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"Ele Teve Vergonha da Esposa e Não a Levou à Festa… Mas Não Imaginava Com Quem Ela Chegaria" Capítulo 1 — A Verdade Diante do Espelho

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Helena Duarte girou diante do espelho e viu a saia verde-esmeralda abrir como uma flor ao redor de suas pernas. Pela primeira vez em muitos anos, não tentou esconder a cintura, os braços cheios nem as curvas que Marcelo aprendera a criticar com silêncios.

Ela mesma desenhara o vestido. Passara três meses ajustando o corpete, bordando pequenas folhas douradas e construindo uma sustentação interna que acompanhava seu corpo sem apertá-lo. Naquela noite, queria entrar na festa de mãos dadas com o homem por quem sacrificara quinze anos.

Helena soltou os cabelos castanhos, refez os cachos e aplicou um batom vermelho que permanecera fechado desde o último aniversário. Depois calçou os sapatos dourados guardados no alto do armário e caminhou até a sala, tentando não demonstrar nervosismo.

Marcelo estava diante do aparador, colocando abotoaduras. O smoking preto fora comprado com o bônus de um projeto cujos primeiros desenhos haviam nascido sobre a mesa da cozinha de Helena. Ele ergueu os olhos e ficou imóvel por um instante.

Helena interpretou o silêncio como surpresa.

— Ficou bonito?

Ela abriu os braços e girou devagar. Esperava um sorriso, talvez a lembrança do rapaz que, aos vinte e nove anos, dizia que ela parecia iluminar qualquer lugar. Marcelo apenas examinou o vestido, dos ombros à barra, com a testa franzida.

— Você não vai vestida assim.

O entusiasmo dela vacilou.

— A manga está curta? Eu ainda consigo colocar um tule. Ou posso trocar o decote. Só preciso de vinte minutos.

— Não é o vestido, Helena.

Marcelo voltou a olhar o próprio reflexo. Ajustou a gravata como se a conversa fosse um pequeno atraso em sua agenda.

— Então o que é?

— Eu não planejei levar você.

Helena demorou a compreender. Sobre a cama, a bolsa dourada combinava com os sapatos. Na cozinha, a babá já esperava Clara voltar da faculdade. Havia uma caixa com o presente que Helena comprara para o presidente da Bellavita.

— Como assim não planejou me levar? É a festa de cinquenta anos da empresa. Você falou disso durante meses.

— Falei da festa. Não disse que você iria.

Helena caminhou até o escritório e voltou com o convite que encontrara pela manhã. O papel grosso trazia letras douradas e uma frase inequívoca: Marcelo Azevedo e esposa.

— Meu nome pode não estar impresso, mas isto me inclui.

Marcelo arrancou o convite das mãos dela.

— Convites são redigidos por assistentes. Não significam nada.

— Para mim, significavam que meu marido queria a minha companhia.

Ele rasgou o papel ao meio. Depois tornou a rasgar, deixando quatro pedaços caírem sobre o tapete. Helena olhou para eles, incrédula.

— Por que fez isso?

— Porque você transforma tudo em drama.

— Eu passei a tarde me preparando. Perguntei três vezes a que horas sairíamos, e você deixou que eu acreditasse…

— Porque eu sabia que isso aconteceria se dissesse antes.

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Helena sentiu o rosto aquecer. Durante anos, aceitara jantares cancelados, viagens corporativas sem acompanhantes e fotografias nas quais Marcelo aparecia sozinho. Sempre havia uma justificativa: pouco espaço, reunião reservada, protocolo da diretoria.

Naquela noite, nenhuma desculpa restava.

— Você não se esqueceu de me convidar. Você decidiu me esconder.

Marcelo soltou o ar, impaciente.

— A Bellavita recebe investidores internacionais. Haverá jornalistas, influenciadores, gente que entende de imagem. Você não saberia conversar com aquelas pessoas.

— Eu conversava com você quando não tinha dinheiro para pegar ônibus.

— Não comece a cobrar o passado.

— Vendi a casa da minha mãe para pagar sua faculdade.

