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"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 7

正文开头

O que aconteceu com Ana

Na manhã seguinte, levei o bilhete à minha mãe.

Ela o segurou perto do rosto. Um dos cantos tremia entre seus dedos.

"Eu achei que Teresa tivesse destruído isso."

"Eu também achei que Ana tivesse ido embora porque não gostava mais da gente."

Sofia levantou os olhos.

Não falei para feri-la. A frase saiu com a voz do menino que ficava na janela esperando a irmã voltar.

"Ela adorava você", minha mãe disse. "Brigava com seu pai. Não com você."

Sentei-me. Dessa vez, não havia uma mesa entre nós.

Sofia começou pela discussão. Ana tinha dezessete anos e queria estudar artes em São Paulo. Meu pai decidira que ela continuaria em casa, ajudando na empresa até escolher um curso que ele considerasse útil. Rasgara um folheto diante dela.

Ana arrumara uma bolsa e saíra durante a chuva.

"Eu a vi voltar pela entrada de serviço", Sofia contou. "Estava encharcada. Disse que o motorista do ônibus não a deixara embarcar sem o documento que tinha esquecido. Ela queria pegar e sair outra vez sem que seu pai percebesse."

Minha mãe tentara impedi-la. Não por concordar com ele, disse, mas porque temia outra discussão naquela hora.

"Ela me perguntou se eu ia passar a vida pedindo que ela abaixasse a voz. Eu disse uma coisa horrível. Disse que, se saísse, talvez não pudesse voltar."

Sofia precisou parar.

Eu lembrava de Ana com raiva, mas também de sua facilidade em rir. Tentava imaginar a menina da fotografia naquele corredor estreito.

"Ela se afastou de mim. Foi pela passagem para chegar ao quarto. Um degrau da escada de manutenção estava quebrado. Eu ouvi a madeira e depois a queda."

"A senhora estava sozinha?"

"Vicente tinha ido atrás dela pela rua. Você estava no andar de cima. Seu pai se fechara no escritório. Eu chamei Teresa. Ela estava hospedada numa pousada, depois de uma discussão com ele."

"Por que não chamou meu pai?"

Minha mãe olhou para mim por um longo momento.

"Porque tive medo. Da reação dele, de Ana morrer, de tudo que eu tinha dito. E porque eu já estava acostumada a esconder os problemas em vez de pedir ajuda. Não é uma boa resposta. É a que eu tenho."

Teresa levara Ana ao atendimento. O ferimento exigira cuidados e uma recuperação demorada. Quando a menina pôde viajar, a tia a levara para Santa Catarina, onde morava.

Os registros tinham o nome de Ana. Não havia um desaparecimento inexplicável dentro de um hospital. Havia adultos que tinham escolhido caminhos separados para não encarar o que acontecera.

"Teresa me telefonou", Sofia continuou. "Disse que Ana estava viva e que não queria voltar. Depois me contou que ela precisava de distância. Eu estava piorando. Pouco tempo depois, fui internada."

"E meu pai?"

"Eu não contei. Teresa também não. Ele acreditou que Ana tinha fugido. Quando perguntei se procuraria mais, respondeu que ela sabia o caminho de casa."

正文1

Eu me levantei e fui até a janela.

Não havia um único momento em que tudo se perdera. Havia várias oportunidades em que alguém poderia ter aberto uma porta e não abrira.

"Ela sabia que ele não a tinha procurado direito?"

"Teresa dizia que estava protegendo Ana. Mais tarde, admitiu que também queria tirá-la da influência dele. Contou à menina que seu pai não queria mais recebê-la. Eu só soube dessa parte na noite em que ele morreu."

Voltei à cadeira.

"Eu preciso ouvir isso da Ana."

Sofia assentiu imediatamente.

"Precisa. Ela tem a história dela. Eu só posso contar a minha."

Antes de sair, peguei o celular e mostrei a fotografia encontrada na caixa.

Minha mãe tocou a tela.

"Esse livro era uma bagunça. Ana mudava tudo. Uma vez transformou o príncipe num cachorro porque você disse que não gostava dele."

Eu me lembrava do cachorro. Era a primeira lembrança daquela visita que não vinha acompanhada de uma nova perda.

À tarde, encontrei Vicente na varanda. Ele não aparentava ter dormido. Pela primeira vez, não me senti responsável por aliviar seu desconforto.

Coloquei a carta de Teresa entre nós.

"Nosso pai recebeu isso antes de morrer. Ele chegou a encontrar Ana?"

Vicente negou.

"Ela tinha mudado de cidade. Teresa contou que estava viva, mas morreu sem conseguir organizar um encontro. Nosso pai queria contratar alguém para localizá-la."

"E você contratou depois."

Ele olhou para a carta.

"Seis meses depois que ele morreu."

A confirmação me atingiu mesmo depois de eu ter lido as datas na pasta.

"Você encontrou nossa irmã e foi visitá-la?"

"Fui. Ela não quis me receber na primeira vez. Na segunda, conversamos no portão. Disse que não queria voltar para aquela vida."

"Ela disse que não queria me ver?"

Meu irmão permaneceu calado.

Esperei.

"Eu não perguntei especificamente sobre você."

Passei as mãos pelo rosto. Eu não podia gritar alto o suficiente para recuperar os anos.

"Por quê, Vicente?"

"Você estava pior. Eu tinha acabado de perder nosso pai. Mamãe tinha voltado para a residência. Tudo parecia desabar quando eu tentava consertar uma coisa. Eu achei que podia esperar até conseguir organizar as outras."

"Eu não sou uma das coisas que você organiza."

Ele recebeu a frase de cabeça baixa.

Por algum tempo, só ouvimos o vento nas folhas da varanda.

"Me dê um número que seja dela", pedi. "Não quero simplesmente aparecer na porta."

Vicente escreveu num papel. Conferi os dígitos com ele antes de me afastar.

Passei quase vinte minutos com o celular na mão. No fim, mandei uma mensagem.

Disse quem eu era, que acabara de descobrir parte do que havia acontecido e que gostaria de conversar. Acrescentei que ela podia recusar. Não consegui escrever mais nada sem começar a chorar.

A resposta chegou quando eu estava na cozinha, aceitando um prato que Dona Rosa colocara diante de mim.

"Eu nunca deixei de querer saber de você. Pode ligar amanhã de manhã."

Li de novo, devagar.

Dona Rosa esperou que eu pousasse o celular antes de me oferecer um guardanapo.

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