"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 9
Uma visita com um coelho emprestado
Na manhã da viagem, encontrei Lia sentada sobre a minha mala.
Raquel vinha atrás dela carregando uma mochila pequena.
"Eu disse que não podia ir escondida aí dentro", explicou. "Agora ela está tentando negociar uma passagem do lado de fora."
Lia ergueu o rosto.
"Sua irmã mora muito longe?"
"Vamos de avião e depois de carro."
"Então tem que levar lanche."
Ela me entregou um pacote de biscoitos que Raquel ainda não havia conseguido recolher.
Eu o coloquei na bolsa.
"Agora estou preparado."
Lia não pareceu convencida. Desceu da mala e me ofereceu o coelho.
"Leva ele também."
"Você vai ficar sem."
Ela apertou o bicho contra o peito, reconsiderando a própria generosidade. Esperei. Não pretendia aceitar um sacrifício que a deixasse chorando assim que eu entrasse no carro.
Por fim, Lia me estendeu o coelho novamente.
"Eu fico com o urso. Mas o senhor traz ele de volta."
"Eu trago."
"E não esquece no avião."
Raquel se abaixou para fechar o zíper da minha bolsa depois que acomodei o brinquedo. Havia costurado a orelha na véspera. Um ponto amarelo aparecia entre os fios cinzentos.
"É um empréstimo importante", disse ela.
"Estou entendendo a responsabilidade."
Lia me abraçou pela cintura. Inclinei-me para retribuir, e ela segurou meu rosto com as duas mãos.
"Se ficar com medo, aperta ele. Não a orelha. A barriga."
Beijei sua testa.
"Vou lembrar."
Eu dormira pouco nas últimas noites. Já não esperava uma cura imediata, e Beatriz ajustava o acompanhamento com informações às quais eu finalmente tinha acesso. Algumas horas eram melhores do que outras. As lembranças também vinham sem pedir licença, mas eu podia falar delas.
Naquela viagem, não precisei fingir que estava tranquilo.
Otávio percebeu minhas mãos apertadas durante o voo e me ofereceu uma água lacrada sem comentar. Aceitei. Bebi devagar.
Ana morava numa casa azul, de jardim pequeno, no fim de uma rua onde se ouviam cachorros e uma televisão ligada. Havia um vaso rachado perto da porta e um gato dormindo sobre uma cadeira.
Fiquei alguns minutos no carro. Otávio esperou sem olhar para o relógio.
"Pode voltar para o hotel", falei. "Eu ligo quando ela quiser me expulsar."
Ele sorriu.
"Espero que demore."
Peguei a sacola com os biscoitos. O coelho ficou preso na alça. Eu estava tentando soltá-lo quando a porta abriu.
Minha irmã tinha cabelos escuros com fios brancos, uma pequena cicatriz na têmpora e a expressão de alguém que também não soubera o que fazer enquanto esperava.
Ela olhou para o brinquedo pendurado.
"Você veio bem acompanhado."
Soltei o coelho, desajeitado.
"É emprestado. A dona pediu que eu não machucasse a orelha."
Ana riu.
Não precisei procurar a adolescente da fotografia dentro da mulher de cinquenta e quatro anos. Na risada, encontrei as duas.
"Você ficou com a cara do pai", ela disse.
Aquilo me fez hesitar. Ana percebeu e avançou um passo.
"A cara, Domenico. Não estou dizendo o resto."
Eu quis responder alguma coisa engraçada. Minha boca tremeu.
Ela largou o pano que segurava sobre a cadeira e veio me abraçar.
Fiquei imóvel por um segundo. Depois a apertei com uma força que me surpreendeu.
Eu era mais alto agora. Quando me lembrava dela, precisava levantar o rosto para falar. Encostei o queixo em seu cabelo e senti a mão dela bater duas vezes nas minhas costas, do mesmo jeito de antes.
"Eu achei que você não queria voltar", consegui dizer.
