"Minha Filha Salvou o Homem Mais Temido da Cidade" Capítulo 9
A porta do apartamento
Na segunda-feira, Sofia voltou para casa com a filha.
Lily entrou correndo e abraçou a almofada amarela do sofá. Depois foi conferir se o patinho da banheira continuava no mesmo lugar.
Sofia colocou as malas no quarto. Tudo parecia menor. O corredor, o armário, o espaço entre a cama e a parede.
Mesmo assim, quando abriu a janela e ouviu a vizinha chamar alguém na escada, sentiu os ombros descerem.
Era sua casa.
Marco conferiu a fechadura nova, explicou como funcionaria o acompanhamento temporário e se despediu sem tomar café. Pela primeira vez em semanas, a porta se fechou e ninguém ficou do outro lado dentro do apartamento.
Sofia apoiou a testa na madeira por alguns segundos.
"Mamãe, o Dominic vem jantar?"
Ela se virou.
Lily segurava dois pratos de plástico.
"Hoje não combinamos isso."
"Então só dois?"
"Só dois hoje."
A menina guardou o prato extra.
Sofia quase ligou para ele naquele instante.
Não ligou porque estava aquecendo feijão, depois porque Lily derrubou água, depois porque precisou trocar os lençóis. Quando se deu conta, eram quase nove e tinha passado a noite inteira arranjando desculpas.
Seu telefone vibrou.
Era uma mensagem de Dominic: "Chegaram bem? Marco me avisou, mas prefiro ouvir de você."
Sofia apertou o botão de chamada.
Ele atendeu no segundo toque.
"Oi."
Sem o sobrenome, sem uma ordem, sem ninguém ao redor, a voz dele pareceu mais próxima.
"Chegamos. A Lily já está dormindo."
"E você?"
"Ainda estou tentando decidir o que fazer com o silêncio."
Ele ficou alguns segundos sem responder.
"Aqui está parecido. Rosa fez arroz demais."
Sofia se sentou na cadeira da cozinha.
"Você comeu?"
"Comi."
"Estou perguntando de verdade."
"Duas porções. Posso mandar uma foto do prato."
Ela riu.
A conversa durou quarenta minutos. Falaram da torneira que pingava, das folhas de outono no jardim e do urso, que ficara com uma linha verde no pé depois de invadir a caixa de costura.
Dominic não pediu que voltassem.
Ao desligar, Sofia percebeu que queria vê-lo justamente porque ele não tinha pedido.
Na quinta-feira, foi à mansão para conversar com a governanta e entregar uma solicitação de desligamento. Tinha encontrado uma vaga de meio período numa loja de ajustes, por indicação de uma antiga cliente da mãe. O salário seria menor, mas os consertos por fora ajudariam a completar a renda.
Não era uma decisão elegante. Havia contas na ponta do lápis, o cuidado de não gastar a reserva e uma entrevista de experiência marcada para a manhã seguinte.
Era uma decisão que desejava havia anos.
Dominic a encontrou saindo da sala da governanta.
Olhou para o envelope vazio em sua mão.
"Você vai embora de vez?"
A pergunta a atingiu pela tristeza que ele não conseguiu esconder.
"Do trabalho."
Ele passou a mão no rosto.
"Eu entendi errado."
"Eu devia ter contado antes. Queria ter certeza de que tinha uma alternativa real."
Dominic assentiu, mas não se aproximou.
"A vaga é boa?"
"Tem uma dona exigente e uma máquina que conhece dias melhores. Acho que vou me dar bem."
Ele sorriu sem muita força.
Sofia deu um passo.
"Eu não quero que você se pergunte se estou aqui porque preciso do salário. E não quero passar o dia me perguntando se você me chamou porque precisava de uma funcionária."
"Nunca foi isso, Sofia."
"Eu sei. Mas eu precisava arrumar o resto da minha vida também."
Ele olhou para a porta da sala, depois para ela.
"O que você quer que eu faça?"
Sofia sentiu o coração acelerar.
"Me convide para jantar. Como alguém que quer me ver."
A expressão dele mudou devagar.
"Sexta-feira?"
"Tenho uma filha. Preciso organizar quem fica com ela."
"Rosa me disse que sente falta das estrelas de batata. Posso perguntar se ela gostaria de ficar com Lily por algumas horas. Você fala diretamente com ela, e eu busco você às sete."
Sofia sorriu.
"Isso foi um convite muito bem organizado."
Dominic finalmente se aproximou.
"Estou aprendendo a fazer uma pergunta de cada vez."
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