"O Chefe da Máfia Provou a Torta da Empregada… E Descobriu o Segredo Que Ela Escondia Havia Três Anos!" Capítulo 5 — O Homem Que Ela Não Podia Amar
Clara evitou Leonardo durante dois dias. Entrava na cozinha antes do amanhecer, terminava suas tarefas e desaparecia pelos corredores quando ouvia a voz dele. Não era ingratidão. Era medo de acreditar em alguém cujo sobrenome estava ligado à ruína de sua família.
Leonardo respeitou a distância. Em vez de procurá-la a cada hora, entregou a Rafael a investigação e exigiu documentos verificáveis. Não queria transformar suspeitas em promessas vazias.
Dona Palmira, porém, tinha outros planos. Encontrou Clara preparando café e colocou sobre a mesa uma lista de sobremesas para a noite beneficente da fundação familiar.
— Quero que você crie o cardápio — anunciou.
— Senhora, sou responsável pela limpeza.
— E eu sou velha demais para fingir que não reconheço uma confeiteira quando encontro uma.
Clara tentou recusar. Palmira insistiu que o trabalho seria remunerado separadamente, com contrato e liberdade para escolher os ingredientes. Henrique supervisionaria a estrutura da cozinha, não as receitas.
Leonardo entrou no momento em que Clara examinava a lista.
— A decisão é sua — disse. — Se aceitar, receberá como profissional.
Ela ergueu o rosto.
— E se eu disser não?
— A senhora Palmira ficará decepcionada. Eu continuarei pagando seu salário normalmente.
A avó soltou uma gargalhada. Clara sorriu apesar de si mesma. Naquela tarde, assinou o contrato para a preparação das sobremesas.
Trabalhar novamente com chocolate, frutas e nozes despertou lembranças que ela tentara enterrar. Separou formas, ajustou temperaturas e desenhou combinações num caderno novo. Henrique, inicialmente desconfiado, passou a ouvi-la com atenção.
Leonardo apareceu na cozinha ao final de uma reunião. Encontrou Clara concentrada numa calda e parou à distância para não atrapalhar. Ela o percebeu pelo reflexo da janela.
— Veio fiscalizar?
— Vim descobrir se existe alguma sobremesa que você considere doce na medida certa.
Clara ofereceu uma colher pequena. Leonardo provou e fez uma expressão séria.
— Doce demais.
Ela franziu a testa, pegou outra colher e experimentou.
Ao terminar o expediente, Clara encontrou Palmira no jardim de inverno. A senhora regava pequenas plantas e perguntou qual era a sobremesa favorita de Célia. Clara respondeu que a mãe preferia bolo de laranja, embora os clientes comprassem mais a torta de nozes. Palmira pediu a receita.
As duas conversaram sobre cozinhas antigas, cadernos manchados de manteiga e festas de família. Clara se surpreendeu por contar histórias sem sentir vergonha. Quando voltou ao quarto, anotou no caderno novo a receita do bolo.
Era a primeira vez em anos que escrevia algo para o futuro, e não apenas uma lista de dívidas.
Clara anotou no caderno uma nova combinação de sabores e desenhou a apresentação do prato. Gostava de pensar nas cores antes de escolher a louça. Esse pequeno exercício devolvia uma parte de sua identidade.
Por alguns minutos, não era funcionária nem devedora, apenas uma mulher criando algo com as próprias mãos.
Leonardo recebeu uma mensagem de Augusto convidando-o para um almoço de negócios. Respondeu que estava ocupado. Em seguida, fechou a porta do escritório e examinou a lista de empresas envolvidas na compra da confeitaria. Os nomes pareciam comuns, mas alguns endereços se repetiam.
Ele pediu a Rafael que verificasse os registros públicos e preservasse as cópias. Não queria que Clara confundisse sua atenção com uma tentativa de comprar perdão. O que sentia por ela crescia justamente porque ela exigia verdade e respeito, duas coisas que seu mundo costumava negociar.
— Não está. O senhor está me provocando.
— Talvez.
A risada dela encheu a cozinha. Leonardo percebeu que nunca ouvira aquele som antes. Por alguns segundos, esqueceu a reunião que o aguardava e a investigação escondida em seu escritório.
— Por que se importa tanto comigo? — perguntou Clara, quando o silêncio voltou.
Leonardo apoiou a colher sobre a bancada.
— Porque passei três anos olhando para você sem realmente enxergá-la.
Ela baixou os olhos, tocada e assustada. O poder dele não desaparecera. Continuava sendo o homem que comandava negócios perigosos, cercado de seguranças e segredos. Mas ali estava alguém que admitia ter falhado.
— Não quero ser um projeto de caridade — disse.
— Nem eu quero que seja.
— Então não tente consertar minha vida sem me perguntar.
— Combinado.
Ele estendeu a mão, como se fechassem um acordo comercial. Clara apertou seus dedos. O contato foi breve, mas os dois demoraram a se afastar.
Na noite seguinte, Palmira provou as primeiras sobremesas. Elogiou a torta de nozes e pediu que Clara colocasse seu nome no cardápio impresso. Clara hesitou, lembrando as manchetes que associavam Azevedo à negligência.
— Esse nome pertence à sua mãe também — disse Palmira. — Não deixe que outros decidam o que ele significa.
Clara ficou acordada até tarde pensando nisso. Pela primeira vez, imaginou uma confeitaria com as portas abertas novamente. Imaginou o pai sentado perto da vitrine e a mãe presente nas receitas.
Henrique começou a separar os ingredientes pedidos por Clara sem questionar cada medida. A confiança entre os dois crescia aos poucos. Quando uma cobertura não ficou como esperavam, ela propôs recomeçar. Henrique concordou. Clara se deu conta de que errar uma receita já não significava ser acusada de destruir tudo.
Era apenas parte do trabalho.
Palmira encontrou Leonardo observando o jardim. Perguntou se ele estava apaixonado. O neto respondeu que não sabia dar nome ao que sentia. A avó sorriu. Disse que sentimentos verdadeiros exigiam mais escuta do que discursos.
Leonardo pensou na promessa feita a Clara e decidiu que não a quebraria, por mais difícil que fosse esperar.
Quando voltou ao pequeno quarto dos funcionários, encontrou um envelope sob a porta. Não havia remetente. Dentro, uma fotografia antiga mostrava a fachada queimada da confeitaria.
No verso, alguém escrevera: Se continuar perto de Leonardo, seu pai será o próximo.
O sangue de Clara gelou. Ela verificou o corredor vazio, trancou a porta e segurou a fotografia com as duas mãos. A ameaça mencionava seu pai, a única pessoa que ela não podia perder.
Seu primeiro impulso foi esconder tudo. Era o hábito de três anos de silêncio. Mas a lembrança da mão estendida de Leonardo e da promessa de perguntar antes de agir a fez hesitar.
Clara guardou a carta na bolsa. Na manhã seguinte, procuraria Leonardo. Desta vez, não enfrentaria o medo sozinha.
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