"O Chefe da Máfia Ia Demitir a Babá às 2 da Manhã… Até Ouvir Suas Gêmeas Rindo!" Capítulo 2 — A Babá Que Desafiou o Mafioso
Às sete da manhã, Dante encontrou a cozinha em estado de agitação. Dona Célia conferia o relógio, a cozinheira cochichava com uma ajudante e Rafael Costa parecia desconfiar de alguma ameaça invisível.
— O que aconteceu? — perguntou Dante.
Célia se virou com um sorriso que ele não via havia meses.
— Nada, senhor. Esse é justamente o acontecimento. As meninas dormiram até agora.
Dante olhou para o relógio. Normalmente, àquela hora, a casa inteira já estava exausta. Subiu ao quarto das filhas e encontrou Marina preparando duas mamadeiras. Ela tinha olheiras profundas, mas cantarolava baixinho.
— Dormiu alguma coisa? — ele perguntou.
— Um pouco, depois das quatro. Dona Célia ficou comigo durante a troca das fraldas.
— Vou aumentar seu salário.
Marina ergueu os olhos.
— Obrigada. Mas queria pedir outra coisa.
Dante cruzou os braços, preparado para ouvir uma solicitação de folga, motorista ou quarto maior.
— O senhor poderia passar meia hora por dia com elas? Sem celular, sem reuniões. Só o senhor e as meninas.
O rosto dele se fechou.
— Eu pago você para cuidar delas.
Marina tampou uma mamadeira e respirou fundo.
— E elas precisam de um pai, não de um cheque.
O silêncio foi tão brusco que até Rafael, parado no corredor, virou a cabeça. Dante deu um passo à frente.
— Cuidado com o modo como fala comigo.
— Desculpe o tom. Não retiro o pedido.
Ele poderia tê-la dispensado ali mesmo. Estava acostumado a homens que baixavam os olhos quando ele erguia a voz. Marina, porém, mantinha a postura apesar do evidente medo.
— Você não sabe o que eu faço para mantê-las seguras — respondeu.
— Sei que trabalha muito. Mas elas não sabem. Para elas, o senhor é o homem que aparece na porta e vai embora antes que possam conhecê-lo.
Sofia começou a se mexer no berço. Marina se aproximou, pegou a menina no colo e ajeitou a cabeça dela com cuidado. Dante observou os movimentos, sentindo-se um estranho dentro do próprio quarto.
— Não é tão simples — murmurou.
— Eu não disse que era. Só disse que vale a pena tentar.
Dante estendeu a mão para tocar a bochecha da filha. Sofia agarrou a ponta de sua gravata com os dedinhos. Ele ficou paralisado, receoso de puxar o tecido e assustá-la.
Marina sorriu.
— Acho que ela já decidiu por nós.
— Por nós?
— Pela meia hora. O senhor vai precisar de ajuda no começo.
Ela colocou Sofia cuidadosamente nos braços dele, orientando onde apoiar a cabeça e como manter o corpo da menina. Dante segurou a filha com uma concentração maior do que demonstrava diante de contratos milionários.
Sofia o encarou. Depois soltou um som curto, quase uma conversa. Dante respondeu sem pensar:
— Bom dia, princesa.
Marina disfarçou um sorriso. O homem que fazia seguranças armados tremerem estava com medo de mexer o cotovelo.
— Pode respirar, senhor Montenegro. Ela não é feita de vidro.
— Parece menor do que ontem.
— É porque hoje o senhor está olhando de perto.
A frase permaneceu com ele durante o café. Dante cancelou uma ligação e pediu que a equipe reagendasse a reunião da manhã. Rafael ergueu as sobrancelhas, mas não comentou.
Mais tarde, Marina levou as meninas ao jardim interno. Dante apareceu depois de vinte minutos, ainda vestindo o paletó. Sentou-se numa cadeira, sem saber o que fazer com as mãos.
— Conte alguma coisa para elas — sugeriu Marina.
— Sobre o quê?
— Sobre sua infância. Sobre um cachorro. Sobre qualquer coisa que não envolva negócios.
Ele pensou por alguns segundos.
— Quando eu era pequeno, meu pai tinha um vira-lata chamado Trovão. O nome era maior do que o cachorro.