"Para aquela casa, eu não queria. Para você, era outra coisa."
Entramos depois que o gato decidiu desocupar a passagem.
Ana preparou café. Queimou a primeira torrada porque ficamos nos olhando em silêncio. Na segunda tentativa, programou um alarme e avisou que eu não devia esperar grande competência culinária.
"Eu me lembro de você fazendo bolo", falei.
"Você tinha nove anos. Comia massa crua. Sua avaliação não era confiável."
Ri e abri o pacote que Lia mandara.
Conversamos por horas, com pausas. Ela me mostrou fotografias do curso que finalmente fizera, dos alunos a quem dera aulas de desenho, de uma viagem com amigas. Teve um casamento que terminou e um cachorro que viveu quinze anos. Seu mundo não havia ficado congelado na noite da queda.
Ouvir aquilo me trouxe alívio e uma tristeza difícil de explicar. Eu queria conhecer a vida que perdera, mas não queria que ela precisasse resumir décadas para me acomodar dentro delas.
"A tia Teresa disse que ele não queria mais saber de mim", Ana contou, quando chegamos ao assunto. "Eu estava machucada e com raiva. Algumas lembranças da queda ficaram confusas, mas eu sabia quem era. Sabia que tinha vocês."
Ela girou a xícara entre as mãos.
"Nos primeiros tempos, dependia dela para tudo. Depois, fui ficando. Arrumei trabalho, fiz amigos. Quando pensei em procurar vocês, já tinham passado tantos anos que eu não sabia por onde começar. Eu imaginava nosso pai atendendo o telefone."
"Ele não era o único que morava lá."
Ana assentiu.
"Eu sei. Você cresceu. Eu podia ter procurado você adulto. Não fiz. Tenho vergonha dessa parte."
Sua honestidade doeu menos do que uma explicação perfeita teria doído.
"Vicente contou que esteve aqui."
Ela olhou para a janela.
"Eu perguntei por você. Ele disse que estava doente, que não era o momento de receber outra notícia. Eu conhecia o jeito dele e, mesmo assim, aceitei esperar. Quando ele não voltou a falar do assunto, achei que você sabia e não queria contato."
Eu respirei fundo.
"Eu não sabia."
Ana estendeu a mão sobre a mesa.
"Agora eu sei que não sabia."
Segurei seus dedos. Não resolvia tudo. Mas, pela primeira vez, não havia alguém entre nós traduzindo o que o outro queria.
Mais tarde, contei sobre Sofia e mostrei uma fotografia recente. Ana demorou a tocar no celular.
"Ela está bem?"
"Tem dias melhores. Quer ver você. Mas não me pediu para convencer ninguém."
Minha irmã levou a mão à própria têmpora, perto da cicatriz.
"Eu preciso pensar."
"Está bem."
Ela me olhou, desconfiada.
"Você não vai dizer que ela está velha e que eu tenho obrigação?"
"Ela está velha. Isso não decide por você."
Ana soltou uma pequena risada e enxugou o rosto.
Antes de eu sair, levou-me a um quarto onde guardava seus desenhos. Tirou de uma gaveta uma folha amarelada. Era um cachorro de capa, com uma espada na boca.
"Você pediu que eu desenhasse o príncipe depois que ele virou cachorro. Eu trouxe isso na bolsa naquela noite."
Segurei o papel pelas bordas.
"A espada era necessária?"
"Você exigiu. Disse que ele precisava defender o castelo."
Pedi uma cópia. Ela prometeu fazer uma melhor.
"Eu quero essa mesma", respondi. "Só para poder olhar de novo."
Ana fotografou a folha e me mandou antes de me acompanhar até o portão.
Voltaria no dia seguinte para almoçarmos. Perguntei se era cedo demais.
"É meio-dia", ela respondeu. "Depois de trinta e sete anos, acho que consigo arrumar duas cadeiras até lá."
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