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"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 2

正文开头

A primeira noite

Alcancei a trava antes que a lingueta cedesse.

Do outro lado, alguém empurrou a porta. O movimento cessou.

"Domenico?"

Vicente.

Lia prendeu a respiração. Abaixei a mão até encontrar a dela.

"O que aconteceu?", perguntei.

"Vi a luz. Queria saber se precisava de alguma coisa."

Liguei a gravação do celular. Durante anos, aquela preocupação parecera a parte mais sólida da minha vida. Naquela noite, cada palavra me chegava com um segundo significado.

"Não preciso. Boa noite."

"Você está com alguém?"

Olhei para Lia. Ela havia encostado o rosto no coelho.

"Por que está perguntando?"

"Ouvi vozes."

"Então você estava parado aí havia algum tempo."

Houve uma pausa.

"Não comece uma discussão a esta hora. Eu só quero ajudar. Abra a porta."

"Eu disse que não preciso de nada. Amanhã conversamos."

Meu irmão soltou o ar com força. Eu conhecia aquele som desde a infância: era o que fazia quando decidia que eu estava sendo difícil.

"Está bem. Tente descansar."

Esperei até ouvir seus passos desaparecerem antes de chamar Otávio.

"Venha à ala dos quartos. Não fale com meu irmão. Preciso que traga alguém para ficar no corredor."

Ele não pediu explicações por telefone.

Raquel ligou quase ao mesmo tempo. Atendi e ouvi sua respiração apressada.

"Acabei de ver a mensagem. Ela está bem?"

"Está comigo. Venha pela escada principal. Otávio vai encontrar você."

A firmeza da minha voz deve tê-la assustado. Quando chegou, estava de robe, com o cabelo preso às pressas e os pés enfiados em chinelos diferentes.

Lia correu para ela.

"Eu não me machuquei, mamãe."

Raquel se ajoelhou e passou as mãos nos braços da filha, como se precisasse comprovar aquilo.

"Você não pode sair sem me chamar. Eu ia acordar e não saber onde você estava."

"Eu deixei o travesseiro na minha cama."

"Um travesseiro não é uma filha, Lia."

A menina abaixou o rosto. Dei a Raquel tempo para abraçá-la antes de falar.

Contei o que Lia dissera. Não apresentei minha suspeita como uma conclusão. Mostrei o copo, descrevi o relógio e pedi que a filha contasse, com as próprias palavras, onde estivera quando vira o homem.

"Na escadinha perto da cozinha", respondeu Lia. "Eu fui chamar a dona Rosa porque o corredor estava escuro. A porta da parede estava aberta."

Raquel levou a mão à boca.

"Foi no mês passado? Na noite em que a dona Rosa ficou com você enquanto eu ajudava no jantar?"

"Eu não sei o mês, mamãe."

"Ela me falou de um homem saindo da parede", Raquel explicou. "Eu pedi à dona Rosa que conferisse. Ela achou que Lia tinha visto alguém pelo reflexo do espelho. Depois fechamos o acesso da escada com o portãozinho."

Sua voz endureceu, embora os olhos estivessem molhados.

"Eu não deixo minha filha passear pela casa durante a madrugada, senhor Moretti. Hoje foi a primeira vez que ela saiu depois que eu dormi."

正文1

"Não estou acusando você."

"Eu sei. Mas preciso que isso fique claro."

Assenti. Ela tinha razão.

Otávio ouvira em silêncio. Perguntei sobre o acesso junto ao closet. Ele franziu a testa.

"Havia uma passagem de serviço. A reforma previa o fechamento."

"Você viu fecharem?"

Ele demorou um instante a responder.

"Vi o relatório. Não abri a parede."

"Vamos verificar isso pela manhã. Até lá, quero este quarto desocupado."

Raquel apertou a filha contra o corpo.

Eu também não pretendia passar outra hora ao lado daquela água.

Otávio chamou um laboratório independente com atendimento de coleta e registrou o copo antes de ele ser recolhido. Eu telefonei para uma médica indicada por um conhecido, sem ligação com minha família. Ela fez perguntas, recomendou uma avaliação presencial e deixou claro que uma conversa de madrugada não explicaria três anos de sintomas.

Pela primeira vez em muito tempo, ouvi alguém dizer que ainda não sabia.

Aquilo me tranquilizou mais do que as certezas dos outros.

Mudamos para a suíte de hóspedes próxima ao apartamento de Raquel. Otávio conferiu os acessos, deixou um segurança do lado de fora e me entregou uma garrafa de água lacrada.

Lia já estava quase dormindo no colo da mãe. Mesmo assim, ergueu o livro quando me viu sentar.

"O dragão ainda não acabou."

"O dragão pode esperar até amanhã", Raquel disse.

"Mas ele está no caixa. Vai ficar lá a noite inteira?"

Raquel me olhou. Eu deveria ter agradecido e mandado as duas descansar. A vergonha de precisar de companhia, porém, me pareceu subitamente menos importante do que a possibilidade de voltar a fechar os olhos.

"Se vocês não se incomodarem, eu gostaria de ouvir o resto."

Raquel acomodou Lia no sofá, sentou-se ao lado dela e ajeitou uma almofada nas minhas costas. Não me perguntou se eu tinha medo. Não precisou.

A história perdeu o rumo depressa. O dragão comeu o carrinho de compras, foi advertido e prometeu levar sua própria comida no dia seguinte.

"Isso parece uma solução razoável", murmurei.

"Agora fica quietinho. O senhor fala muito para quem quer dormir."

Raquel cobriu o sorriso com a mão.

Eu dormi antes do fim.

Quando acordei, meu pescoço doía. Ainda estava no sofá. Uma manta cobria meus joelhos, e Raquel lia no outro extremo da sala. Lia dormia no quarto ao lado, com a porta aberta.

O relógio marcava cinco e quarenta.

"Quanto tempo?"

Raquel pousou o livro.

"Quase três horas. O senhor acordou uma vez, perguntou onde estava e dormiu de novo."

Eu permaneci sentado, tentando entender a sensação. Não estava curado. Minha cabeça ainda pesava. Mas o mundo tinha bordas menos cortantes.

"Você ficou acordada esse tempo todo?"

"Cochilei um pouco. Depois achei melhor esperar."

"Hoje você não trabalha. Isso não vai sair das suas folgas."

Ela ergueu o queixo.

"Eu fiquei porque quis."

"E eu estou agradecendo do jeito desajeitado que sei."

Raquel relaxou um pouco.

"Então obrigada. Vou aceitar."

Às oito, encontrei Vicente na sala de café. Ele segurava uma xícara, impecavelmente vestido. A manga deixava à mostra o relógio azul.

"Você não estava no quarto", observou.

"Dormi na suíte do andar de baixo."

Seus dedos apertaram a alça da xícara.

"Dormiu?"

"Por algumas horas."

"O que tomou?"

A pergunta veio depressa demais.

"Nada. A Lia contou uma história."

Antes que ele respondesse, Raquel apareceu com a filha pela mão. Lia me viu e sorriu. Então percebeu Vicente.

Seu sorriso desapareceu.

Ela olhou para o pulso dele, deu um passo para trás e se escondeu na saia da mãe.

Vicente acompanhou o olhar da menina.

Devagar, puxou a manga sobre o relógio.

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