"O Chefe da Máfia Ia Demitir a Babá às 2 da Manhã… Até Ouvir Suas Gêmeas Rindo!" Capítulo 1 — As Risadas das Duas da Manhã
Às duas e três da madrugada, Dante Montenegro acordou com um grito que atravessou o corredor da mansão. Não era o alarme de segurança. Não era um inimigo tentando entrar. Era uma de suas filhas.
Logo veio o segundo choro, tão desesperado quanto o primeiro. Dante afastou o lençol, sentindo a velha impotência apertar seu peito. Sobre o criado-mudo, uma pistola permanecia ao lado de um copo de uísque intocado.
Havia quatro meses que Helena morrera. Quatro meses desde que a casa de Jardim Europa deixara de parecer uma casa. Os quadros caros continuavam nas paredes; os funcionários andavam em silêncio; ninguém se atrevia a pronunciar o nome dela diante dele.
Sofia e Lívia, suas gêmeas, tinham apenas quatro meses. Choravam durante a noite e estranhavam quase todos os rostos. Seis babás haviam passado pelo quarto das meninas. Algumas pediram demissão. Outras saíram depois de ouvir as ordens frias do patrão.
A sétima, Marina Oliveira, permanecia havia doze dias. Dante admitia que ela era paciente. Mas paciência não parecia suficiente para duas crianças que haviam perdido a mãe antes de conhecê-la de verdade.
Ele atravessou o corredor descalço. A cada passo, ensaiava a sentença que diria à funcionária. Pagaria o mês inteiro, mesmo sem ela completar duas semanas. Mandaria Rafael levá-la para casa. Procuraria outra pessoa pela manhã.
Um terceiro grito veio do quarto. Dante apertou o passo e segurou a maçaneta. Estava preparado para encontrar Marina dormindo, distraída ou desesperada. Qualquer uma das possibilidades confirmaria sua decisão.
Abriu a porta.
E parou.
Marina estava no meio do tapete, usando um pijama azul simples, fones de ouvido grandes e duas luvas amarelas de lavar louça. Com uma mão, imitava uma pata arrogante; com a outra, uma pata ofendida.
— Eu não vou dividir minha lagoa com você! — anunciou, fazendo a luva direita sacudir os dedos.
Mudou a voz, afinando-a de maneira ridícula.
— Pois eu comprei a lagoa inteira, sua metida!
Marina girou, tropeçou de propósito no próprio chinelo e caiu sentada no tapete. Sofia soltou uma gargalhada aberta, agitando os bracinhos. Lívia respondeu com gritinhos alegres e chutou o ar com as perninhas.
Dante ficou imóvel. As meninas ainda tinham lágrimas nas bochechas, mas não choravam. Riam. Riam de verdade, com aquela alegria sem defesa que ele julgara desaparecida para sempre.
Marina levantou uma das luvas como se estivesse dando uma bronca na outra. As gêmeas riram mais alto. Dante sentiu a garganta fechar. Aquele som o levou de volta a uma manhã que parecia pertencer a outra vida.
Helena estava na cozinha, vestindo uma camisa dele. Cantava desafinada para as meninas, que ainda eram recém-nascidas. Uma colher de pau servia de microfone. Ela havia derramado massa de panqueca no chão e ria da própria bagunça.
— Um dia você ainda vai dançar comigo, Dante — dissera ela.
— Eu não danço.
— Então vou ensinar nossas filhas a rir de você.
Ele se lembrava de ter sorrido. Naquela época, não imaginava que uma lembrança tão pequena pudesse doer tanto.
Marina fez uma reverência exagerada e finalmente percebeu o homem na porta. Arrancou os fones, deixou as mãos caírem e empalideceu.
— Senhor Montenegro! Eu... posso explicar.
As meninas notaram a mudança. Sofia parou de rir. Lívia franziu o rostinho, pronta para recomeçar o choro. Marina olhou para elas, aflita, e depois para o patrão.
— Elas acordaram assustadas. Tentei o colo, a mamadeira, a música baixinha. Nada funcionou. Então me lembrei de uma brincadeira que fazia com meus sobrinhos. Eu sei que pareço uma maluca.
