"Ele Teve Vergonha da Esposa e Não a Levou à Festa… Mas Não Imaginava Com Quem Ela Chegaria" Capítulo 4 — Apenas Minha Costureira
Lavínia puxou a saia para longe das mãos de Helena.
— Não toque em mim.
— Não preciso tocar em você. Preciso apenas mostrar o que está escondido na costura.
Helena pediu uma pequena tesoura à assistente do desfile. Marcelo tentou impedir, mas Eduardo se colocou entre eles. Diante das câmeras, Helena virou alguns centímetros do forro vermelho sem danificar o vestido.
Duas letras bordadas surgiram perto da costura: H.D.
— Eu marco assim todas as peças únicas — explicou. — Helena Duarte. A linha dourada veio de um lote comprado no Brás há quatro meses. Tenho a nota fiscal e fotografias do processo.
Lavínia olhou para Marcelo.
— Você disse que o vestido era uma amostra da empresa.
— E era.
— Estava no meu ateliê — corrigiu Helena. — Fiz para o aniversário do nosso casamento. Marcelo disse que vermelho chamaria atenção demais para alguém do meu tamanho.
Um murmúrio percorreu o salão. Lavínia cruzou os braços sobre o corpo, como se o vestido tivesse se tornado uma acusação visível.
— Eu não sabia — disse.
Helena acreditou apenas em parte. Lavínia podia desconhecer a origem da peça, mas sabia que acompanhava um homem casado.
— Você sabia que ele tinha esposa.
— Ele disse que estavam separados.
— Há duas horas, ele ainda decidia que roupa a esposa deveria tirar.
Marcelo avançou.
— Isto é uma crise conjugal, não uma pauta corporativa.
Teresa Bellini, diretora financeira e irmã de Eduardo, levantou-se da primeira mesa.
— Quando uma crise conjugal envolve quarenta e sete arquivos da empresa e milhões em faturamento, torna-se pauta corporativa.
Ela entregou ao irmão uma pasta com os resultados preliminares da auditoria. O núcleo criativo externo mencionado por Marcelo não possuía funcionários, endereço ou notas de prestação de serviço.
— Quem recebeu os pagamentos? — perguntou Eduardo.
Marcelo apertou o maxilar.
— Uma empresa terceirizada.
— Registrada em nome de quem?
— O financeiro sabe.
Teresa respondeu:
— Em nome de uma holding cuja procuradora é Lavínia Prado.
Todos se voltaram para ela.
— Eu nunca administrei holding nenhuma — disse Lavínia.
— Sua assinatura consta em três documentos.
Lavínia pegou a pasta, examinou uma página e empalideceu.
— Esta assinatura foi copiada.
Helena observou Marcelo. Ele já não tentava convencê-la; calculava quem poderia sacrificar primeiro.
— Suspendam a apresentação — ordenou Eduardo. — Nenhum contrato será assinado até concluirmos a autoria e o destino dos pagamentos.
Investidores começaram a telefonar. Jornalistas transmitiam ao vivo. Marcelo segurou o braço de Eduardo.
— Você destruirá uma coleção inteira por causa de uma costureira ressentida?
Helena ouviu claramente.
— Não — respondeu Eduardo. — Estou protegendo uma empresa de um diretor que não consegue distinguir casamento de apropriação.
Marcelo virou-se para Helena.
— Diga que entregou os desenhos voluntariamente.
Ela lembrou as noites em que ele elogiava seus croquis, beijava sua testa e prometia mostrar “apenas a um amigo”. Lembrou a alegria ao reconhecer uma peça na vitrine e a explicação de que ideias semelhantes surgiam ao mesmo tempo.
— Entreguei ao meu marido. Não autorizei um executivo a apagar minha assinatura.
Lavínia deixou o palco, mas fotógrafos a seguiram. Helena não sentiu triunfo. Apenas cansaço.
Clara ligou. Helena atendeu atrás da cortina.
— Mãe, o que está acontecendo? Há vídeos seus em toda parte.
— Seu pai roubou meus desenhos.
Silêncio.
— Ele disse que você está confusa.
— E você acredita?
— Eu não sei.
A resposta feriu Helena mais do que esperava.
