meu filho está vulnerável. Não quero confusões sentimentais nesta casa.
Marina manteve a postura.
— Vim cuidar da Sofia, dona Helena. Não estou procurando marido nem dinheiro.
— Espero que compreenda a diferença entre carinho e intimidade.
— Compreendo. E também sei a diferença entre proteger uma criança e tratá-la como parte de um patrimônio.
Helena ficou sem resposta. Marina pediu licença e saiu, consciente de que poderia perder o emprego outra vez.
Na Avenida Faria Lima, Rafael encontrou um problema mais grave. Uma instituição financeira recebera uma autorização para alterar poderes de gestão relacionados aos ativos de Sofia. O documento continha a assinatura de Dante.
Rafael conhecia aquela assinatura havia quinze anos. O traço parecia correto, mas a data não fazia sentido: o documento fora apresentado depois da queda, quando Dante estava hospitalizado.
Ele solicitou cópias autenticadas, preservação dos registros de envio e suspensão de qualquer movimentação até esclarecimento judicial.
A gerente confirmou que uma representante ligada a Verônica havia encaminhado os papéis.
— Precisamos do nome de quem entregou tudo — Rafael disse.
— Vou consultar os registros internos.
Enquanto aguardava, o advogado encontrou Beatriz Nogueira, assistente pessoal de Verônica, saindo de um elevador. A mulher o reconheceu e imediatamente tentou se afastar.
— Beatriz, preciso falar com você.
— Não tenho nada a dizer.
— Sua chefe está envolvida numa investigação séria.
Beatriz olhou para os lados.
— Então não me procure aqui.
Ela desapareceu antes que Rafael insistisse. O medo em seu rosto, porém, confirmou que sabia mais do que dizia.
Na mansão, Marina encontrou Dante tentando alcançar uma pasta caída no chão. Ele recusara a ajuda de um funcionário e agora estava irritado consigo mesmo.
— Posso pegar? — ela perguntou.
— Eu consigo.
Marina esperou. Quando ele tentou se inclinar demais, aproximou-se para impedir uma queda.
— O senhor pode ser teimoso depois que o médico liberar.
Dante ergueu uma sobrancelha.
— Você está me dando ordens?
— Estou evitando outra visita ao hospital.
Ele soltou um breve riso, surpreendendo os dois.
Marina entregou a pasta. Ao fazê-lo, percebeu um desenho de Sofia sobre a mesa. Era a mesma casa amarela que a menina mostrara no hospital.
— Ela fez outro para o senhor?
— Disse que este tem janelas maiores.
— Porque agora ela quer que a luz entre.
Dante observou Marina por um instante.
— Você entende minha filha melhor do que eu.
— O senhor está aprendendo.
A frase ficou com ele durante toda a tarde.
À noite, Verônica procurou Marcelo numa garagem distante da mansão. O chefe da segurança chegou atrasado e nervoso.
— Rafael está atrás dos documentos — ele avisou.
— Então faça alguma coisa.
— Você disse que Dante não sobreviveria à queda.
Verônica o encarou.
— Baixe a voz.
— A menina gravou nossa conversa. E o advogado está com a câmera.
— Você deveria ter pegado o aparelho.
Marcelo deu um passo à frente.
— Não vou assumir sozinho a culpa por isso.
Verônica abriu a bolsa e mostrou comprovantes de transferências antigas.
— Você recebeu muito dinheiro para cumprir minhas ordens. Se cair, cai comigo.
Ele apertou os maxilares, mas não respondeu.
No dia seguinte, Rafael reuniu Dante e Helena no escritório. Marina estava do lado de fora, ajudando Sofia com a lição, quando ouviu o nome da menina ser mencionado.
Rafael explicou que a mãe falecida de Sofia deixara bens protegidos por um fundo patrimonial. Dante administrava certas decisões em benefício da filha, mas não podia simplesmente transferir sua propriedade para Verônica.
— Ela queria poderes de gestão — Rafael esclareceu. — Não era uma autorização comum de casamento.
Helena levou a mão à boca.
— Ela tentou usar a criança?
Dante ficou imóvel.
— Mostre o documento.
Rafael colocou a cópia sobre a mesa. Dante reconheceu seu nome, a assinatura reproduzida e a data.
— Eu nunca assinei isso.
— É o que precisamos demonstrar formalmente.
Dante pediu que o advogado adotasse as medidas necessárias para impedir qualquer movimentação. Também determinou que ninguém ligado a Verônica tivesse acesso aos arquivos pessoais de Sofia.
Quando Rafael saiu, Helena permaneceu em silêncio.
— Você ainda acha que Marina é o problema? — Dante perguntou.
A mãe baixou os olhos.
— Não sei mais em quem confiar.
Dante olhou para o corredor, onde Sofia ria de alguma coisa que Marina acabara de dizer.
— Comece observando quem faz minha filha se sentir segura.
Naquela noite, Sofia perguntou se sua mãe teria gostado de Marina. Dante não respondeu de imediato. Disse apenas que a mãe de Sofia sempre desejara vê-la cercada de carinho. A menina sorriu, abraçou o pai e pediu que ele nunca mais deixasse ninguém expulsar Marina sem ouvir a verdade.
Naquela noite, Verônica encontrou a porta do escritório trancada. Sua chave já não funcionava. Ela procurou Dante, mas ele se recusou a recebê-la.
O telefone vibrou. Era uma mensagem de Beatriz: “Rafael pediu os registros. Eles vão descobrir.”
Verônica apagou a conversa e caminhou até o jardim. Do outro lado da janela, viu Dante e Marina conversando perto de Sofia.
Pela primeira vez, compreendeu que não estava perdendo apenas o controle dos documentos. Estava perdendo o homem que pretendia possuir.
Minutos depois, Rafael voltou à mansão com uma informação ainda mais preocupante.
— Dante, alguém falsificou sua assinatura — afirmou. — E o documento já foi apresentado ao banco.
Rafael também explicou que o pedido de bloqueio dos poderes de gestão não retiraria direitos legítimos de Sofia. Era uma medida para preservar seus bens enquanto os fatos fossem apurados. Dante exigiu que cada decisão fosse documentada e comunicada aos responsáveis legais.
Dante fitou a cópia sobre a mesa.
Naquela tarde, Rafael também conversou com os funcionários que serviram durante o noivado. Uma copeira lembrava ter visto Marcelo sair do corredor do escritório pouco antes da queda. Um garçom confirmou que Verônica pedira para diminuir a iluminação próxima à escadaria.
Nenhum dos dois vira o empurrão, mas ambos aceitaram registrar suas observações. Rafael explicou que detalhes isolados não bastavam para condenar ninguém; precisariam ser confrontados com horários, imagens e documentos. Dante aprovou a investigação sem interferir nos depoimentos. Marina, ao saber da iniciativa, sentiu um alívio discreto.
O objetivo já não era apenas defender seu próprio nome. Era impedir que Sofia crescesse acreditando que a verdade podia ser comprada por quem tivesse mais dinheiro.
— Então não estamos mais falando de um casamento fracassado.
— Não — Rafael respondeu. — Estamos falando de um plano.
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