Dante avançou dois passos. Marina recuou instintivamente. Naquela casa, todos conheciam a reputação do homem que controlava negócios e homens perigosos na capital paulista.
— A senhora pode tirar as luvas — disse ele.
Marina obedeceu. Uma delas escorregou e caiu perto do sapato dele. Ela se abaixou depressa para recolhê-la, mas Dante se antecipou. Pegou a luva amarela e ficou olhando para o objeto absurdo em sua mão.
— Há quanto tempo elas estavam rindo?
— Uns cinco minutos, senhor. Antes disso, choraram bastante. Eu ia chamar o senhor, mas achei que podia tentar mais um pouco.
Dante olhou para os berços. Sofia acompanhava a luva com os olhos. Lívia soltou um pequeno som impaciente. Era como se as duas estivessem esperando a continuação do espetáculo.
— Faça de novo — pediu ele.
Marina piscou.
— O quê?
— A dança. As vozes. O que estava fazendo.
— Na sua frente?
— Por favor.
A palavra pareceu surpreender os dois. Dante não costumava pedir nada. Marina voltou a calçar as luvas, sem saber onde colocar o olhar. Começou com um movimento tímido. As meninas ficaram atentas, mas ainda silenciosas.
Então ela encheu as bochechas, abriu os cotovelos e caminhou como uma pata muito importante. Sofia soltou um gritinho. Marina fingiu escorregar e Lívia respondeu com uma risada tão gostosa que Dante precisou apoiar a mão no berço.
Ele baixou a cabeça. Marina viu seus ombros se moverem e, por um instante, pensou que ele estivesse irritado. Mas quando Dante ergueu o rosto, havia lágrimas nos olhos dele.
— Helena fazia isso — murmurou. — Não com luvas. Com qualquer coisa que encontrasse pela cozinha.
Marina tirou os fones e os colocou sobre a cômoda.
— Ela devia ser muito engraçada.
— Era. E eu não percebi quantas vezes deveria ter rido com ela.
Nenhuma resposta parecia adequada. Marina apenas se aproximou de Lívia, ajeitou a mantinha e deixou que a menina segurasse seu dedo. Dante ficou observando aquele gesto simples como quem assiste a um milagre.
— Eu ia demitir você hoje — confessou.
Marina ficou rígida.
— Eu sei que as noites têm sido difíceis. Mas não deixei as meninas sozinhas nem por um minuto.
— Não estou mais pensando nisso.
— Então... posso continuar trabalhando?
Dante olhou novamente para as filhas. Sofia bocejou depois de rir tanto. Lívia começou a fechar os olhos, ainda segurando o dedo de Marina.
— Quero que continue — respondeu. — E quero entender como conseguiu o que ninguém conseguiu nesta casa.
Marina deu um sorriso cansado.
— Não consegui sozinha. Elas só precisavam que alguém não desistisse na primeira noite ruim.
A frase atingiu Dante com uma precisão cruel. Ele tinha contratado profissionais, comprado aparelhos e exigido resultados. Mas, diante do sofrimento das filhas, havia se escondido no trabalho e na própria dor.
Quando as duas finalmente adormeceram, Marina apagou a luz principal. Dante permaneceu perto da porta. Antes de sair, percebeu uma pequena fotografia de Helena sobre a cômoda. Não se lembrava de tê-la visto ali.
— Quem colocou essa foto? — perguntou.
— Eu. Dona Célia me mostrou. Achei que as meninas deveriam crescer vendo o rosto da mãe. Se o senhor não gostar, eu tiro.
Dante segurou a moldura. Na imagem, Helena sorria, grávida, sob o sol de São Paulo. Ele passou o polegar pela borda de madeira.
— Não tire.
Marina assentiu. Dante caminhou até o corredor, mas parou ao ouvir a voz dela.
— Senhor Montenegro? Amanhã, quando elas acordarem, talvez queiram ver o senhor também.
Ele não respondeu imediatamente. Olhou para a porta entreaberta e para as duas pequenas sombras nos berços.
— Então me avise quando acordarem.
Naquela madrugada, Dante voltou ao quarto sem tocar no uísque. Pela primeira vez em quatro meses, não desejou que a noite terminasse depressa. Queria que a manhã chegasse para descobrir se suas filhas também poderiam sorrir para ele.
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