"A Noiva do Diabo" Capítulo 1 — A EMPREGADA ACUSADA DE ASSASSINATO
— TIRE ESSAS MÃOS SUJAS DO MEU NOIVO!
O grito de Verônica Albuquerque atravessou o salão de mármore da mansão Montenegro. Trinta e seis convidados interromperam as conversas. Um garçom deixou cair uma bandeja. No pé da escadaria, Dante Montenegro permanecia imóvel, cercado pelos estilhaços de uma taça.
Marina Oliveira ajoelhava-se ao lado dele. O sangue escorria de seu braço esquerdo, encharcando a manga preta do uniforme. Ela mal sentia a dor. Observava apenas o peito de Dante, que subia com dificuldade.
— Senhor Dante, não tente se levantar. A ambulância está vindo.
— Ela tentou matar meu noivo! — Verônica apontou para Marina. — Eu vi tudo!
Marina ergueu a cabeça. O vestido vinho da noiva estava impecável. Seus cabelos, presos num coque elegante, não tinham um fio fora do lugar. Era impossível esquecer aquelas mãos empurrando Dante pelas costas, no alto dos dezessete degraus.
— Foi você — Marina disse. — Você empurrou o senhor Dante.
Um murmúrio percorreu o salão. Verônica abriu a boca, indignada, e levou a mão ao peito.
— Essa empregada está mentindo! Marcelo, tire-a daqui!
Marcelo Ferraz, chefe da segurança, avançou acompanhado de dois homens. Marina estendeu o braço são para impedir que tocassem em Dante.
— Não o movam. Ele pode ter machucado a coluna.
— Você não dá ordens nesta casa — Marcelo respondeu.
O segurança agarrou seu ombro ferido. Marina soltou um grito. Dante tentou abrir os olhos, mas a cabeça caiu de lado. Ela se inclinou imediatamente para verificar sua respiração.
— Chamem um médico! Agora!
Verônica começou a chorar diante dos convidados. As lágrimas pareciam surgir exatamente quando alguém a observava. Marina conhecia aquele talento. Durante meses, vira a noiva transformar uma ameaça em sorriso antes que Dante entrasse na sala.
— Eu só queria uma noite feliz — Verônica soluçou. — E essa mulher destruiu tudo.
No alto da escadaria, uma voz infantil interrompeu o tumulto.
— PAREM!
Sofia Montenegro, de nove anos, segurava uma câmera digital cor-de-rosa. O vestido branco de veludo tremia junto com seus ombros. A menina olhava para Marina, não para a madrasta que ainda não era madrasta.
— Não encostem nela — Sofia exigiu.
— Querida, volte para o quarto — Verônica ordenou.
— Não vou voltar.
Sofia desceu dois degraus. A câmera estava presa ao pulso por uma fitinha bordada com pequenas estrelas.
— Eu sei quem machucou o papai.
Verônica parou de chorar.
— Você está assustada, meu amor. Não sabe o que viu.
— Eu gravei tudo!
O silêncio foi tão completo que Marina ouviu a sirene distante. Verônica estendeu a mão para a câmera.
— Entregue isso, Sofia.
A menina recuou e apertou um botão. Uma gravação começou a tocar pelo pequeno alto-falante.
— Se Dante não assinar hoje, ele nunca mais vai assinar nada.
A voz era de Verônica.
Um homem respondeu:
— Faça parecer que foi a empregada.
Marina virou-se para Marcelo. Ele estava pálido, com os olhos fixos no aparelho.
— Essa voz é sua — disse um convidado.
Marcelo se recompôs depressa.
— Uma gravação pode ser montada. A menina não entende essas coisas.
— Eu entendo, sim! — Sofia gritou. — Vocês falaram perto do escritório!
Verônica avançou para a escada. Marina se levantou, mesmo sentindo o braço arder.
— Não chegue perto dela.
— Saia da minha frente!
Antes que Verônica alcançasse Sofia, Marcelo subiu os degraus de dois em dois. A menina tentou fugir. Marina correu para interceptá-lo. O segurança empurrou seu ombro, e ela se chocou contra o corrimão.
A câmera escapou da mão de Sofia.
O aparelho bateu no mármore, deslizou por vários degraus e parou aos pés de Verônica. A tela apagou. A noiva se abaixou imediatamente, mas Rafael Costa, advogado da família, chegou primeiro.
