"Ele Teve Vergonha da Esposa e Não a Levou à Festa… Mas Não Imaginava Com Quem Ela Chegaria" Capítulo 2 — A Mulher Que Ele Escondeu
Helena permaneceu junto à porta, segurando a maçaneta. O motorista não parecia alguém enviado para uma brincadeira. Usava um discreto broche com o emblema da Bellavita e mantinha as mãos unidas diante do corpo.
— O senhor Bellini está lá embaixo?
— Está esperando no carro.
— Eduardo Bellini não espera ninguém.
— Hoje decidiu esperar a senhora.
Helena olhou para o espelho da sala. A mulher refletida continuava usando o vestido que o marido considerara impróprio para ser visto. Por um instante, desejou fechar a porta, limpar a maquiagem e fingir que aquela noite nunca acontecera.
— Agradeça, mas não vou.
Antes que fechasse, uma voz masculina surgiu do elevador.
— Então terei subido tarde demais.
Eduardo Bellini avançou pelo corredor. Aos quarenta e oito anos, tinha cabelos escuros marcados por fios prateados e a postura tranquila de quem não precisava erguer a voz para ser obedecido. Não parecia constrangido por encontrá-la em casa.
— Senhora Duarte.
— Senhor Bellini.
— Posso entrar por cinco minutos?
Helena abriu espaço. Eduardo dispensou o motorista com um gesto e entrou. Seus olhos passaram pelos pedaços do convite ainda espalhados sobre o tapete, mas ele não comentou.
— Marcelo sabe que o senhor está aqui?
— Não.
— E por que está?
Eduardo abriu uma pasta de couro. Colocou sobre a mesa cópias de croquis, fichas técnicas e fotografias de vestidos que Helena conhecia melhor do que a própria casa.
— Porque passei oito meses procurando a pessoa que desenhou isto.
Helena tocou o primeiro croqui. Era a coleção Aurora, inspirada nas mulheres que encontrava diariamente em sua oficina. Marcelo levara os desenhos dizendo que mostraria a um fornecedor de tecidos.
— Onde conseguiu?
— Nos arquivos da Bellavita. Foram registrados como trabalho de um núcleo criativo externo coordenado por Marcelo Azevedo.
Eduardo mostrou as versões entregues à empresa. Alguém apagara as iniciais H.D. do canto inferior e inserira o nome de Marcelo na ficha de autoria.
— Quantos desenhos estão registrados assim?
— Quarenta e sete.
Helena sentou-se. A sala pareceu menor.
— Isso não é possível.
— Doze foram produzidos. Sete se tornaram líderes de venda. A coleção lançada esta noite contém seis projetos seus.
— A coleção Todas?
— Exatamente.
Marcelo falava de Todas havia meses. Dizia que a linha representaria mulheres reais, mas nunca mostrara as peças finais. Helena agora reconhecia a ironia: ele lucrava com roupas criadas para corpos que desprezava.
— Por que acredita que são meus?
Eduardo retirou uma fotografia antiga. Nela, Helena aparecia numa pequena feira de bairro, ao lado de manequins vestidos com peças semelhantes.
— Porque cada molde contém uma solução de costura que a senhora registrou num curso comunitário há seis anos. E porque encontrei isto.
Ele colocou sobre a mesa uma carta escrita por Helena. Era uma explicação sobre como distribuir o peso do tecido sem comprimir a cintura. Ela a enviara a Marcelo junto com os primeiros desenhos.
— Ele guardou minha carta?
— Num arquivo digital que acreditava estar protegido.
Helena pensou em Lavínia usando seu vestido e em Marcelo rasgando o convite. A humilhação doméstica agora parecia parte de algo maior.
— O senhor veio me buscar para expor seu diretor durante uma festa?
— Vim convidá-la a ocupar o lugar que deveria ter sido seu desde o início.
— Diante de câmeras.
— Diante de testemunhas.
Helena fechou a pasta.
— Não quero ser usada numa disputa empresarial.
— Nem eu quero transformá-la num espetáculo.
— Então por que não me procurou amanhã?
Eduardo olhou para o vestido verde.
— Porque, dentro de quarenta minutos, Marcelo anunciará a coleção como criação dele e de Lavínia. Depois disso, contratos internacionais serão assinados. Seu silêncio se tornará consentimento aos olhos da empresa.
Helena caminhou até a janela. O carro de Marcelo já desaparecera. As luzes dos edifícios formavam um horizonte frio sobre São Paulo.
