"A Empregada Que Salvou o Chefe da Máfia de Morrer Afogado" Capítulo 4 — O MAFIOSO PAGOU A CIRURGIA DA MINHA MÃE
Quando Marina voltou à mansão para resolver sua situação trabalhista, encontrou um envelope sobre a mesa do escritório.
Dentro havia um contrato de assistência financeira, uma carta de uma equipe médica e a estimativa de cento e oitenta mil reais para o tratamento de Rosa.
Dante aguardava junto à janela, na cadeira preta e dourada. Não usava paletó. As mangas da camisa escura estavam dobradas, deixando à mostra as tatuagens dos antebraços.
— Falei com o médico responsável — explicou. — Sua mãe pode ser avaliada por uma equipe especializada. Quero pagar os custos.
Marina fechou o envelope com força.
— Não.
Ele virou a cadeira.
— Você nem leu tudo.
— Li o suficiente. Não quero caridade.
— Não é caridade.
— Então o que é? Uma recompensa por ter tirado o senhor da piscina? Quanto vale uma vida na sua tabela?
Dante recebeu a pergunta como um golpe.
Estava acostumado a resolver problemas com transferências bancárias.
Dinheiro comprava silêncio, segurança e conveniência.
Nunca imaginara que pudesse ofender alguém ao oferecer ajuda.
— Eu não estava tentando comprar você.
— Mas está acostumado a comprar soluções. Minha mãe não é um problema que o senhor pode apagar com uma assinatura.
Ele respirou fundo.
— Tem razão. Fiz tudo sem perguntar o que você queria.
Marina ficou surpresa. Esperava uma discussão, talvez uma ameaça. Dante abriu uma gaveta e guardou o envelope.
— Me diga como posso ajudar sem tirar sua liberdade.
Ela puxou uma cadeira e se sentou.
Depois de alguns minutos, propôs um acordo: aceitaria um empréstimo formal, sem juros abusivos, com parcelas compatíveis com sua renda e revisão por um advogado independente.
Os médicos deveriam ser escolhidos com Rosa, não por imposição de Dante.
— Você negocia melhor que metade dos meus diretores — comentou ele.
— Talvez seus diretores tenham medo de dizer não.
Dante soltou uma risada baixa, quase incrédula. Marina sorriu antes de conseguir evitar.
A documentação foi preparada com transparência, e Rosa pôde participar das decisões sobre o tratamento.
Marina também assinou um novo contrato de trabalho, com funções definidas, horário regular e liberdade para visitar a mãe.
— Não precisa voltar a trabalhar aqui — disse Dante. — A ajuda não depende disso.
— Eu sei. Mas preciso do meu salário. E Teresa não merece ficar sozinha com aquela casa inteira.
Dante percebeu que Marina não mencionara Verônica. O noivado ainda existia oficialmente, embora ele tivesse pedido distância à noiva enquanto a polícia investigava o atentado.
— Você não terá de responder a ordens de Verônica — garantiu.
— Não quero privilégios. Quero respeito.
— Então terá respeito.
Naquela noite, Marina permaneceu no turno da organização doméstica. A mansão estava estranhamente silenciosa.
O salão da festa fora limpo, mas uma marca discreta no mármore ainda lembrava onde Dante quase morrera.
Teresa encontrou a jovem olhando para a piscina pela janela.
— Você foi corajosa, menina.
— Eu estava apavorada.
— Coragem não é ausência de medo.
Marina abraçou a governanta. Era bom sentir que alguém naquele lugar a via como pessoa, não como um uniforme.
Teresa também contou que Dante passara anos afastando quem tentava ajudá-lo. Não justificava sua crueldade, mas explicava parte do silêncio que carregava. Marina
Pouco depois da meia-noite, um ruído veio do corredor do escritório. Marina encontrou Dante sozinho, com o rosto contraído e a mão apertando o apoio da cadeira.
— O que aconteceu?
— Nada. Volte para o quarto.
Ela percebeu o suor frio na testa dele.
— Está sentindo dor?
— Não preciso de plateia.
— Ótimo. Porque eu também não gosto de assistir a homem teimoso sofrendo.
Dante tentou responder, mas uma nova onda de dor o fez prender a respiração. Marina se ajoelhou ao lado da cadeira, sem tocá-lo.
