"O Chefe da Máfia Ia Demitir a Babá às 2 da Manhã… Até Ouvir Suas Gêmeas Rindo!" Capítulo 3 — A Mulher Que Queria Ser a Nova Senhora Montenegro
Verônica escolheu o dia do almoço beneficente para atacar. A mesa de jantar da mansão estava preparada para oito convidados ligados às empresas Montenegro. Havia flores brancas, porcelana antiga e um silêncio respeitoso sempre que Dante entrava no ambiente.
Marina não participaria da refeição. Tinha descido apenas para buscar uma manta que Célia deixara na sala. Encontrou Verônica perto do aparador, conversando com duas senhoras da alta sociedade paulistana.
— Essa é a babá de quem falei — anunciou Verônica, sorrindo. — Uma moça simples, sem nenhuma noção de etiqueta.
Marina parou.
— Boa tarde. Com licença, preciso voltar para as meninas.
— Espere. Quero apresentar você às minhas amigas. Dante anda permitindo que funcionários circulem pelos ambientes sociais. É uma fase estranha do luto.
Uma das convidadas desviou o olhar, constrangida. Marina apertou a manta contra o peito.
— Estou aqui a trabalho, dona Verônica.
— Exatamente. Uma empregada deve conhecer o seu lugar.
Marina respirou fundo. Sabia que qualquer resposta poderia custar seu emprego. Mas também sabia que aceitar humilhações diante de todos abriria espaço para outras piores.
— Meu lugar, neste momento, é perto das crianças. Se me der licença...
Verônica pegou uma taça de vinho tinto do aparador e se aproximou. Num movimento calculado, inclinou o pulso. O vinho caiu sobre a frente do uniforme de Marina.
— Olhe o que você fez! — exclamou Verônica. — Não consegue nem passar por uma sala sem causar um desastre?
Marina olhou para a mancha escura. O cheiro do vinho subiu rapidamente. Ela não tinha tocado na taça. Antes que respondesse, uma voz grave cortou o salão.
— Quem derramou o vinho foi você, Verônica.
Dante estava junto à porta, acompanhado de Rafael. Os convidados ficaram em silêncio. Verônica abriu um sorriso nervoso.
— Foi um acidente. Ela se aproximou depressa demais.
— Eu vi o movimento da sua mão.
Dante caminhou até Marina. Não tocou nela, mas ficou ao seu lado.
— Célia, por favor, providencie um uniforme limpo. E mande lavar este imediatamente.
— Sim, senhor — respondeu a governanta.
Verônica soltou uma risada forçada.
— Não precisa transformar uma bobagem num escândalo, Dante.
— Então não transforme uma funcionária em espetáculo diante dos meus convidados.
A repreensão foi tão direta que uma das senhoras baixou a cabeça para esconder a surpresa. Marina agradeceu e saiu. Só quando chegou ao corredor permitiu que as lágrimas lhe enchessem os olhos.
Célia a encontrou perto da lavanderia.
— Minha filha, aquela mulher sempre soube ferir sem levantar a voz. Não deixe que ela roube sua paz.
— Eu não entendo por que me odeia. Não fiz nada contra ela.
Célia demorou a responder.
— Às vezes, basta estar perto de algo que outra pessoa deseja possuir.
No salão, Verônica continuou fingindo naturalidade. Comentou sobre doações, viagens e projetos sociais. Mas, por dentro, revivia o momento em que Dante escolhera defender uma empregada diante da elite de São Paulo.
Helena nunca permitira que ela se aproximasse tanto da família quanto desejava. Agora, uma desconhecida de Vila Mariana parecia conseguir em duas semanas o que Verônica não conseguira em anos.
Depois do almoço, Verônica pediu para usar o escritório menor, alegando que precisava fazer uma ligação. Fechou a porta e discou para Henrique Azevedo, médico que acompanhara Helena durante a recuperação do parto.
— Você me garantiu que os documentos estavam seguros — disse ela, sem cumprimentá-lo.
— Estão. Por que está ligando para este número?
— Porque Dante está mudando. A babá está colocando ideias na cabeça dele.
— Uma babá não tem acesso aos prontuários.
— Helena guardava papéis em casa. Você sabe disso.
Do outro lado, Henrique ficou em silêncio.
— Verônica, já faz quatro meses. Não mexa no passado.
