"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 8
Ninguém vai decidir por mim
Liguei para Ana às nove.
Sua voz era mais grave do que na minha memória. Quando riu, porém, reconheci uma pequena falha no fim da risada.
"Você ainda faz um barulho estranho antes de espirrar?", ela perguntou, depois de alguns minutos desajeitados.
Olhei para a porta fechada do escritório.
"Ninguém nunca me contou que eu fazia isso."
"Eu contava. Você ficava furioso."
Ri. Depois precisei pedir um momento.
Ana esperou sem preencher o silêncio.
Combinamos uma visita para a semana seguinte. Ela morava no interior de Santa Catarina, numa casa perto da cidade onde trabalhara durante anos. Eu viajaria acompanhado por Otávio até o hotel e iria sozinho encontrá-la.
Não perguntei tudo pelo telefone. Queria vê-la falando coisas que não fossem apenas explicações sobre um desastre.
Naquela tarde, sentei-me com Vicente, Elisa e Sérgio na biblioteca. Meu advogado participou, assim como Beatriz, a médica que assumira meu acompanhamento. Raquel e Lia estavam fora da casa, num passeio que a mãe planejara antes de tudo começar. Eu não queria a menina ouvindo acusações através de uma porta.
Sobre a mesa estavam as cópias dos prontuários, os resultados confirmados dos produtos recolhidos e a relação de remessas da farmácia.
Eu não precisava que Lia repetisse sua história. Havia outras pessoas e outros registros capazes de sustentá-la.
Sérgio foi o primeiro a tentar conduzir a conversa.
"Antes de tirar conclusões, precisamos considerar o estado em que você estava depois da perda do seu pai."
"Vamos começar pelo que havia na minha água", respondi. "Depois você fala do meu estado."
Ele acomodou a pasta sobre os joelhos.
Beatriz explicou o que os exames mostravam: o preparado que eu recebia de manhã e o frasco usado à noite continham uma substância ausente das receitas que me haviam apresentado. As remessas se repetiam. A autorização vinha do consultório de Sérgio.
"Por que a orientação da noite dizia que era para me acalmar?", perguntei.
Ele olhou para Vicente.
"Estou perguntando a você."
Sérgio tirou os óculos.
"No início, você tinha períodos de confusão. Ficava desorientado depois de certas noites, saía de casa sem avisar. Uma vez dirigiu nesse estado. Eu tentei manter você funcional enquanto acompanhávamos a evolução."
"Sem me contar o que eu tomava."
"Você rejeitava qualquer sugestão."
"Eu rejeitei esse tratamento? Ou você nem chegou a explicar?"
Ele não respondeu.
Beatriz interveio com a calma de quem não precisava vencer uma discussão.
"O que consta aqui não demonstra que Domenico tenha recebido essa informação ou concordado. E a persistência dos sintomas exigia reavaliar o que estava sendo administrado."
Sérgio insistiu que pretendia reduzir o preparado. Perguntei quantas vezes houvera anotado essa intenção e por que não o fizera quando eu relatava que já não suportava ficar acordado.
Seu silêncio durou mais do que as respostas anteriores.
"Eu devia ter interrompido o acompanhamento e encaminhado você", disse por fim. "Depois de tanto tempo, admitir o que eu vinha fazendo significava admitir tudo desde o começo."
Vicente se mexeu na cadeira.
"Ele me disse que era necessário. Eu não conhecia a composição."
Virei-me para meu irmão.
"Você sabia que eu não sabia que estava tomando."
Ele assentiu.
"Sabia que eu confiava nos copos que apareciam no meu quarto. Sabia que eu estava piorando. E tinha uma entrada escondida para chegar à minha cama sem precisar me pedir licença."
"No começo você não queria me ver. Eu achei..."
Ele parou antes de concluir.
"Você achou que isso lhe dava o direito de entrar mesmo assim", terminei.
Vicente fechou os olhos.
Elisa mantinha as mãos unidas sobre a mesa. Pedi que falasse sobre sua participação.
Ela explicou que, nas primeiras semanas depois da morte de meu pai, aceitara discutir meus cuidados com Vicente sem me incluir como deveria. Também concordara em adiar a conversa sobre Sofia. Quando voltara a me atender, tratara o que eu descrevia sem revelar o quanto conhecia da origem do sofrimento.
"Eu não autorizei essas remessas", afirmou. "Mas isso não apaga o resto. Quando percebi que continuavam oferecendo alguma coisa sem informar você, devia ter agido. Em vez disso, discuti com Vicente e fui embora."
"A senhora me perguntava por que eu não confiava nas pessoas."
Ela baixou o rosto.
"Eu me lembro."
Eu também me lembrava. De cada vez em que me sentira culpado por desconfiar de alguém que me tratava com delicadeza.
Não consegui perdoar ninguém naquela mesa. Tampouco precisava decidir o destino inteiro da família naquela tarde.
Meu advogado explicou que preservaria os documentos e daria andamento às medidas cabíveis, inclusive às comunicações sobre a conduta dos profissionais. Beatriz organizaria meu cuidado dali em diante. Não haveria mais preparados anônimos nem conversas sobre meu tratamento das quais eu estivesse excluído.
Quando todos se levantaram, Vicente ficou.
"Eu amo você", disse, num tom quase inaudível.
Demorei a responder porque sabia que era verdade. Essa era a parte que mais doía.
"Então vai precisar aprender a me ouvir quando eu digo não."
Ele assentiu.
"Posso ligar amanhã?"
"Eu ligo quando estiver pronto."
Pela primeira vez, meu irmão não tentou negociar o prazo.
À noite, Dona Rosa veio me mostrar as caixas que guardara. Descobrir o conteúdo a deixara envergonhada e furiosa.
"Eu lia aquele rótulo todo dia. Todo santo dia."
"A senhora não tinha como saber o que o rótulo escondia."
Ela passou o avental no rosto.
"Se esse homem aparecer na minha cozinha, eu bato nele com a colher."
"Prefiro que deixe essa parte com o advogado."
"O advogado sabe usar colher?"
Eu ri. Ela também, apesar das lágrimas.
Mais tarde, liguei para minha mãe. Disse que chegara bem, como prometera na véspera, embora já tivesse feito isso e ela soubesse que eu estava em casa.
Na verdade, queria ouvir sua voz antes de dormir.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 10 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4