"A Empregada Que Salvou o Chefe da Máfia de Morrer Afogado" Capítulo 3 — A MULHER QUE SALVOU O MONSTRO
A ambulância levou Dante Montenegro ao hospital sob escolta. Antes de entrar, ele exigiu que uma segunda equipe examinasse Marina.
Ela recusou, dizendo que precisava encontrar a mãe, mas uma tontura a fez se apoiar na porta do veículo. Dante estendeu a mão sem pensar.
— Você mal consegue ficar de pé.
— E o senhor quase morreu. Não precisamos competir.
Ele a encarou, surpreso com a resposta. Mesmo exausta, a garota ainda encontrava coragem para enfrentá-lo.
— Entre — pediu, desta vez sem dar uma ordem. — Depois alguém leva você até sua mãe.
Marina aceitou porque Teresa prometeu telefonar para Rosa. No trajeto, permaneceu sentada diante de Dante, com uma manta sobre os ombros. O homem não tirava os olhos do pequeno corte em seu dedo.
— Foi por causa do cinto? — perguntou.
— Foi por causa de quem colocou o fio.
Dante assentiu lentamente. Aquela distinção importava.
No hospital, Henrique confirmou que Dante precisava permanecer em observação por causa da aspiração de água e das complicações respiratórias possíveis.
Marina recebeu atendimento por exaustão, pequenas lesões e exposição prolongada à água. Quando a liberaram, ela encontrou Rafael no corredor.
— Precisamos do seu depoimento — explicou ele. — A polícia já está investigando.
Marina descreveu tudo: o relógio desaparecido, a demissão, a ameaça de Verônica, a barra submersa, Marcelo junto à cadeira. Rafael anotou cada detalhe sem interrompê-la.
— Você acha que vão acreditar em mim? — perguntou ela.
— Eu acredito no que pode ser comprovado. E já encontramos motivos para levar suas palavras muito a sério.
Na mansão, a perícia retirara a cadeira da piscina. O fio de aço permanecia preso à fivela. O sistema de controle apresentava sinais de adulteração.
A equipe também identificara uma interrupção suspeita nas imagens de duas câmeras, exatamente no período anterior à queda.
Verônica, entretanto, já preparava sua versão.
Na manhã seguinte, apareceu no hospital acompanhada de um advogado e de Beatriz Montenegro, mãe de Dante.
Vestia branco, como se o luto antecipado da noite anterior tivesse sido substituído por uma inocência impecável.
— Aquela menina está mentindo — declarou. — Fez tudo para chamar a atenção do meu noivo.
Beatriz apertou a bolsa contra o colo.
— Uma empregada que chega há onze dias e já provoca um escândalo desse tamanho? Dante, tenha cuidado.
Dante estava na cama, pálido, mas consciente. Seu olhar passou das duas mulheres para Marina, que entrara acompanhada de Teresa para devolver alguns documentos.
— Ela está aqui — anunciou Verônica, apontando. — Pergunte quanto quer para desaparecer.
Marina ficou vermelha.
— Eu não quero dinheiro para desaparecer. Quero que parem de me acusar de crimes que não cometi.
— Veja como fala comigo! — Verônica avançou.
Dante ergueu a mão.
— Basta.
A palavra foi baixa, mas todos se calaram.
— Marina, sente-se — disse ele.
— Prefiro ficar em pé.
Pela primeira vez, o canto da boca dele quase se moveu.
— Como quiser.
Rafael entrou com uma pasta. Explicou que os investigadores haviam encontrado o fio, documentado o mecanismo adulterado e identificado a saída de Marcelo pela garagem de serviço. Não havia prova conclusiva sobre quem dera as ordens, mas a hipótese de acidente perdera força.
Verônica cruzou os braços.
— E isso prova o quê sobre mim?
— Ainda não fiz uma acusação — respondeu Rafael. — Estou apresentando fatos.
Dante observou o rosto da noiva. Conhecia seus gestos havia anos. Ela costumava atacar quando se sentia encurralada. Naquela manhã, atacava sem parar.
— Por que obrigou Marina a entrar na piscina? — perguntou.
— Não obriguei ninguém.
— Ela diz que você ameaçou o tratamento da mãe dela.
— Uma fantasia ridícula!
