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"A Noiva do Diabo" Capítulo 2 — A MENINA QUE TODOS TENTARAM SILENCIAR

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Naquela manhã, Sofia Montenegro havia escondido três brigadeiros no bolso do vestido. Marina descobriu a travessura quando encontrou uma mancha de chocolate no tecido branco, preparado especialmente para a festa de noivado.

— Dona Sofia, isso é um crime contra a lavanderia — brincou.

A menina abriu um sorriso.

— Então você vai me prender?

— Só se não dividir comigo.

Sofia ofereceu um brigadeiro amassado. Marina aceitou, embora soubesse que Verônica detestaria encontrar açúcar perto das roupas importadas. Havia quatorze meses que trabalhava na mansão e aprendera a escolher suas batalhas.

A principal era proteger a infância de Sofia.

Quando Marina chegara, a menina quase não falava. Sua mãe morrera três anos antes, e a casa continuara funcionando como se o silêncio fosse uma regra. Os empregados cumpriam ordens, os corredores brilhavam, mas ninguém parecia saber o que fazer com a tristeza da criança.

Marina começou com pequenas coisas. Deixava lápis coloridos na mesa da cozinha, perguntava sobre desenhos e inventava histórias antes de dormir. Nunca exigiu que Sofia sorrisse. Esperou que a menina encontrasse motivos para fazê-lo.

Dante observava essa transformação de longe. Era um homem ocupado, dono de uma empresa de navegação com operações em Santos. Também carregava uma reputação perigosa, construída por negócios que raramente eram discutidos à mesa.

Com a filha, porém, parecia perdido.

— Ela comeu? — perguntava a Marina.

— Comeu, mas queria que o senhor estivesse no jantar.

Dante geralmente respondia com um aceno e voltava ao telefone. Marina não gostava daquilo. Uma noite, reuniu coragem para confrontá-lo.

— A Sofia não precisa de mais presentes, senhor Dante. Precisa de tempo com o pai.

Ele ergueu os olhos do computador.

— Você costuma falar assim com seus patrões?

— Só quando os filhos deles estão esperando na escada.

Dante não a demitiu. Naquela noite, subiu ao quarto da filha e permaneceu ali até ela dormir.

Verônica, ao contrário, nunca perdoou Marina por ter conquistado um espaço que dinheiro nenhum comprara. Tratava Sofia com doçura diante de Dante e impaciência quando estavam sozinhas.

Na tarde do noivado, a tensão explodiu.

Marina levava taças limpas para o salão quando ouviu vozes perto do escritório. Dante estava de pé junto à porta, segurando uma pasta de documentos.

— Eu concordei com o casamento — ele disse. — Não com essa autorização.

Verônica cruzou os braços.

— É uma simples reorganização patrimonial.

— A herança da Sofia está protegida por um fundo específico. Você não vai administrá-lo.

— Ela tem nove anos!

— E continuará sendo dona do que a mãe deixou.

Verônica aproximou-se dele.

— Você está cometendo um erro.

— O erro seria assinar isso.

Marina recuou antes que percebessem sua presença. Não queria ouvir uma conversa particular, mas o tom da noiva a deixou inquieta. Mais tarde, encontrou Sofia escondida perto da escada, segurando a câmera cor-de-rosa.

— O que está fotografando?

— As flores — Sofia respondeu depressa.

正文1

Marina se ajoelhou.

— Aconteceu alguma coisa?

A menina hesitou.

— A Verônica falou que o papai ia estragar tudo.

Marina sentiu um arrepio.

— Quando ela disse isso?

— Perto do escritório. Eu estava brincando de detetive.

Antes que Marina perguntasse mais, uma funcionária a chamou. Os convidados começavam a chegar. Ela pediu a Sofia que permanecesse perto da avó e voltou ao trabalho.

Pouco depois, ouviu o primeiro grito.

Agora, horas mais tarde, Marina estava sentada numa sala da delegacia, com o braço enfaixado. Uma investigadora chamada Camila Duarte ouviu seu relato sem interromper.

— Você viu as duas mãos de Verônica nas costas de Dante?

— Vi. Ela o empurrou quando ele se virou.

— Por que não tentou impedir?

Marina respirou fundo.

— Eu estava longe. Quando corri, ele já caía.