Marina riu. Dante continuou, descrevendo o animal que roubava chinelos e dormia sobre as botas dos funcionários. Lívia acompanhava a voz grave dele com atenção. Sofia bocejou, tranquila no colo de Marina.
— Está vendo? — disse ela. — Não precisa fazer discursos. Elas gostam da sua voz.
Dante sentiu um orgulho inesperado. Quando o telefone vibrou, virou a tela para baixo.
À hora do almoço, um carro importado entrou pelo portão. Verônica Albuquerque saiu usando um vestido claro e óculos escuros enormes. Carregava uma caixa de presentes e caminhava como se ainda fosse dona de cada corredor.
— Dante, querido! — anunciou, aproximando-se para beijá-lo no rosto. — Vim ver minhas afilhadas.
Ele recuou discretamente.
— As meninas estão descansando.
Verônica percebeu Marina perto da escada, com uma mantinha dobrada nos braços.
— Ah, a nova babá. Ainda está aqui? Isso já é um recorde.
— Bom dia, dona Verônica — respondeu Marina.
— Helena teria exigido alguém com experiência internacional. Mas imagino que a agência esteja desesperada.
Dante não respondeu. Verônica interpretou o silêncio como permissão e avançou.
— E por que está tão à vontade na sala da família? Não deveria estar lavando mamadeiras?
Marina manteve a voz educada.
— As mamadeiras estão esterilizadas. Vim buscar uma manta para Lívia.
Verônica tocou no braço de Dante.
— Você precisa de uma mulher que organize esta casa. As crianças merecem estabilidade.
— Elas estão recebendo cuidados — disse ele.
— Cuidados de uma funcionária. Não é a mesma coisa que ter uma mãe.
Dante ficou imóvel. Marina viu o efeito da frase e sentiu vontade de intervir, mas Célia apareceu na porta antes que pudesse falar.
— Senhor, Sofia acordou. Está procurando colo.
Dante surpreendeu todos ao responder:
— Eu vou.
Verônica o acompanhou com os olhos enquanto ele subia. O sorriso dela desapareceu. Voltou-se para Marina, examinando o uniforme simples e os cabelos presos.
— Não confunda a gentileza dele com intimidade. Dante está de luto. Homens assim ficam vulneráveis.
— Não estou confundindo nada. Meu trabalho é cuidar das meninas.
— Faça isso. E não tente ocupar o lugar de Helena.
Marina sentiu a ofensa, mas respondeu com firmeza:
— Ninguém ocupa o lugar de uma mãe que morreu. As meninas têm direito de lembrar dela e de ser amadas agora.
Verônica se aproximou até quase encostar no rosto da jovem.
— Você não sabe com quem está falando.
— Sei. Com uma visita da família. E as meninas estão dormindo, então peço que fale mais baixo.
No alto da escada, Dante ouvira as últimas palavras. Não interveio. Ficou olhando para Marina com uma curiosidade nova. Ela defendia as filhas dele sem pedir licença, mesmo diante de uma mulher rica e influente.
Naquela mesma tarde, Marina encontrou um álbum infantil sobre a mesa do quarto. Havia apenas três fotografias: Helena grávida, Helena com as recém-nascidas no hospital e Dante segurando as duas com uma expressão assustada.
Marina mostrou a última imagem a Sofia. A menina agitou as mãos ao ouvir a voz dela.
— Este aqui é seu papai. Ele está aprendendo, mas promete melhorar — disse baixinho.
Dante ouviu a frase da porta. Não entrou. Ficou alguns instantes observando a fotografia e pensando no dia em que o médico lhe entregara as meninas pela primeira vez. Helena estava cansada, porém sorridente. Ele prometera cuidar das três. Depois da morte da esposa, passara a confundir proteção com distância.
Naquele momento, decidiu que não permitiria que as filhas conhecessem apenas a versão mais dura de si mesmo.
À tarde, ele encontrou uma folha presa à porta da geladeira. Marina havia escrito uma rotina com horários de mamadeiras, sonecas e uma linha destacada: “Meia hora com o papai”.
Dante pegou uma caneta e escreveu ao lado: “Às 18h. Todos os dias”.
Quando Marina viu a resposta, sorriu sozinha. Não percebeu Verônica observando-a do corredor, com o celular na mão.
— Henrique? — sussurrou Verônica assim que se afastou. — Precisamos conversar. Aquela babá está ficando importante demais nesta casa.
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