"A BABÁ IMBATÍVEL DO CHEFE DA MÁFIA" Capítulo 1 — Dez Segundos
— Dez segundos.
A voz de Dante Montenegro atravessou o salão principal como uma lâmina.
Vestido com um sobretudo preto que chegava aos joelhos, ele segurava Catarina com o braço esquerdo. A menina de um ano chorava tão alto que as taças de cristal pareciam vibrar dentro do armário.
Na mão direita, Dante mantinha uma pistola apontada para Verônica Albuquerque.
A governanta estava encostada na parede, pálida, com as duas mãos erguidas. Diante dela, seis empregadas permaneciam ajoelhadas sobre o mármore, os rostos baixos e os ombros tremendo.
— Faça minha filha parar de chorar — ordenou Dante. — Se não conseguir em dez segundos, você morre.
Verônica abriu a boca, mas nenhum som saiu.
Catarina se debateu no colo do pai. O pequeno rosto estava vermelho, os cachos escuros colados à testa. Quanto mais Dante tentava firmá-la contra o peito, mais desesperado se tornava o choro.
— Nove.
Uma das empregadas começou a rezar em silêncio.
— Oito.
Verônica deu um passo inseguro.
— Senhor Montenegro, talvez a bebê esteja com sono.
— Ela não dorme há seis horas.
— Posso preparar o chá que a enfermeira recomendou.
Os olhos de Dante ficaram ainda mais frios.
— O último chá a fez vomitar.
Catarina puxou a corrente de ouro no pescoço dele e gritou com tanta força que perdeu o ar por um instante. Dante guardou a arma apenas o tempo necessário para afrouxar a corrente, mas a menina continuou chorando.
O homem mais temido de São Paulo parecia capaz de derrubar um exército. Diante da própria filha, porém, estava completamente perdido.
Ele tornou a apontar a pistola.
— Seis.
Verônica olhou para as mulheres ajoelhadas.
— Alguma de vocês sabe o que fazer?
Ninguém levantou a cabeça.
— Cinco — disse Dante.
Uma empregada mais velha soluçou.
— Eu tenho netos, senhor. Por favor.
Dante a encarou sem piedade.
— Então reze para que alguém nesta casa descubra o que está acontecendo com Catarina.
Ele percorreu a fileira com os olhos.
— Se minha filha morrer, todas vocês vão acompanhá-la.
O bebê chorou ainda mais alto.
Por trás da frieza, uma veia pulsava na têmpora de Dante. Catarina era a única pessoa diante de quem ele não conseguia fingir controle. A mãe da criança morrera no parto, e desde então a menina era sua herdeira, sua fraqueza e seu medo.
— Quatro.
As portas duplas se abriram com violência.
Dois seguranças entraram arrastando uma jovem entre eles. O sangue escorria de um ferimento perto da testa dela. A blusa branca estava rasgada no ombro, e uma das pernas mal parecia sustentar o peso do corpo.
— Encontramos esta mulher perto do portão norte — informou Rafael Moura, chefe da segurança. — O carro dela bateu no muro. Estava tentando entrar na propriedade.
— Eu não estava tentando entrar — protestou a jovem. — Fui fechada por uma caminhonete e perdi o controle.
Dante não desviou a arma de Verônica.
— Três.
Foi então que Elisa Nogueira ouviu uma voz infantil dentro da própria cabeça.
Não era um som vindo do salão. Era agudo, fragmentado e assustado.
“Dói. Pé. Dói muito.”
Elisa ficou imóvel.
Depois do acidente, tudo ao redor parecia girar. Ela pensou que a pancada tivesse provocado uma alucinação. Mas a voz retornou, misturada ao choro de Catarina.
“Pé preso. Tira. Tira.”
Elisa ergueu os olhos para o bebê.
— Dois — disse Dante.
— Espere! — gritou Elisa.
Todas as pessoas do salão olharam para ela.
Dante virou lentamente a cabeça.
— Você acabou de interromper minha contagem.
— Porque ela não está chorando de sono.
— E como você sabe?
Elisa respirou fundo. Não podia dizer que escutara a criança dentro da mente. Nem ela mesma acreditava nisso.
— O choro é agudo e vem em ondas curtas. Ela tenta afastar o pé esquerdo de qualquer contato. É dor localizada.
Dante examinou a filha. Catarina realmente mantinha a perna esquerda encolhida.
— Traga-a aqui — ordenou.
Os seguranças conduziram Elisa para a frente. Quando ela se aproximou, Catarina parou de gritar durante um segundo e fixou nela os olhos escuros.