— E eu devolvi cada centavo.

— Não estou falando de centavos. Estou falando de nós.

Marcelo caminhou até a porta, mas Helena se colocou à frente. Não levantou a voz. A calma dela pareceu irritá-lo mais do que qualquer grito.

— Olhe para mim e diga a verdade. Você não quer que eu vá por causa do meu corpo?

Ele desviou os olhos.

— Não seja infantil.

— Responda.

— Você quer mesmo ouvir?

— Quero.

Marcelo apontou para o vestido.

— Passei quinze anos construindo uma imagem. Não vou entrar naquela festa com todos olhando para o seu corpo e perguntando por que um diretor da Bellavita escolheu uma mulher que nem representa a marca.

A frase não veio num acesso de raiva. Ele a pronunciou com alívio, como quem finalmente retirava um peso do peito.

Helena sentiu algo se romper por dentro.

— Você tem vergonha de mim.

— Tenho vergonha do que vão pensar quando virem você ao meu lado.

— É diferente?

Marcelo não respondeu. Pegou o celular, verificou uma mensagem e guardou-o no bolso interno do smoking.

— Amanhã conversamos. Tire esse vestido antes que Clara chegue. Não precisa envolvê-la.

— Nossa filha sabe que você se envergonha de mim?

— Clara entende o mundo em que pretende trabalhar.

Aquilo doeu mais do que o restante. Helena imaginou a filha olhando para ela com a mesma vergonha silenciosa. Lembrou-se das vezes em que Clara sugerira roupas escuras, mangas compridas ou fotografias apenas do rosto.

Marcelo abriu a porta.

— Para onde vai?

— Para a festa.

— Sozinho?

Ele hesitou apenas um segundo.

— É uma obrigação profissional.

Helena ouviu o elevador chegar. Caminhou até a janela e afastou a cortina. Marcelo saiu do prédio, atravessou a calçada e abriu a porta de seu carro para Lavínia Prado.

A diretora de relações públicas usava um vestido vermelho de seda. Helena reconheceu imediatamente o decote assimétrico, a costura oculta na lateral e as pequenas pedras bordadas à mão.

Era o vestido que criara para usar em seu aniversário de casamento.

Marcelo dissera que a cor não combinava com ela. Duas semanas depois, a peça desaparecera da oficina.

Lavínia beijou o rosto dele antes de entrar no carro. Marcelo olhou para os lados, mas não para a janela onde a esposa permanecia.

Helena não chorou. Voltou ao quarto, sentou-se diante do espelho e tocou o próprio rosto maquiado. Durante anos, acreditara que o problema era não se esforçar o bastante para caber no mundo do marido.

Agora sabia que Marcelo jamais permitiria que ela coubesse.

Levantou-se para tirar os sapatos. A campainha tocou.

Helena ignorou. Tocou novamente, seguida de três batidas discretas. Ela atravessou a sala e abriu a porta.

Um motorista de terno cinza aguardava no corredor. Atrás dele, o elevador permanecia aberto.

— Senhora Helena Duarte?

— Sim.

— O senhor Eduardo Bellini veio pessoalmente buscá-la.

Helena reconheceu o sobrenome. Bellini estava impresso no convite rasgado, nos relatórios que Marcelo levava para casa e nas etiquetas de quase todas as peças que ela ajudara a criar.

— Deve haver algum engano.

— Não há. Ele pediu que eu dissesse exatamente estas palavras: a festa não pode começar sem a verdadeira criadora da coleção.

Helena apoiou a mão no batente. Um desconhecido acabara de chamá-la de criadora, palavra que Marcelo evitara durante anos. Para o marido, ela fazia favores, rabiscava ideias e ajudava com detalhes. Nunca criava.

— Diga ao senhor Bellini que descerei em cinco minutos.

O motorista assentiu. Helena fechou a porta, recolheu os quatro pedaços do convite e os colocou na bolsa. Depois encarou o espelho uma última vez.

— Você está bonita — disse para a própria imagem.

As palavras saíram trêmulas, mas não dependiam mais da resposta de Marcelo.

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