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"A Noiva do Diabo" Capítulo 3 — O MAFIOSO ACORDOU CHAMANDO PELA EMPREGADA

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Dante Montenegro despertou com o som de uma máquina e uma dor que parecia atravessar seu corpo inteiro. Tentou mexer a perna direita, mas um médico pediu que permanecesse imóvel.

— O senhor sofreu uma queda grave. Está no Hospital Albert Einstein.

Dante reconheceu o teto branco. Reconheceu também Verônica, sentada ao lado da cama, com um lenço entre os dedos.

— Meu amor, achei que fosse perder você — ela murmurou.

Ele tentou se lembrar da escadaria. Havia música, uma pasta de documentos e uma discussão. Depois, nada além de um impacto e de uma voz chamando seu nome.

— Sofia — perguntou.

— Está com sua mãe — Verônica respondeu. — Segura.

Dante fechou os olhos por um instante.

— E Marina?

O lenço parou nas mãos de Verônica.

— Aquela empregada? Foi ela quem causou tudo isso.

Dante virou o rosto.

— O quê?

— Ela tentou empurrar você. Marcelo a encontrou perto da escada. A polícia está investigando.

A afirmação lhe pareceu absurda, embora não conseguisse explicar por quê. Marina discutia com ele sobre horários, refeições e a atenção que Sofia merecia. Nunca demonstrara interesse em seu dinheiro.

— Quero falar com Rafael.

Verônica tentou protestar. Dante repetiu o pedido num tom que ela conhecia bem. Minutos depois, Rafael entrou acompanhado do médico Henrique Almeida.

Henrique explicou as lesões: concussão, costelas fraturadas e uma lesão na perna que exigiria reabilitação. A equipe havia descartado uma lesão medular grave, mas Dante precisaria usar cadeira de rodas temporariamente.

— Quando vou andar? — ele perguntou.

— Vamos acompanhar sua recuperação. Não vou prometer uma data.

Dante detestava respostas sem garantias. Rafael esperou o médico sair antes de revelar a existência da gravação de Sofia.

— Ela registrou uma conversa entre Verônica e Marcelo.

Dante permaneceu em silêncio.

— Há uma ameaça explícita — Rafael continuou. — A câmera caiu e está sendo examinada.

— E Marina?

— Prestou depoimento e foi liberada. Continua sendo investigada, mas não há prova de que tenha empurrado você.

Dante encarou o advogado.

— Você acredita nela?

— Acredito que precisamos investigar quem estava no alto da escada.

Enquanto isso, Marina tentava retomar a vida em seu pequeno apartamento na Vila Mariana. A proprietária do imóvel telefonara para perguntar se as notícias eram verdadeiras. Uma antiga colega de trabalho avisara que seu nome circulava em grupos de mensagens.

Ela desligou o celular por alguns minutos e observou o curativo no braço. O corte exigira pontos. Cada movimento lembrava a força com que Verônica a atingira.

A mãe de Marina morrera anos antes, e ela aprendera a sobreviver sem depender de ninguém. Ainda assim, naquela manhã, sentiu uma solidão que não experimentava havia muito tempo.

Foi Sofia quem rompeu o silêncio.

A menina ligou usando o telefone da avó e pediu que Marina contasse uma história. Marina inventou a aventura de uma pequena coruja que guardava uma estrela até o céu ficar seguro novamente.

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— A estrela vai voltar para casa? — Sofia perguntou.

— Vai, quando encontrar o caminho.

— E você?

Marina demorou a responder.

— Também estou tentando.

No hospital, Dante pediu para ver a filha. Sofia entrou segurando um desenho. Nele, três pessoas apareciam de mãos dadas diante de uma casa amarela.

— Quem são? — Dante perguntou.

— Eu, você e a Marina.

Verônica, que estava perto da janela, virou-se imediatamente.

— Sofia, isso não é apropriado.

A menina apertou o papel.

— Você não manda nos meus desenhos.

Dante observou a filha. Havia meses que ela não respondia a Verônica daquela maneira.

— Deixe-a falar — ele disse.

Sofia aproximou-se da cama.

— A Marina não machucou você. Ela correu para salvar você.

Dante segurou sua mão.

— Eu sei que você está dizendo o que viu.

— Então por que ela não está aqui?

A pergunta permaneceu entre eles. Dante não tinha uma resposta aceitável.

