"Ele Teve Vergonha da Esposa e Não a Levou à Festa… Mas Não Imaginava Com Quem Ela Chegaria" Capítulo 5 — A Assinatura Roubada
Helena não ouviu os primeiros comentários. O salão pareceu perder o som enquanto olhava para a filha. Clara apertava o disco azul contra o peito, incapaz de sustentar o olhar da mãe.
— Repita olhando para mim — pediu Helena.
— Mãe…
— Se acredita que sou mentirosa, olhe para mim e repita.
Clara ergueu o rosto. Lágrimas escorriam, mas as palavras saíram:
— A senhora nunca foi a verdadeira estilista. Apenas costurava as ideias do papai.
Marcelo fechou os olhos por um instante, satisfeito. O delegado estendeu a mão para receber o disco. Clara o entregou ao pai antes que o policial pudesse pegá-lo.
— Está vendo? — disse Marcelo. — Minha própria filha confirma.
Helena percebeu que havia medo no rosto de Clara, não convicção. Ainda assim, a dor era insuportável. Passara dezenove anos ensinando a filha a não se diminuir, mas nunca lhe mostrara como enfrentar o homem que sustentava a casa.
Lavínia voltou ao palco usando um casaco sobre o vestido vermelho.
— Lamento que uma noite tão importante tenha sido arruinada por ciúme.
Helena virou-se para ela.
— Não confunda minha dor com desejo de ocupar seu lugar. Eu não quero o homem que aceitou se tornar.
O delegado informou que precisaria conduzi-la para prestar esclarecimentos. Um policial se aproximou com algemas.
Eduardo colocou-se à frente.
— Ela irá com advogados. Algemá-la diante da imprensa é desnecessário.
Marcelo interveio:
— Minha esposa pode tentar fugir. Está instável.
Helena estendeu as mãos.
— Não darei a ele a imagem de uma mulher sendo arrastada.
O metal fechou-se em seus pulsos. Fotógrafos avançaram. Eduardo tirou o próprio paletó e tentou cobrir as algemas, mas Helena recusou.
— Deixe que vejam. Amanhã também verão quem deveria estar usando isto.
Ao passar por Clara, Helena parou.
— Eu ainda amo você. Mas hoje escolheu ferir a única pessoa que nunca exigiu que escondesse quem é.
Clara desabou numa cadeira.
Na delegacia, Marcelo apareceu antes do advogado de Helena. Entrou na sala de depoimento com a autorização de alguém influente e colocou sobre a mesa uma declaração pronta.
— Assine. Reconheça a cessão dos desenhos e diga que interpretou mal minha relação com Lavínia.
— Sua relação estava usando meu vestido.
— Isso pode ser explicado.
— O que não pode ser explicado é você ter nojo de ser visto comigo e lucrar com roupas feitas para mulheres como eu.
Marcelo perdeu a calma.
— Você acha que o mundo compraria seus vestidos se seu rosto estivesse na campanha? Eu transformei seus rabiscos em negócio.
— Transformou minha confiança em acesso.
Ele empurrou a declaração.
— Se não assinar, perderá o ateliê. O imóvel garante um empréstimo da minha empresa. Amanhã o banco tomará posse.
Helena lembrou das doze mulheres que dependiam daquele trabalho. Algumas sustentavam filhos, outras cuidavam de pais doentes. Marcelo escolhera a ameaça mais eficiente.
— Você hipotecou meu ateliê?
— Nosso patrimônio. Assinou a autorização.
— Outra assinatura que não lembro?
— Talvez devesse começar a duvidar de si mesma.
Helena rasgou a declaração.
— Passei anos fazendo exatamente isso. Acabou.
Marcelo saiu e encontrou Clara no estacionamento. Ela exigiu o disco azul.
— Fiz o que pediu. Agora retire a denúncia.
— Ainda não.
— Você prometeu.
— Prometi proteger o trabalho das costureiras se obedecesse. Sua mãe escolheu sacrificá-las.
Clara ativou discretamente o gravador do celular.
— Você me obrigou a mentir.
— Eu lhe ensinei a escolher o lado que paga suas contas.