— Venha para o hotel. Traga o disco externo azul do meu ateliê.
— Papai disse para eu ficar em casa.
— Hoje você terá de decidir se continua obedecendo a uma mentira.
Helena encerrou a ligação. Ao voltar ao salão, encontrou Marcelo cercado por advogados. Um deles colocou sobre a mesa uma escritura reconhecida em cartório.
O documento afirmava que Helena cedera, cinco anos antes, todos os desenhos produzidos durante o casamento à empresa de Marcelo.
Ela examinou a assinatura. Parecia sua, mas a data coincidia com uma internação hospitalar após uma crise hormonal. Naquele dia, Helena mal conseguia segurar uma caneta.
— Eu nunca assinei isto.
— Está reconhecido em cartório — disse o advogado.
Marcelo recuperou parte da arrogância.
— Talvez não se lembre.
— Eu me lembraria de entregar minha vida.
— Você vive esquecendo coisas quando está nervosa.
Eduardo solicitou perícia, mas Marcelo já preparara o próximo golpe. Dois policiais entraram no salão acompanhados de um delegado.
— Recebemos denúncia de furto de documentos confidenciais e tentativa de extorsão — informou ele.
Marcelo apontou para Helena.
— Minha esposa invadiu arquivos privados. Está passando por uma crise.
Eduardo protestou, mas os policiais pediram que Helena os acompanhasse. Diante das câmeras, ela se recusou a fugir ou se esconder.
Marcelo aproximou-se e falou baixo:
— Peça desculpas a Lavínia. Diga que os desenhos eram meus e volte para casa. Retiro a denúncia.
— Você me rouba e ainda oferece minha casa como recompensa?
— Estou oferecendo uma saída.
— Prefiro a verdade.
As portas do salão se abriram. Clara entrou ofegante, abraçada ao disco externo azul. Helena sentiu alívio pela primeira vez.
O delegado perguntou se a jovem possuía provas sobre a autoria.
Clara olhou para o pai. Marcelo fez um gesto quase imperceptível em direção ao celular.
Ela começou a chorar.
— Meu pai está dizendo a verdade — declarou. — Minha mãe está mentindo.
Pouco antes da chegada de Clara, Teresa mostrara outro relatório. Os pagamentos destinados ao falso núcleo criativo coincidiam com as parcelas de um apartamento no Itaim Bibi, registrado em nome de Lavínia.
— Foi presente de Marcelo? — perguntou Helena.
— Ele disse que era investimento da empresa para executivos — respondeu Lavínia.
— Esse programa não existe — informou Teresa.
Um antigo funcionário entregou a Eduardo cópias de e-mails nos quais Marcelo ordenava que protótipos fossem retirados do ateliê de Helena durante a madrugada.
— Fui demitido quando perguntei pela autora — contou.
Marcelo o chamou de ressentido. Depois acusou Helena de seduzir Eduardo para tomar a empresa.
Ela ergueu o microfone.
— É assim que homens como você explicam qualquer mulher que conquista acesso: se ela não pertence a eles, deve pertencer a outro.
Eduardo não falou por ela. Permaneceu ao lado, deixando que a resposta de Helena ocupasse o salão.
Quando os policiais entraram, ela compreendeu que Marcelo preparara aquela noite. Trouxera o documento falso, a denúncia e os advogados porque temia que alguém descobrisse a verdade.
O que ele não previra era a própria filha entrar carregando o arquivo capaz de destruí-lo.
Teresa orientou a equipe técnica a preservar todas as gravações da noite. Eduardo pediu que nenhum funcionário apagasse mensagens ou deixasse o hotel antes de ser identificado. Pela primeira vez, Marcelo não controlava os documentos, as câmeras nem as testemunhas.
Helena segurou o pulso para esconder o tremor. Não queria a prisão do marido sem provas; queria algo que ele jamais lhe concedera: um processo em que sua voz tivesse o mesmo valor que a dele.
Ao vê-la atravessar a porta, Helena acreditou que a verdade finalmente ganhara uma testemunha impossível de desqualificar.
Por isso, quando Clara escolheu as palavras do pai, a queda foi ainda mais profunda.
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