Marina deu um passo à frente.
— A senhora disse que podia fazer uma ligação e impedir minha mãe de ser atendida. Eu não sabia se era verdade. Só sabia que ela podia morrer.
Beatriz desviou o olhar. Teresa, junto à porta, confirmou ter tentado interromper a apresentação. A governanta também relatou que Marina pedira para sair da casa após a demissão.
Dante passou as mãos pelo lençol. Uma vergonha desconhecida lhe apertou o peito. Ele, que desconfiava de todos, acreditara na acusação mais conveniente sem pedir uma única prova.
— Marina — chamou. — Eu errei.
Ela permaneceu imóvel.
— Acusei você injustamente. Demiti você sem investigar. Peço desculpas.
Verônica soltou um som indignado.
— Você está pedindo desculpas a uma empregada?
— Estou pedindo desculpas à mulher que salvou minha vida.
Marina sentiu os olhos arderem. Não era o dinheiro que esperava ouvir. Era aquilo. O reconhecimento de que tinha um nome, uma história e dignidade.
— Obrigada — respondeu. — Mas um pedido de desculpas não apaga o que aconteceu.
— Eu sei.
Dante pediu que Rafael convocasse os funcionários e os convidados que ainda estavam prestando esclarecimentos, respeitando a investigação policial. Por meio de
— Essa mulher salvou a minha vida — declarou. — Quem a humilhar estará me desrespeitando.
Na porta, Beatriz permaneceu calada. Durante anos, vira o filho impor medo sem demonstrar arrependimento.
Agora ele admitia uma injustiça diante de todos. Não sabia se aquilo era sinal de fraqueza ou de uma força que jamais conhecera nele.
Marina observou a tela e sentiu um desconforto inesperado. Era bom ser defendida. Mas não queria que seu valor dependesse de pertencer à proteção de um homem poderoso.
Quando a chamada terminou, ela se aproximou da cama.
— Eu agradeço o que fez. Mas não sou propriedade sua, Dante.
Ele pareceu surpreso ao ouvir o próprio nome sem título.
— Não disse que era.
— Então não deixe que as pessoas me respeitem só porque têm medo do senhor.
Dante ficou em silêncio. Havia recebido ameaças, bajulações e declarações de fidelidade. Ninguém lhe fizera um pedido tão simples e tão difícil.
— Vou tentar fazer melhor — respondeu.
Marina assentiu. Não era uma promessa perfeita, mas parecia verdadeira.
Naquela tarde, Teresa acompanhou a jovem ao hospital onde Rosa estava internada. A mãe abraçou a filha com a pouca força que tinha.
— Você está gelada, meu amor. O que aconteceu?
Marina contou apenas que sofrera um acidente no trabalho e estava bem. Não queria assustá-la antes da cirurgia. Rosa acariciou seu cabelo como fazia quando ela era pequena.
— Nenhum emprego vale sua vida, filha.
Marina fechou os olhos. Pensou em Dante afundando, na mão dele segurando sua manga, na pergunta que fizera ao acordar: quem o salvou?
Na mansão, Rafael examinava documentos antigos.
O especialista em segurança contratado para analisar a cadeira fizera uma observação inquietante: o fio usado na trava tinha uma composição incomum, empregada em equipamentos industriais específicos.
Rafael procurou os registros da explosão que deixara Dante paraplégico dois anos antes. Uma fotografia da perícia mostrava um pedaço de cabo metálico encontrado perto do mecanismo adulterado do veículo.
Os materiais não eram prova de uma mesma autoria, mas a semelhança exigia investigação.
À noite, Rafael entrou no quarto de Dante e colocou as imagens lado a lado.
— Precisamos reabrir tudo — disse.
Dante examinou as fotografias. Sua mão se fechou sobre o lençol.
— Você acha que tentaram terminar o serviço?
— Acho que alguém pode ter tentado matar o senhor duas vezes.
Dante olhou para a porta, onde Marina aparecera para se despedir antes de voltar para casa. Pela primeira vez, a ideia de perdê-la lhe pareceu mais assustadora do que a ameaça contra si mesmo.
E, em algum lugar de São Paulo, Marcelo Farias desligou um telefone descartável depois de receber uma mensagem de apenas quatro palavras:
“Ela também viu tudo.”
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