“Ajuda.”
Elisa sentiu um arrepio percorrer os braços.
— Posso olhar o pé dela?
— Se machucá-la, você não sai viva desta sala.
— Se continuar ameaçando todos, ela vai associar sua voz ao perigo.
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
Rafael levou a mão discretamente ao coldre. Verônica observou Elisa como se a jovem tivesse acabado de assinar a própria sentença.
Dante deu um passo à frente.
— Ninguém fala comigo dessa maneira.
— Então ninguém está pensando na sua filha. Só estão pensando em sobreviver ao senhor.
Catarina choramingou e estendeu os braços para Elisa.
O gesto desarmou a sala.
Dante hesitou antes de entregar a menina. Elisa a recebeu com cuidado, apoiando a cabeça em seu ombro. O bebê agarrou a gola da blusa rasgada e respirou entre soluços.
“Pé. Sapato.”
Elisa se ajoelhou no tapete e retirou a pequena sapatilha de couro. Não encontrou nada. Depois tirou a meia cor-de-rosa.
Na planta do pé havia um ponto vermelho quase invisível.
— Preciso de uma pinça e de luz forte.
Rafael trouxe um estojo de primeiros socorros. Elisa limpou os dedos, aproximou a lanterna e pressionou suavemente a pele ao redor do ponto.
Uma ponta metálica surgiu.
Com a pinça, ela puxou um fio de aço fino, curvado como um anzol. Tinha menos de dois centímetros, mas estava enterrado profundamente na pele delicada.
O choro cessou.
Catarina soltou um suspiro, encostou a cabeça no peito de Elisa e fechou os olhos.
O silêncio que se seguiu foi mais assustador que os gritos.
Dante pegou o fio metálico entre os dedos.
— Isso não entrou por acaso.
Elisa olhou para a meia. No lado interno, havia uma costura aberta e refeita com linha de cor diferente.
— Alguém colocou o fio aqui dentro.
Verônica levou a mão à boca.
— Que horror. Alguma lavadeira deve ter sido descuidada.
Elisa observou a governanta. A voz que surgira em sua mente não vinha mais de Catarina. A menina dormia, finalmente tranquila.
Dante guardou o fio em um saco plástico e entregou a Rafael.
— Feche os portões. Ninguém sai.
— Sim, senhor.
— Recolha todas as roupas da minha filha. Quero saber quem tocou em cada peça.
Os seguranças se espalharam pela casa.
Verônica tentou recuperar a autoridade.
— E essa invasora? Precisamos chamar a polícia.
Elisa levantou-se devagar, ainda com Catarina no colo.
— Eu preciso de um hospital. Meu carro está destruído, e minha cabeça está sangrando.
Dante se aproximou até ficar a poucos centímetros dela.
— Você entrou na propriedade de um homem que não recebe visitas, descobriu uma tentativa de ferir minha filha e conseguiu segurá-la sem que ela chorasse.
— Foi um acidente.
— Nesta casa, acidentes são apenas crimes mal investigados.
Elisa tentou devolver Catarina, mas o bebê se agarrou com força ao seu pescoço e resmungou, ainda de olhos fechados.
“Não vai.”
Elisa empalideceu.
Dante percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Você olhou para ela como se tivesse ouvido alguma coisa.
Elisa desviou os olhos.
— Estou tonta.
Dante fez um sinal para Rafael.
— Chame o médico da família.
— Para a bebê?
— Para ela também.
Verônica se adiantou.
— Senhor, não sabemos quem essa mulher é.
Dante olhou para Catarina adormecida nos braços de Elisa.
— Por enquanto, ela é a única pessoa nesta casa que minha filha escolheu.
Elisa sentiu o peso daquela frase.
Ela não tinha dinheiro, emprego nem família influente. Devia quarenta e oito mil reais ao hospital onde a mãe morrera. Naquela manhã, recebera a última cobrança antes do processo judicial.
Agora estava presa na mansão do homem mais perigoso de São Paulo.
Dante recolheu a arma e falou sem elevar a voz:
— Descubra quem colocou o fio na meia, Rafael.
Ele fitou Verônica.
— Até lá, ninguém toca na jovem. E ninguém chega perto da minha filha sem a autorização dela.
Verônica sorriu, mas seus olhos permaneceram frios.
Quando Elisa passou por ela carregando Catarina, ouviu outra vez a voz do bebê, sonolenta e baixa:
“Cheiro ruim. Mulher má.”
Elisa parou.
Catarina não estava falando de Dante.
Estava falando de Verônica.
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