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"A BABÁ IMBATÍVEL DO CHEFE DA MÁFIA" Capítulo 2 — A Voz Que Ninguém Ouvia

正文开头

Elisa acordou em um quarto de hóspedes com a cabeça enfaixada e a sensação de que havia sonhado com tudo.

Então ouviu o choro de Catarina atravessando o corredor.

“Arde. Nariz. Não quero cheiro.”

Ela se sentou de repente.

O médico da família, doutor Henrique Salles, pediu que permanecesse deitada. A tomografia não mostrara lesão grave, mas Elisa sofrera uma concussão leve e precisava de observação.

— Preciso ver a bebê.

— Você precisa descansar.

— Ela está com dificuldade para respirar.

Henrique franziu a testa.

— Como sabe?

Elisa saiu antes de responder.

No quarto infantil, Verônica balançava Catarina junto à janela. Duas babás tentavam oferecer água e um brinquedo musical. Dante permanecia perto do berço, ainda usando as roupas da noite anterior.

O rosto da menina estava coberto por pequenas manchas vermelhas.

— Afastem-se dela — disse Elisa.

Verônica virou-se, ofendida.

— Você não tem autoridade para dar ordens.

Dante olhou para Elisa.

— Explique.

— O que mudou no quarto desde ontem?

— Nada — respondeu Verônica.

“Cheiro. Flor. Queima.”

Elisa percorreu o ambiente. Lençóis limpos, brinquedos esterilizados, cortinas abertas. Sobre uma cômoda havia um frasco de perfume francês ao lado de um buquê de lírios brancos.

Ela pegou o frasco.

— Quem usou isso?

Verônica tocou o próprio pescoço.

— É meu perfume. Uso há anos.

— Não perto da criança.

— Catarina nunca teve alergia.

Elisa retirou o buquê e abriu as outras janelas.

— Uma sensibilização pode aparecer depois de várias exposições. O perfume contém almíscar sintético e essência de lírio. As manchas, a irritação nasal e o choro começaram quando a senhora entrou?

Uma babá assentiu discretamente.

Verônica percebeu e a fulminou com os olhos.

Dante tomou o frasco da mão de Elisa e o atirou na lareira apagada. O vidro se partiu.

— A partir de hoje, ninguém usa perfume nesta ala.

— Senhor, isso é um exagero — disse Verônica.

— O exagero é minha filha não conseguir respirar dentro do próprio quarto.

Henrique examinou Catarina e confirmou a reação alérgica. Administrou a medicação apropriada, enquanto Elisa mantinha a menina sentada para facilitar a respiração.

Pouco depois, as manchas começaram a desaparecer.

Dante observou Elisa em silêncio.

— Você reconheceu os sintomas rápido demais.

— Estudo psicologia infantil na USP. Também trabalhei em uma creche universitária.

— Estuda ou estudava?

— Estudo. Se conseguir pagar o próximo semestre.

Ele percebeu a amargura.

— Quanto deve?

— Isso não é da sua conta.

— Tudo nesta casa é da minha conta.

— Minha vida não faz parte desta casa.

Catarina estendeu a mão e segurou um dos dedos de Elisa.

“Fica.”

Elisa conteve a reação.

Dante aproximou-se.

— Trabalhe para mim durante trinta dias. O suficiente para eu descobrir quem tentou ferir Catarina.

— Como babá?

— Como responsável exclusiva por ela.

Verônica soltou uma risada curta.

— Uma desconhecida, sem referências, substituindo profissionais selecionadas pela família?

正文1

— As profissionais selecionadas pela família não encontraram um fio dentro de uma meia.

Elisa devolveu Catarina ao berço.

— Não trabalho sob ameaça.

Dante inclinou a cabeça.

— Você recusaria quanto?

— Não se trata de dinheiro.

— Tudo se trata de dinheiro quando a dívida é grande o bastante.

Ela sentiu o rosto esquentar.

— Mandou investigar minha vida enquanto eu estava desacordada?

— Investiguei antes de permitir que respirasse sob meu teto.

Elisa avançou um passo.

— Minha mãe morreu esperando uma cirurgia. A dívida é do tratamento dela. Se pretende usar isso para me humilhar, encontre outra babá.

Dante sustentou o olhar.

— Não estou humilhando você. Estou oferecendo uma saída.

— Saídas oferecidas por homens armados costumam ter grades.

Rafael disfarçou um sorriso.

Dante não sorriu.

— Cem mil reais pelo mês. A dívida quitada hoje. Você pode ir embora ao final do contrato.

