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"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 5

正文开头

Minha mãe tinha envelhecido

Helena abriu o portão antes que eu tocasse a campainha pela segunda vez.

Usava uma blusa azul e segurava um pano de prato. A familiaridade daquele gesto me incomodou: eu chegava carregando uma pergunta que destruía minha infância, e ela estava enxugando louça.

Otávio ficou no carro. Entrei sozinho.

Na sala havia uma fotografia de meu pai, sentado numa cadeira de praia, com a cabeça inclinada para trás. Ele ria. Eu quase não lembrava daquela expressão.

"Vocês eram próximos", disse.

Helena seguiu meu olhar.

"Éramos. Ele foi meu companheiro nos últimos anos."

Esperei uma explicação. Ela não inventou nenhuma.

"Você também sabia da minha mãe."

"Soube no último ano da vida dele. Pedi que contasse. Depois aceitei esperar. Foi um erro meu."

Sentei-me na ponta do sofá.

"Todo mundo aceitou esperar. Só esqueceram de perguntar se eu aceitava."

Helena colocou o pano sobre uma cadeira.

"Você tem razão."

Eu estava preparado para enfrentar justificativas. A concordância me deixou sem defesa.

Ela contou que Sofia passara por um período de adoecimento grave depois do desaparecimento de Ana. Eu me lembrava da minha irmã como alguém que fora embora e não voltara. Da minha mãe, lembrava o cheiro do sabonete e as mãos frias quando me cobria à noite.

Meu pai transformara uma ausência em morte. Durante anos, visitara a esposa sem nos levar. Vicente descobrira a verdade aos vinte e um, dois anos depois de Sofia sair de casa. Eu já era o menino que perdia o ar toda vez que o telefone tocava.

"Ele prometia contar quando você estivesse mais velho", Helena disse. "Depois, quando sua mãe melhorasse. Depois, quando os negócios se acalmassem."

"Ela pediu para me ver?"

Helena apertou os próprios dedos.

"Pediu. Mandou cartas. Acreditou quando disseram que você não queria recebê-la. Em outros momentos, quando disseram que precisava de mais tempo. Não foi sempre a mesma mentira."

Eu me levantei.

"E naquela noite?"

Helena demorou um instante a entender.

"Na noite em que meu pai morreu. O que ele queria contar?"

"Que Sofia estava viva. E que tinha recebido notícias sobre Ana. A carta que você encontrou foi escrita naquela manhã. Eu mesma entreguei papel a ele."

Perguntei por que a carta estava escondida.

"Seu pai guardou ali para que Vicente não visse antes da conversa. Queria falar pessoalmente com você. Depois que morreu, eu perguntei pelo envelope. Seu irmão afirmou que havia entregado."

A sequência tinha a simplicidade cruel das coisas que poderiam ter sido evitadas.

Helena me mostrou uma mensagem no celular. Sofia aceitara me receber naquela tarde.

Fomos para Campinas. No caminho, eu ensaiei perguntas que desapareceram assim que entrei na residência.

Uma funcionária me conduziu a uma sala com janelas para um jardim. Minha mãe estava junto a uma mesa, separando lápis de cor. Tinha setenta e oito anos. Os cabelos eram brancos, e a mão esquerda tremia um pouco quando ela tentava alinhar os lápis.

正文1

Eu havia imaginado a mulher da minha infância. Não aquela senhora.

Ela levantou o rosto.

Reconheci os olhos antes de reconhecer o resto.

"Domenico."

Meu nome saiu inteiro, sem hesitação.

Eu parei a alguns passos. Ela tentou se levantar depressa demais e precisou apoiar a mão na mesa.

"Não precisa levantar", falei.

Foi a primeira coisa que consegui dizer à minha mãe depois de trinta e sete anos.

Ela sentou novamente. Havia uma cadeira ao lado. Puxei-a, mas não a aproximei de imediato.

"Eu achei que a senhora tinha morrido."

Sofia levou um lenço à boca.

"Eu sei. Soube muito depois que ele tinha contado isso."

"Por que nunca me procurou?"

Ela aceitou a pergunta sem baixar o rosto.

"No começo, eu mal conseguia cuidar de mim. Depois, tive medo. Mandei cartas pelo seu pai e pelo Vicente. Acreditei que estavam chegando até você. Quando descobri que não estavam, devia ter procurado outro caminho. Não procurei."

Eu olhei para suas mãos. Queria que alguém me dissesse uma coisa que tornasse aqueles anos suportáveis. Ela não tentou.

"Eu tenho raiva", admiti.

"Você pode ter."

"E não sei o que fazer com a vontade de abraçar a senhora."

Seu rosto se desfez.

"Pode fazer as duas coisas."

Aproximei a cadeira. Quando ela estendeu a mão, segurei.

Ficamos assim até minha respiração perder a pressa. Eu tinha perguntas demais, mas precisei começar pela noite em que a vira sem reconhecê-la.

Sofia contou devagar. Meu pai a trouxera à casa para conversar comigo. Vicente tentara adiar. Quando entrei na biblioteca, ela se levantara do sofá e dissera meu nome.

Veio uma imagem: uma mulher perto da janela. Chuva atrás do vidro. Meu pai mandando que eu escutasse.

"Eu achei que fosse uma brincadeira horrível", murmurei.

Sofia assentiu.

"Você perguntou como ele tinha conseguido deixar você chorar por alguém que estava viva."

Vi um movimento brusco, um copo caindo. Senti outra vez o peso de um corpo apoiado em mim.

"Eu gritei com ele."

"Gritou. Depois ele passou mal. Você o segurou e pediu que Vicente chamasse ajuda."

O tapete escuro. A camisa molhada. Um líquido vermelho.

"Tinha sangue."

"Era vinho, meu filho. O copo que ele estava segurando quebrou."

Eu me curvei, as mãos nos joelhos. Sofia tocou minhas costas sem tentar me endireitar.

"Eu fiquei dizendo que tinha feito aquilo", falei. "Essa parte eu lembro."

"Você estava desesperado. Seu pai já tinha problemas no coração. Você não decidiu que ele morreria, Domenico."

Não recuperei a noite toda. Recuperei o suficiente para entender que meu medo não era uma prova contra mim.

"A doutora Elisa estava lá?"

"Chegou depois que chamaram a ambulância. Eu pedi que viesse. Ela me acompanhava havia anos. Você tentou sair da casa, depois passou muito mal. Mais tarde, disseram que não lembrava da conversa."

"E decidiram apagar a senhora de novo."

Sofia fechou os olhos.

"Disseram que eu devia esperar. Dessa vez, eu não devia ter obedecido."

Havia uma última pergunta.

"O que meu pai soube sobre Ana?"

Minha mãe olhou para a janela. Seus dedos se fecharam em torno do lenço.

"Que sua irmã não tinha ido embora como ele acreditava. Naquela noite da tempestade, quando vocês eram pequenos, ela voltou para casa. Eu a encontrei aqui dentro."

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