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"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 6

正文开头

A irmã das histórias

"A senhora viu Ana voltar?"

Sofia assentiu, mas sua respiração havia mudado. Olhou para o relógio na parede, depois para uma funcionária na porta.

Pela primeira vez desde que eu chegara, percebi o cansaço dela.

"Podemos parar um pouco", disse.

Minha mãe apertou minha mão.

"Não quero que você pense que estou tentando fugir."

Eu também não queria esperar. Essa era a parte de mim que ainda gritava dentro da biblioteca. Mas não pretendia arrancar uma história inteira de uma senhora exausta só porque os outros me haviam negado tudo.

"Eu volto amanhã. A senhora consegue falar comigo amanhã?"

"Consigo. Peça ao Vicente os papéis da Teresa. Ele tem coisas que eu não tenho."

Teresa era a irmã mais velha de minha mãe. Na minha memória, cheirava a creme de mãos e chegava com balas escondidas na bolsa. Meu pai parara de mencionar seu nome na mesma época em que proibira o de Ana.

Antes de sair, perguntei se Sofia precisava de alguma coisa.

Ela alisou a manga da minha camisa.

"Não precisa resolver nada agora. Só me avise quando chegar."

Eu quase ri. Era um pedido tão comum que doeu.

"Eu aviso."

Na volta, pedi a Otávio que não ligasse o rádio. Passei a viagem olhando pela janela, tentando dar lugar à mulher que acabara de conhecer sem expulsar a mãe que lembrava.

Em casa, Vicente me aguardava no escritório.

"Onde você esteve?"

"Com a nossa mãe."

Ele segurou a borda da mesa.

"Domenico, eu queria estar com você quando isso acontecesse."

"Teve trinta e cinco anos para organizar a visita desde que soube que ela estava viva."

Vicente tentou falar. Levantei a mão.

"Hoje, não. Quero as cartas que ela me mandou. Quero os documentos da tia Teresa. E não quero mais você entrando no meu quarto."

Seu olhar correu para a porta, onde Otávio permanecia.

"Você mostrou coisas da família a ele?"

"Mostrei o que envolve a minha segurança. Entregue os papéis."

Foi a primeira ordem que meu irmão recebeu de mim sem discutir até que eu me cansasse.

Ele saiu e voltou com uma caixa de arquivo. Não a colocou na minha mão. Pousou-a na mesa, como se a distância entre nós tivesse se tornado física.

Esperei que fosse embora.

A primeira carta estava datada do ano em que fiz doze anos.

Minha mãe me perguntava se eu ainda gostava de desenhar carros. Dizia que vira um verde na rua e pensara em mim. Não havia nenhuma revelação extraordinária. Apenas uma mulher tentando participar da vida do filho.

Na segunda, desejava que eu tivesse amigos gentis.

Na terceira, contava que plantara manjericão e matara a planta por excesso de água.

Eu li essa duas vezes.

Havia envelopes de aniversários, alguns cartões de Natal, cartas sem data. Não eram trinta e sete anos completos. Em certos períodos, havia poucas; em outros, nenhuma. Ainda assim, formavam uma vida que existira perto da minha sem me alcançar.

正文1

No fundo da caixa, encontrei um envelope de fotografias.

Ana apareceu na primeira, sentada no chão, com um livro aberto entre os joelhos. Eu estava deitado com a cabeça na perna dela. Vicente, adolescente, segurava um cartaz de trabalho escolar ao fundo e parecia irritado por ter saído na foto.

Eu conhecia aquela menina.

Não como se conhece um nome ouvido numa conversa antiga. Conhecia a pinta perto da sobrancelha, o dente ligeiramente torto, a maneira de dobrar a página para marcar onde parara, embora meu pai reclamasse.

Durante muito tempo, eu dissera a mim mesmo que Ana escolhera nos abandonar. Era a versão que ouvira até parar de perguntar. A lembrança de sua voz fora ficando distante; o ressentimento, mais fácil de carregar.

Na fotografia, eu dormia sem medo.

Raquel bateu à porta aberta com Lia ao lado.

"Podemos entrar?"

Assenti.

Lia se aproximou da mesa na ponta dos pés.

"Esse menino é o senhor?"

"Sou."

Ela examinou meu rosto atual com certa desconfiança.

"O cabelo era diferente."

"Eu também tinha menos contas para pagar."

Raquel sorriu, mas viu as cartas e ficou séria.

Lia apontou para Ana.

"Ela está contando história?"

Olhei de novo para a foto.

"Está. Minha irmã fazia isso quando eu tinha medo de trovão."

Uma lembrança veio inteira, pequena o suficiente para caber na sala: Ana debaixo do cobertor, dizendo que os trovões eram os móveis dos gigantes mudando de lugar. Eu contestava. Ela respondia que gigante também precisava limpar a casa.

Ri, e a risada saiu molhada.

Lia me ofereceu o coelho.

"Pode segurar. Só não puxa a orelha porque está soltando."

Recebi o bicho com as duas mãos.

Raquel puxou uma cadeira.

"Quer companhia enquanto termina de ler?"

"Quero."

Não precisei inventar uma justificativa.

Depois que Lia adormeceu no colo da mãe, abri a pasta de Teresa. Havia uma carta dirigida a meu pai, escrita poucas semanas antes da morte dele, e cópias de documentos antigos.

Eu não compreendi tudo na primeira leitura. Mas uma data me fez parar.

O atendimento de Ana num hospital tinha ocorrido na manhã seguinte à noite em que, segundo meu pai, ela fugira da cidade.

Junto ao formulário havia um bilhete de Sofia para Teresa, escrito às pressas.

Reconheci a letra da minha mãe antes de terminar a primeira linha.

"Ela voltou pela passagem. A escada cedeu. Leve minha filha e me diga assim que souber se ela vai ficar bem."

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