— E durante esses trinta dias?

— Ninguém dá ordens sobre Catarina além de você e de mim.

Elisa apontou para a pistola sob o sobretudo.

— Primeira condição: nenhuma arma dentro do quarto dela.

Verônica arregalou os olhos.

— Você enlouqueceu.

Elisa manteve a atenção em Dante.

— Segunda condição: ninguém se ajoelha diante da criança. Ela não precisa crescer acreditando que medo é respeito.

— Mais alguma?

— O senhor não ameaça funcionários na frente dela.

O silêncio voltou ao quarto.

Dante retirou a pistola, entregou-a a Rafael e tirou também uma faca presa ao tornozelo. Depositou ambas fora da porta.

Elisa pediu ainda que as empregadas deixassem de usar luvas perfumadas e que cada pessoa lavasse as mãos antes de tocar nos brinquedos. Dante chamou aquilo de burocracia. Ela mostrou as marcas vermelhas nos dedos de Catarina e perguntou se ele preferia regras ou outra emergência.

Ele autorizou a compra de materiais hipoalergênicos naquela mesma hora. Verônica tentou escolher os fornecedores, mas Elisa exigiu três orçamentos e certificados sanitários. Pela primeira vez, a governanta percebeu que não controlaria o novo setor apenas com anos de autoridade.

— Trinta dias — disse ele. — Depois veremos quem ensinou quem.

Elisa aceitou.

Naquela tarde, ela examinou roupas, brinquedos e alimentos de Catarina. Criou uma tabela de horários, reações físicas e padrões de choro. Substituiu o excesso de estímulos por objetos simples e estabeleceu uma rotina previsível.

Catarina resistiu a tudo.

Jogou purê no chão. Mordeu uma colher. Arrancou três folhas do caderno de Elisa e tentou puxar o cabelo de uma babá.

Quando Elisa impediu que batesse a cabeça no berço, a menina a encarou com fúria.

“Você manda demais.”

— E você ainda nem sabe falar — murmurou Elisa.

Catarina piscou.

“Sabe ouvir.”

Elisa perdeu a cor.

Durante a noite, testou a própria condição. Ficou ao lado de Catarina sem olhar diretamente para ela. Pensou em uma bola vermelha. A voz infantil não respondeu.

Depois colocou uma fita apertada no próprio pulso.

正文2

Catarina reclamou dentro da mente:

“Tira. Dói você.”

Elisa retirou a fita.

Não lia pensamentos comuns. Ouvia necessidades intensas, desconfortos, desejos e medos do bebê. A habilidade surgira depois da colisão, mas parecia ligada também à formação acadêmica que lhe permitia interpretar o que recebia.

Na manhã seguinte, Dante encontrou Elisa dormindo em uma poltrona ao lado do berço. Catarina dormia com a mão agarrada ao dedo dela.

Ele cobriu Elisa com uma manta.

Verônica observava da porta.

— Está confiando rápido demais nessa mulher.

— Confio no resultado.

— Ela pode estar criando os problemas para depois resolvê-los.

Dante voltou-se para a governanta.

— Foi isso que você fez durante anos?

Verônica ficou rígida.

— Eu criei esta casa.

— Então deveria saber que perguntas não são acusações. Ainda.

Quando ele saiu, Verônica entrou no quarto. Aproximou-se de Elisa e observou o curativo na testa.

Elisa abriu os olhos.

— Precisa de alguma coisa?

— Preciso que entenda seu lugar.

— Meu lugar foi definido pelo contrato.

— Contratos acabam.

Verônica colocou um envelope sobre a mesa. Dentro havia vinte mil reais.

— Vá embora hoje. Diga que sentiu medo.

Elisa fechou o envelope e o devolveu.

— Eu senti medo.

— Então seja inteligente.

— Inteligência não é fugir de todo perigo. É descobrir de onde ele vem.

Verônica inclinou-se.

— Você não sabe o que acontece com mulheres que despertam a curiosidade de Dante Montenegro.

— E a senhora sabe?

A governanta saiu sem responder.

Naquela noite, Elisa encontrou a porta do quarto entreaberta. Catarina estava acordada, olhando para o corredor escuro.

“Homem. Leite. Ruim.”

Elisa correu até a copa infantil.

Uma figura de luvas pretas segurava a mamadeira sobre a pia. Ao vê-la, apagou a luz e escapou pela passagem de serviço.

Elisa acendeu a luminária.

No fundo da mamadeira havia um pó branco que não fazia parte de nenhuma fórmula infantil.

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