Mais tarde, Helena entrou no quarto e expressou preocupação com o escândalo. A imprensa associava a família a uma tentativa de homicídio, e os investidores do grupo exigiam esclarecimentos.

— Precisamos proteger nosso nome — ela insistiu.

— Primeiro vamos proteger a Sofia — Dante respondeu.

Helena ficou surpresa. O filho raramente interrompia conversas sobre negócios para falar de sentimentos.

Quando a noite caiu, Dante recebeu uma visita inesperada de Marina. Rafael havia solicitado sua presença para esclarecer detalhes do acidente. Ela entrou no quarto usando uma blusa simples e mantendo o braço enfaixado junto ao corpo.

Verônica se levantou furiosa.

— Quem autorizou essa mulher a entrar?

— Eu — Dante respondeu.

Marina parou perto da porta.

— Boa noite, senhor Dante.

Ele observou o rosto cansado dela.

— Sente-se.

— Prefiro ficar de pé.

— Seu braço está machucado.

— Vai melhorar.

Verônica soltou uma risada seca.

— Que cena comovente. A suspeita visitando a vítima.

Dante olhou para a noiva.

— Preciso conversar com Marina sozinho.

Verônica saiu batendo a porta.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. Dante tentou reconstruir a sequência dos acontecimentos. Lembrava-se de ter recusado uma assinatura. Lembrava-se de virar as costas para Verônica.

— Você viu quem me empurrou? — perguntou.

— Vi.

— Tem certeza?

Marina sustentou seu olhar.

— Eu não acusaria ninguém de algo assim sem ter certeza.

Dante percebeu que ela estava tremendo. Não de medo dele, mas do esforço para controlar a própria emoção.

— Você sangrou tentando me ajudar.

— Qualquer pessoa teria feito o mesmo.

— Não. Nem todos teriam.

Ela desviou o rosto. Dante se lembrou então de uma mão em seu ombro, de uma voz pedindo que permanecesse acordado e de alguém impedindo que o levantassem.

A imagem surgiu com uma nitidez inesperada: Marina ajoelhada, protegendo sua cabeça. Atrás dela, o vestido vinho de Verônica.

— Eu me lembro de uma coisa — ele disse.

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Marina voltou-se imediatamente.

— O quê?

Dante respirou devagar, sentindo a dor nas costelas.

— Você não me empurrou. Você tentou me salvar.

Os olhos de Marina se encheram de lágrimas. Ela as enxugou antes que caíssem.

— Obrigada por acreditar em mim.

— Não é questão de acreditar. Eu me lembro de você.

Dante estendeu a mão. Marina hesitou, depois permitiu que ele segurasse seus dedos.

— Vou descobrir o que aconteceu — prometeu.

Naquele momento, Rafael bateu à porta com o telefone na mão. Seu rosto estava fechado.

— Dante, preciso mostrar uma coisa.

Na tela aparecia uma manchete sobre a suposta tentativa de homicídio. A reportagem incluía uma fotografia de Marina e uma declaração atribuída a Marcelo.

Dante leu tudo sem dizer palavra.

— Quem autorizou isso? — perguntou finalmente.

— Estamos investigando o vazamento.

Antes de receber alta, Dante pediu ao médico que explicasse sua recuperação diretamente a Sofia. Henrique usou palavras simples e mostrou à menina como o pai precisaria de descanso e fisioterapia. Sofia perguntou se a cadeira de rodas seria para sempre.

O médico respondeu que a equipe esperava progresso, mas que ninguém deveria apressar o tratamento. Dante percebeu que sua filha prestava atenção a cada detalhe. Quando ficaram sozinhos, pediu desculpas por todas as vezes em que estivera ausente.

Sofia segurou seus dedos e disse que só queria jantar com ele, mesmo que precisasse empurrar a cadeira até a mesa. A simplicidade do pedido deixou Dante sem palavras. Pela primeira vez, entendeu que havia confundido segurança financeira com presença. E prometeu a si mesmo não repetir aquele erro.

Marina percebeu que Dante ainda precisava reconstruir muito mais do que a memória daquela noite. Ele precisava aprender a confiar em pessoas que não temiam contradizê-lo, mesmo quando a verdade fosse dolorosa.

Dante devolveu o aparelho.

— Então comece por quem está tentando destruir a mulher que salvou minha vida.

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