— E falsificou a assinatura dela?
Marcelo aproximou-se.
— Tome cuidado com as perguntas.
Clara recuou, mas continuou:
— Vai declarar mamãe incapaz?
— Amanhã um médico confirmará que ela não responde pelos próprios atos. Quando isso acontecer, ninguém acreditará em nada que disser.
Clara correu em direção ao carro de Eduardo. Antes de alcançá-lo, Marcelo segurou seu pulso e tomou o celular.
Ele viu a gravação na tela.
— Você herdou o talento de sua mãe para escolher batalhas que não pode vencer.
Marcelo jogou o aparelho no chão e esmagou-o com o salto do sapato. Clara se ajoelhou diante dos pedaços.
Enquanto isso, na sala de custódia, Helena encostou a cabeça na parede. Uma televisão exibia imagens da festa. Na legenda, ela era chamada de “costureira obcecada” e “esposa ciumenta”.
Então apareceu uma fotografia antiga: Helena mais magra, ao lado de Marcelo, antes do nascimento de Clara.
O apresentador perguntou como uma mulher “antes tão bonita” havia se transformado daquela maneira.
Helena fechou os olhos.
Marcelo não estava apenas roubando seu trabalho.
Agora usaria contra ela o corpo que quase morrera para dar à luz a filha dele.
Antes de a televisão mudar de assunto, o programa exibiu uma entrevista concedida por Marcelo na saída do hotel. Ele segurava a mão de Lavínia diante das câmeras e lamentava o “sofrimento psicológico” da esposa.
— Helena sempre foi uma mulher sensível. Minha prioridade agora é protegê-la dela mesma.
Lavínia permaneceu ao lado dele em silêncio. O casaco escondia o vestido vermelho, mas uma pequena faixa do tecido ainda aparecia. Helena percebeu que até sua criação parecia aprisionada naquela imagem.
Uma mulher detida por furto assistia à televisão no outro lado da sala. Aproximou-se das grades e observou Helena.
— É você, não é?
Helena esperou outra ofensa.
— Minha irmã comprou um vestido seu para o casamento dela. Você refez tudo sem cobrar quando ela engordou por causa da quimioterapia.
Helena reconheceu a história. A noiva entrara na oficina chorando, convencida de que precisava cancelar a cerimônia.
— Ela se casou?
— Dançou até amanhecer.
A mulher apontou para a televisão.
— Não deixe esse homem decidir o que as pessoas vão lembrar de você.
Helena encostou-se novamente à parede. Do lado de fora, Marcelo possuía advogados, dinheiro e uma narrativa pronta. Ela possuía mulheres que lembravam como haviam se sentido dentro das roupas que criara.
Talvez fosse pouco diante de um império.
Talvez fosse exatamente onde deveria começar.
Quando seu advogado chegou, Helena contou sobre os papéis que Marcelo lhe fizera assinar durante internações e tratamentos. Recordou procurações misturadas a autorizações do convênio e folhas apresentadas como documentos bancários.
— Ele usou momentos em que eu estava vulnerável.
O advogado anotou datas e pediu o prontuário. Se provassem que Helena estava sedada no dia da cessão, a escritura perderia força.
Ela também pediu que localizassem a tabeliã responsável. Não queria depender apenas de Eduardo ou da Bellavita.
Antes do amanhecer, Jandira enviou uma fotografia antiga da oficina. O croqui da coleção Aurora aparecia preso à parede dois anos antes do registro de Marcelo.
Outras funcionárias começaram a procurar mensagens, recibos e amostras. A mulher isolada numa cela descobria que o trabalho compartilhado deixara rastros em muitas vidas.
Ela pediu ao advogado que não divulgasse as imagens médicas para provocar pena. Sua defesa se apoiaria em datas, contratos e testemunhas, não na obrigação de expor cada sofrimento para merecer credibilidade.
— Marcelo já transformou meu corpo em prova contra mim. Não faremos o mesmo para defendê-lo.
O advogado concordou. Helena respirou fundo e se preparou para a audiência. Sabia que encontraria a filha do outro lado da sala e ainda não sabia qual versão de Clara estaria esperando por ela.
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