— Se eu entrar naquela festa com o senhor, todos pensarão que quero vingança.
— A senhora quer?
Ela demorou a responder.
— Neste momento, quero que ele sinta um pouco do que me fez sentir.
— Isso é humano.
— Mas não basta.
Helena abriu a pasta novamente.
— Quero meu nome nos contratos. Quero saber quanto a empresa ganhou. Quero que as costureiras que fizeram os protótipos sejam pagas. E não aceitarei que o senhor me apresente como uma mulher traída que precisou ser resgatada.
Um discreto sorriso surgiu no rosto de Eduardo.
— Finalmente estamos negociando.
Ele entregou a ela um documento preliminar. A Bellavita reconheceria a autoria sob auditoria independente e suspenderia o lançamento caso Marcelo não apresentasse provas legítimas.
Helena leu cada página. Marcelo costumava dizer que contratos eram complicados demais para ela. No entanto, quinze anos administrando uma oficina ensinaram-na a identificar condições escondidas melhor que muitos executivos.
— Esta cláusula permite que a empresa use meus desenhos durante a investigação.
— Foi redigida pelo jurídico.
— Retire.
— Podemos negociar amanhã.
— Então a festa pode começar sem mim.
Eduardo pegou uma caneta, riscou a cláusula e assinou ao lado.
— Mais alguma coisa?
— A auditoria precisa incluir as contas pessoais de Marcelo relacionadas às licenças.
— Incluiremos.
— E Lavínia não será acusada sem provas. Ela está usando meu vestido, mas ainda não sei o que Marcelo contou a ela.
Eduardo ergueu as sobrancelhas.
— Depois do que viu, ainda pretende ser justa?
— Justiça não é escolher outra mulher para carregar a culpa de um homem.
O celular de Helena tocou. Era uma mensagem de Clara: “Mãe, papai disse que você não estava bem. Precisa de mim?”
Helena digitou que estava bem, mas apagou. Em seguida escreveu: “Seu pai mentiu para nós duas. Amanhã conversamos.”
Clara visualizou e não respondeu.
Helena entrou no quarto para buscar a bolsa. Viu os pedaços do convite, juntou-os e os guardou. Não como lembrança da rejeição, mas como prova da mentira.
Antes de sair, Eduardo estendeu o braço. Ela o observou.
— A senhora não precisa entrar comigo.
— Preciso, sim. O título da festa pertence à sua família. A história desta coleção pertence a mim. Vamos obrigá-los a olhar para as duas coisas ao mesmo tempo.
No elevador, Helena sentiu as pernas tremerem. Eduardo percebeu, mas não tentou confortá-la com frases vazias.
— Ainda pode voltar.
— Passei quinze anos voltando para não incomodar Marcelo. Hoje vou continuar.
O carro atravessou a Avenida Paulista e seguiu para o hotel nos Jardins. Na entrada, fotógrafos se concentravam atrás das grades. Helena viu o próprio reflexo no vidro escuro e quase puxou a echarpe para cobrir os braços.
Então lembrou a frase de Marcelo: “todos olhando para o seu corpo”.
Helena retirou a echarpe e a deixou sobre o banco.
Eduardo saiu primeiro. Os flashes começaram imediatamente. Quando ele estendeu a mão, os fotógrafos esperaram uma celebridade, uma investidora ou uma representante estrangeira.
Helena colocou a mão na dele e desceu.
No alto da escadaria, Marcelo sorria ao lado de Lavínia. Ao reconhecer a esposa, perdeu a cor.
Helena ergueu o queixo.
Ela não fora buscar o marido.
Fora buscar o próprio nome.
Durante o trajeto, Eduardo recebera três ligações de Teresa. O conselho temia cancelar o lançamento e perder investidores. Ele não escondeu a pressão de Helena.
— Se não encontrarmos prova suficiente esta noite, alguns diretores tentarão mantê-lo no cargo.
— Então não me prometa uma vitória.
— Não prometo. Prometo acesso aos documentos e o direito de falar.
Helena apreciou a resposta. Marcelo sempre prometia resultados e escondia condições. Eduardo oferecia risco com clareza.
Ela abriu uma pasta de fotografias do ateliê. Cada desenho aparecia ao lado de tecidos, clientes e datas. Não era uma defesa organizada, mas era a memória concreta de um trabalho que Marcelo imaginara poder apagar.
— Envie uma cópia para seu advogado antes de entrarmos — aconselhou Eduardo.
Helena enviou também para Clara. A mensagem permaneceu sem resposta.
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