Camila anotou a resposta. Perguntou sobre o sangue, a cadeira de rodas que estava próxima à escada e a relação de Marina com a família. Marina explicou que a cadeira fora preparada para um tio idoso de Dante e acabara danificada no tumulto.

A investigadora mostrou então uma declaração atribuída a um garçom. Segundo o texto, Marina teria discutido com Dante por dinheiro.

— Isso nunca aconteceu.

— Vamos verificar.

Marina passou a madrugada respondendo perguntas. Rafael chegou com um advogado criminalista para acompanhá-la. A polícia não tinha elementos suficientes para mantê-la detida, mas a investigação continuaria.

Ao sair, encontrou fotógrafos diante da delegacia.

— Marina! Você tentou matar o patrão?

— É verdade que queria se casar com ele?

Ela cobriu o rosto com o braço saudável. Rafael a conduziu até um carro. No trajeto, o advogado recebeu notícias do hospital: Dante permanecia sedado, com lesões importantes, mas estava vivo.

Marina chorou em silêncio.

Na mansão, Sofia se recusava a dormir. Helena tentava convencê-la a descansar, mas a menina insistia em contar o que vira. A avó, assustada com a possibilidade de um escândalo, pediu que esperassem o depoimento oficial.

— Mas eu sei quem fez isso! — Sofia protestou.

Verônica apareceu à porta do quarto.

— Sua avó está certa. Você precisa esquecer essa noite horrível.

Sofia escondeu o rosto no travesseiro.

— Eu não vou esquecer.

Quando Verônica saiu, a menina tirou do bolso uma pequena folha dobrada. Era uma lista de horários que anotara durante sua brincadeira de detetive. Havia registrado a conversa no escritório e a hora aproximada da queda.

Ela guardou o papel dentro de um livro infantil.

Na manhã seguinte, Rafael examinou a câmera quebrada com um técnico. A tela não funcionava, e o aparelho não ligava. O cartão de memória, porém, ainda estava encaixado.

— Podemos tentar recuperar os arquivos — explicou o técnico. — Mas preciso trabalhar sem danificar o conteúdo.

— Faça uma cópia pericial antes de qualquer procedimento — Rafael orientou.

No mesmo instante, Marcelo recebeu uma mensagem de Verônica.

“Descubra onde está a câmera.”

正文2

Ele apagou a notificação e entrou no quarto de Sofia com uma caixa de bombons.

— Sua madrasta está preocupada com você.

— Ela não é minha madrasta.

Marcelo forçou um sorriso.

— Onde guardou suas fotos?

Sofia recuou.

— Com o doutor Rafael.

O homem mudou de expressão por um segundo.

— Você tem certeza?

A menina assentiu. Quando ele saiu, correu para o telefone e pediu que ligassem para Marina. Queria ouvir a voz da única adulta que acreditara nela desde o começo.

Marina atendeu no segundo toque.

— Oi, meu amor.

— Você vai voltar?

— Assim que eu puder.

Sofia começou a chorar.

— Se você não voltar, a Verônica vai matar meu papai de novo.

Marina fechou os olhos. Aquela não era apenas uma criança assustada. Era uma testemunha cercada por pessoas que queriam silenciá-la.

— Escute, Sofia. Fique perto da sua avó. E conte tudo ao doutor Rafael.

— Tudo mesmo?

— Tudo.

Antes de telefonar para Rafael, Sofia passou vários minutos examinando a lista escondida no livro. Havia desenhado um relógio ao lado de cada anotação, porque Marina lhe ensinara a registrar pistas durante suas brincadeiras. Uma delas mencionava uma porta lateral que Marcelo costumava manter fechada.

Outra mostrava a hora em que Verônica mandara os músicos aumentarem o volume. Sofia ainda não sabia explicar por que aqueles detalhes importavam. Sabia apenas que os adultos insistiam em dizer que ela estava confusa, e isso a deixava furiosa. Quando Helena entrou, encontrou a neta abraçada ao livro.

Em vez de repreendê-la, sentou-se ao lado dela e perguntou se gostaria de contar o que estava sentindo. Sofia respondeu que tinha medo de dormir e acordar sem o pai. Helena prometeu permanecer perto, embora também estivesse assustada.

A menina olhou para o livro onde escondera sua lista.

— Então preciso mostrar uma coisa para ele.

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