— Se Dante descobrir o que aconteceu naquela noite, estaremos acabados.
No corredor, Célia vinha levando uma bandeja de café. Parou ao ouvir a frase. Reconheceu a voz de Verônica através da porta mal fechada e sentiu um frio percorrer os braços.
Não era a primeira vez que ouvia uma conversa estranha sobre a morte de Helena. Na semana do enterro, Henrique aparecera na mansão fora do horário e pedira acesso ao quarto da falecida. Célia acreditara que estivesse recolhendo documentos médicos.
Agora, a lembrança parecia diferente.
Célia recuou antes que Verônica abrisse a porta. Levou a bandeja para a cozinha com as mãos trêmulas. Não sabia o que ouvira exatamente, mas sabia que precisava proteger as meninas.
No fim da tarde, Dante foi ao quarto das filhas para cumprir sua meia hora. Encontrou Marina sentada na poltrona, com Lívia no colo e Sofia dormindo no berço. Ela vestia um uniforme limpo, mas tinha os olhos avermelhados.
— Sinto muito pelo almoço — disse ele.
Marina olhou para cima, surpresa.
— O senhor não derramou o vinho.
— Eu permiti que Verônica acreditasse que podia tratar você daquela maneira.
— O senhor a conhece há muito tempo.
— Conheço. Isso não significa que ela esteja certa.
Ele se sentou na cadeira ao lado. Durante alguns minutos, observaram Lívia dormir. Dante percebeu que a menina mantinha a mão fechada sobre um pedacinho da manga de Marina.
— Helena confiava em Verônica — comentou ele. — Eram amigas desde a juventude.
— Talvez por isso ela ache que pode mandar aqui.
Dante olhou para a fotografia sobre a cômoda.
— Depois que Helena morreu, Verônica ajudou a organizar o funeral. Eu mal conseguia pensar. Deixei muitas decisões nas mãos dela.
Marina não quis transformar aquele momento numa acusação. Limitou-se a dizer:
— Ajudar alguém não dá o direito de humilhar quem veio depois.
Dante assentiu lentamente. Era uma resposta simples, mas ninguém em sua casa ousara formulá-la.
No começo da noite, Célia procurou Rafael na área de serviço. Queria saber se ainda existiam cópias das imagens da semana em que Helena morrera. O segurança explicou que o sistema armazenava gravações por um período limitado, mas alguns arquivos haviam sido preservados por causa de uma ocorrência no portão.
— Por que está perguntando isso agora, dona Célia?
Ela hesitou. Não queria fazer acusações precipitadas nem colocar Marina no meio de uma disputa perigosa.
— Porque há coisas daquela semana que nunca me pareceram certas. Dona Helena estava preocupada com alguém. E eu fui covarde demais para perguntar.
Rafael prometeu verificar o arquivo antigo, mas pediu discrição. Célia voltou para a cozinha com a sensação de que um segredo enterrado começava a respirar novamente.
Mais tarde, Verônica tentou entrar no quarto das gêmeas. Rafael, obedecendo a uma ordem recente, informou que as visitas precisavam ser combinadas com Dante. Ela ficou furiosa.
— Desde quando preciso de autorização para ver minhas afilhadas?
— Desde hoje, senhora.
Verônica voltou para o carro e ligou novamente para Henrique. Dessa vez, ele não atendeu. Enviou uma mensagem curta: “Precisamos verificar o que Helena deixou naquela casa”.
Célia observava da janela do térreo. Esperou o carro desaparecer e foi até a antiga suíte de Helena. No fundo de um armário, havia uma caixa que Dante nunca tivera coragem de abrir.
A governanta tocou a tampa, hesitante. Helena pedira que certos objetos fossem guardados para as filhas. Talvez estivesse na hora de cumprir aquela promessa.
Quando abriu a caixa, encontrou vestidos, cartas, fotografias e um caderno de capa azul. Célia folheou as primeiras páginas e reconheceu a letra de Helena. Fechou-o rapidamente ao ouvir passos.
Marina surgiu à porta, procurando uma manta antiga.
— Dona Célia, está tudo bem?
A governanta segurou o caderno contra o peito.
— Não sei, minha filha. Mas acho que a senhora Helena tentou nos avisar de alguma coisa antes de morrer.
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