"A Menina de Três Anos Que Me Fez Dormir" Capítulo 1
A água ao lado da cama
"O senhor também bebe essa água quando eu não estou aqui?"
Eu já havia encostado o copo na boca. A pergunta me fez parar.
Ao lado da minha cama havia uma menina de três anos, abraçada a um coelho que precisava de uma costureira. Usava pijama amarelo com leõezinhos e uma única meia. A outra estava presa na orelha do bicho.
Olhei para o relógio. Meia-noite e quatorze.
"Lia, onde está a sua mãe?"
"Dormindo. Mas eu perguntei da água."
Pousei o copo.
"Bebo quando tenho sede. Por quê?"
Ela aproximou o coelho do rosto e olhou para a porta.
"Eu vi um homem pôr uma coisa aí dentro."
O barulho distante da chuva pareceu aumentar.
"Que coisa?"
"Não sei. Sai de um vidrinho."
Em circunstâncias normais, eu teria chamado a mãe dela e encerrado a conversa. Crianças misturavam o que viam com o que imaginavam. Na semana anterior, Lia afirmara que havia um jacaré na lavanderia. Era uma bolsa de couro.
Mesmo assim, afastei o copo.
"Você viu isso hoje?"
"Hoje eu vim contar história."
Ela mostrou um livro escondido atrás do coelho, como se isso resolvesse minha pergunta.
Raquel trabalhava na minha casa havia quase quatro anos. Depois que a filha nasceu, continuou ocupando o pequeno apartamento da ala de serviço. Eu havia concordado com aquilo sem imaginar que um dia a criança atravessaria a casa no meio da madrugada para inspecionar minha água.
"Você não pode andar sozinha por aqui. Sua mãe vai ficar preocupada."
Lia olhou para o caminho que fizera.
"Eu sei voltar."
"Esse não é o problema."
"Então qual é?"
Eu tinha quarenta e seis anos. Administrava uma empresa com centenas de funcionários. Homens que discutiam contratos milionários comigo escolhiam cuidadosamente a hora de me interromper.
Aquela menina esperava uma explicação com um pé descalço apoiado no outro.
"O problema é que você pode cair, se machucar ou entrar num lugar perigoso."
Ela examinou meu quarto.
"Aqui é perigoso?"
Olhei de novo para a água.
"Não deveria ser."
Lia aceitou a resposta e tentou subir na cama. A primeira tentativa fracassou. Na segunda, agarrou a colcha e me lançou um olhar indignado, como se a altura do colchão fosse uma ofensa pessoal.
Levantei-me e a coloquei sentada na beirada.
"Isso não significa que você pode ficar. Vou avisar sua mãe."
"Avise baixinho. Ela trabalhou muito."
Peguei o celular e escrevi para Raquel que Lia estava comigo, bem, e que eu a levaria de volta em poucos minutos. Não queria que acordasse e encontrasse a cama da filha vazia.
Quando me virei, Lia havia acomodado o coelho no meu travesseiro.
"Por que você acha que eu preciso de uma história?"
"Porque sua luz fica acesa."
Ela apontou para a fresta debaixo da porta.
"Quando eu vou fazer xixi, ainda está acesa. A mamãe falou que o senhor não consegue dormir."
Havia três anos eu dormia em pedaços. Às vezes, quarenta minutos. Numa noite boa, duas horas, separadas por despertares em que meu coração batia como se eu estivesse correndo.
O problema começara depois da morte do meu pai. Vieram os especialistas, os exames, as receitas. Meu irmão acompanhara a reforma do quarto: janelas novas, isolamento acústico, uma porta que custara mais do que meu primeiro carro.
Nada impedira aquela sensação de que, se eu fechasse os olhos, alguma coisa terrível aconteceria.
"Sua mãe não devia se preocupar com isso", respondi.
"Ela se preocupa com tudo. Até quando não precisa."
Lia abriu o livro no meio.
"Eu ainda não sei ler as letrinhas. Mas sei essa história."
"Então não vai adiantar eu reclamar se você contar errado."
"Pode reclamar. Eu conto de outro jeito."
Pela primeira vez naquela noite, quase sorri.
Ela bateu no colchão.
"Deita, seu Domenico. Não dá para dormir sentado trabalhando."
Fechei o computador. Não porque uma criança tivesse me dado uma ordem, disse a mim mesmo, mas porque eu já havia lido o mesmo parágrafo seis vezes.
Encostei a cabeça. Lia começou a história de um dragão que precisava de emprego. Na ilustração, o dragão guardava um castelo. Na versão dela, trabalhava no supermercado.
"Não queimava as compras?", perguntei.
"Só quando espirrava. Por isso ele ficava longe do pão."
Eu ri pelo nariz. Lia me observou, satisfeita, e virou duas páginas de uma vez.
Sua voz tinha pequenas falhas. Algumas palavras saíam atropeladas. De vez em quando, ela esquecia quem estava falando e consultava o coelho. Não havia nenhuma tentativa de me acalmar, avaliar minha resposta ou conferir se um tratamento estava funcionando.
Ela só queria que eu conhecesse o dragão.
Meus dedos afrouxaram sobre a colcha.
Eu estava quase dormindo quando percebi. Aquilo me assustou tanto que abri os olhos.
Lia continuava ao meu lado, franzindo a testa para uma figura de chapéu.
"Pode fechar", disse, sem levantar o rosto. "Eu aviso quando acabar."
Tentei novamente.
A chuva virou um ruído distante. O colchão deixou de parecer uma superfície onde eu esperava a manhã. Eu começava a afundar nele quando a voz dela parou.
Esperei alguns segundos.
"O dragão perdeu o emprego?"
Nenhuma resposta.
Abri os olhos. Lia não olhava mais para o livro.
Estava olhando para a porta.
"É essa hora", murmurou.
Sentei-me devagar.
"Essa hora o quê?"
Ela puxou a meia da orelha do coelho e a apertou na mão.
"Que o homem vem."
Não havia brincadeira no rosto dela. Sua boca tremia.
"O homem do vidrinho?"
Lia assentiu.
"Você viu esse homem entrar aqui?"
"Eu vi pela portinha. Ele ficou do lado da cama. Achei que ia acordar o senhor."
"Qual portinha?"
Ela apontou vagamente para o lado do meu closet.
A câmera acima da porta principal piscava uma luz verde. Otávio, meu chefe de segurança, revisava as gravações. Ninguém poderia entrar sem deixar registro.
Foi o que tentei dizer a mim mesmo.
"Você lembra como ele era?"
"Ele tinha um relógio bonito. Azul aqui dentro."
Lia desenhou um círculo no próprio pulso.
Meu pai mandara fazer três relógios iguais. Um para ele, um para mim, outro para Vicente. O do meu pai estava no cofre. O meu, na gaveta atrás de mim.
"E o que ele fez com o vidrinho?"
Ela apontou para o copo que eu havia afastado.
"Pingou aí. Depois mexeu com o dedo."
Eu olhei para a água transparente. Meu irmão costumava perguntar, todas as manhãs, se eu havia dormido melhor. Às vezes, enquanto me entregava um copo novo.
Peguei Lia pela cintura e a coloquei no chão, atrás de mim.
"Fique aqui perto. Você não fez nada errado contando isso. Entendeu?"
Ela agarrou minha camiseta.
Um passo soou no corredor.
Então outro.
Lia se encolheu contra minhas pernas.
"É ele."
A maçaneta de latão começou a girar.
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