— Posso chamar o doutor Henrique?
Ele hesitou e assentiu.
O médico atendeu por telefone, orientou a equipe e pediu que Dante fosse avaliado, pois a dor intensa precisava de atenção.
Marina permaneceu perto enquanto Teresa providenciava o transporte. No hospital, exames afastaram uma complicação aguda, e Henrique ajustou o plano de tratamento.
De volta à mansão, já perto do amanhecer, Dante encontrou Marina na cozinha preparando chá. Ela tinha olheiras profundas e segurava uma caneca com as duas mãos.
— Você deveria estar dormindo — disse ele.
— O senhor também.
— Não consigo.
Marina colocou outra caneca sobre a mesa.
— Quer conversar?
Dante olhou para o chá, depois para ela.
— Antes do acidente, eu dirigia meus próprios carros. Corria na praia. Entrava em qualquer sala sem pensar em portas ou escadas. Depois, até tomar banho virou uma negociação com o meu corpo.
Marina escutou sem interromper.
— As pessoas passaram a falar mais alto comigo, como se minhas pernas tivessem levado minha inteligência. Ou falavam baixo, como se eu estivesse morrendo. Verônica ficou. Achei que isso bastava.
— Bastava para quê?
— Para acreditar que alguém ainda podia querer ficar ao meu lado.
Marina sentiu o coração apertar. O homem diante dela tinha dinheiro, seguranças e influência suficiente para assustar uma cidade. Mas falava como alguém que esperava ser abandonado a qualquer momento.
— O senhor não precisa merecer companhia sendo poderoso — respondeu.
Dante a encarou.
— Você fala como se fosse simples.
— Não é simples. Minha mãe está doente e eu passo as noites fazendo contas impossíveis. Mas sei uma coisa: perder o movimento das pernas não significa perder o direito de ser feliz.
Ele baixou os olhos. Por um momento, não encontrou nenhuma resposta que não soasse pequena.
— Você me chama de senhor quando está brava — observou.
— E como deveria chamar?
— Dante.
Marina repetiu o nome, devagar.
— Dante.
A maneira como ela o pronunciou foi mais íntima do que qualquer gesto. Ele desviou o olhar para a janela, tentando esconder um sorriso.
Nos dias seguintes, o tratamento de Rosa avançou.
Marina acompanhou consultas, reuniu documentos e recebeu explicações claras dos médicos.
Pela primeira vez em meses, a mãe tinha uma perspectiva concreta de cirurgia.
Dante não tentou acompanhar cada passo. Limitou-se a perguntar, uma vez por dia, como Rosa estava. Marina começou a esperar por essa pergunta, embora fingisse que não.
Certa tarde, ele a encontrou no jardim tentando alcançar um livro preso entre os galhos de uma árvore baixa.
O vento o arrancara de suas mãos.
Dante manobrou a cadeira até perto do tronco e usou uma haste de jardinagem para derrubá-lo.
— Um mafioso resgatando livros — provocou Marina. — Isso vai acabar com sua reputação.
— Minha reputação já foi destruída por uma mulher que me manda tomar chá.
Ela riu. O som ficou com ele muito depois que Marina voltou para dentro.
Mas a tranquilidade durou pouco.
No hospital, Rosa recebeu a visita da filha e perguntou por que ela parecia tão cansada.
Marina, finalmente aliviada, mostrou uma fotografia tirada por Teresa no jardim.
Dante aparecia ao fundo, sorrindo discretamente enquanto Marina segurava o livro recuperado.
Rosa pegou o celular. Seu sorriso desapareceu.
— Quem é esse homem?
— Dante Montenegro. Meu patrão. Foi ele quem ajudou com o contrato para sua cirurgia.
O aparelho escorregou das mãos de Rosa sobre o cobertor.
— Montenegro? — repetiu, quase sem voz.
Marina se aproximou, assustada.
— Mãe, está passando mal?
Rosa segurou seu pulso com uma força inesperada.
— Escute bem, filha. Eu conheço esse sobrenome. Conheço o que aquela família é capaz de fazer.
— Do que está falando?
Os olhos de Rosa se encheram de lágrimas antigas.
— Fique longe dessa família, Marina. Antes que seja tarde demais.
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