— Ninguém toca nisso — Rafael afirmou, guardando o aparelho num lenço limpo.
— É propriedade da minha futura enteada — Verônica protestou.
— E pode ser prova de um crime.
As portas se abriram. Dois paramédicos entraram carregando equipamentos. Marina recuou para lhes dar espaço e explicou a queda, a perda de consciência e a dificuldade respiratória de Dante.
O médico da equipe examinou o empresário sem permitir que o movimentassem. Depois, coordenou a imobilização cuidadosa e a transferência para a maca.
Marina acompanhou tudo com os punhos fechados. Dante parecia tão diferente do homem que todos temiam. Não havia ordens frias, ternos impecáveis nem guarda-costas obedientes. Havia apenas um pai ferido, respirando com ajuda.
Quando a maca passou por Sofia, a menina tocou a mão do pai.
— Papai, por favor, acorda.
Dante não respondeu.
Verônica tentou acompanhar a ambulância, mas Rafael se colocou diante dela.
— A polícia precisa ouvir todos os presentes.
— Eu sou a noiva dele!
— Isso não lhe dá o direito de decidir quais provas serão examinadas.
A primeira viatura chegou enquanto a ambulância saía. Marcelo aproximou-se dos policiais antes que Marina pudesse falar. Ela o ouviu afirmar que encontrara a empregada junto à escada, tentando esconder alguma coisa.
Marina sentiu o estômago afundar. A versão já estava pronta.
Uma policial pediu que ela mostrasse o ferimento. O corte era profundo, mas não explicava a queda. Marina contou que Verônica a segurara pelo pulso e a lançara contra o corrimão quando tentou proteger Dante.
— Há testemunhas? — perguntou a policial.
Marina olhou para os convidados. Alguns desviaram o rosto. Outros cochicharam. Ninguém quis dizer que vira o empurrão.
— Eu vi — Sofia respondeu.
Verônica se aproximou da menina com um sorriso tenso.
— Você está confundindo as coisas.
— Não estou!
Rafael pediu que Sofia ficasse ao lado de dona Helena, avó paterna da criança, que acabara de chegar. Helena abraçou a neta, mas olhou para Marina com desconfiança.
— O que aconteceu com meu filho?
Marina tentou explicar. Marcelo a interrompeu, exibindo uma declaração que dizia ter sido assinada por um funcionário da festa. Segundo o documento, Marina discutira com Dante minutos antes da queda.
— Isso é mentira — ela respondeu.
O policial responsável pediu que todos permanecessem disponíveis para depoimento. Ao perceber que a acusação recaía sobre ela, Marina compreendeu que a noite ainda estava longe de terminar.
Rafael se aproximou discretamente.
— Vou preservar a câmera e pedir uma perícia. Não diga nada além do que viu.
— E a Sofia?
— Ficará com a avó.
Marina procurou a menina. Sofia estava agarrada à saia de Helena, chorando em silêncio. Quando seus olhos se encontraram, a criança estendeu a mão.
Marina atravessou o salão e se abaixou diante dela.
— Seu pai está recebendo ajuda. Você foi muito corajosa.
— Eles vão levar você embora?
Marina não conseguiu responder imediatamente.
Do outro lado do salão, Marcelo conversava em voz baixa com Verônica. A noiva já não chorava. Seus olhos acompanhavam Rafael, que mantinha a câmera quebrada junto ao peito.
Sofia abraçou Marina com força.
— Não deixa eles apagarem o que eu gravei.
Marina beijou os cabelos da menina.
— Não vou deixar a verdade desaparecer.
Então ouviu Marcelo dizer ao policial:
— Quero registrar formalmente que a empregada tentou matar Dante Montenegro.
A policial aproximou-se de Marina e pediu que a acompanhasse para prestar depoimento. Sofia apertou sua mão, desesperada.
— Não! Ela salvou o papai!
Marina se levantou lentamente. O sangue havia secado na manga, mas a dor agora latejava até o ombro.
Antes de sair, olhou uma última vez para a escadaria. Ali, minutos antes, uma mulher tentara matar o próprio noivo. Agora a mesma mulher permanecia livre, cercada de gente influente.
E a única prova capaz de derrubá-la estava quebrada.
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