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"As Paredes Têm Ouvidos" Capítulo 4 — A MENTIRA QUE DESTRUIU UMA MÃE

正文开头

Dante também pediu a Rafael que verificasse se algum funcionário havia sido ameaçado para permanecer calado.

O segurança admitiu que, naquela época, recebera ordens para restringir o acesso dos empregados ao escritório principal.

Não sabia do desaparecimento, insistiu, mas agora compreendia que o isolamento facilitara abusos.

Dante não o absolveu nem o condenou naquele instante. Determinou que todas as mensagens antigas fossem preservadas e entregues à polícia.

Naquela casa, cada pessoa parecia carregar um fragmento da mesma noite, e o fragmento mais perigoso era justamente aquele que ninguém ousara mostrar.

— Quero saber por que minha esposa estava com Marina naquela noite — disse Dante.

Camila desligou a tela. A delegada não parecia surpresa com a pergunta, mas não permitiria que o bilionário conduzisse a investigação como uma reunião de diretoria.

— Vamos ouvi-la formalmente. Antes, precisamos preservar a gravação original e verificar a identidade do motorista.

Dante concordou. Sua vontade era atravessar o corredor e exigir respostas. Em vez disso, permaneceu sentado, com os punhos fechados sobre a mesa. Uma acusação precipitada poderia destruir o caso.

Beatriz Montenegro chegou pouco antes do almoço. Usava pérolas e um tailleur impecável. Ao entrar, encontrou Sofia desenhando com Helena na sala de estar. A menina levantou os olhos e ofereceu um sorriso cauteloso.

— Bom dia.

Beatriz examinou o vestido simples e os tênis gastos.

— Quem é essa criança?

— Sofia Oliveira, dona Beatriz — respondeu Helena. — Está sob proteção enquanto a polícia investiga uma situação delicada.

— Oliveira? — A senhora franziu o cenho. — Não é o sobrenome daquela empregada que roubou nossas joias?

Sofia abaixou o lápis. Helena tentou mudar de assunto, mas Beatriz já chamava o filho.

Dante apareceu na entrada da sala.

— Mãe, precisamos conversar em particular.

— Não vou fingir que é normal trazer uma criança desconhecida para esta casa. Verônica me contou que a menina está chamando você de pai. Isso é uma chantagem evidente!

— Sofia não está pedindo dinheiro.

— É assim que começa. Primeiro a pena, depois a exigência. Você construiu um império para entregar tudo a estranhos?

Sofia olhou para a própria roupa. Com os olhos cheios de lágrimas, perguntou baixinho:

— Ser pobre é uma coisa ruim, vovó?

Beatriz ficou imóvel. Helena se ajoelhou ao lado da menina, mas Dante chegou primeiro.

— Não, Sofia. Ser pobre não é vergonha nenhuma. Vergonha é tratar alguém como se valesse menos por não ter dinheiro.

A mãe dele abriu a boca para responder. Dante se levantou.

— Enquanto eu estiver vivo, ninguém vai humilhar essa menina dentro da minha casa.

Beatriz pareceu envelhecer de repente. O filho raramente erguia a voz, sobretudo diante dela. Por um instante, o orgulho impediu qualquer pedido de desculpas.

— Você está escolhendo desconhecidos contra a sua família — murmurou.

— Estou escolhendo não repetir um erro.

Dante levou Sofia até a cozinha e pediu a Helena que ficasse com ela. Depois procurou a mãe no jardim de inverno. Queria contar apenas o que podia, sem comprometer a investigação.

正文1

— Três anos atrás, uma funcionária foi acusada de roubo. Eu não ouvi a versão dela. Agora há indícios de que desapareceu em circunstâncias graves.

Beatriz apertou a bolsa contra o corpo.

— Verônica me disse que aquela moça tinha fugido.

— Disse a todos. Mas não existe prova do furto. E a filha dela estava escondida no nosso depósito.

— Você acha que Verônica mentiu?

Dante demorou a responder.

— Acho que preciso parar de confundir casamento com prova de inocência.

Na delegacia, Camila solicitou os documentos do seguro relativos às joias. A seguradora jamais recebera pedido de indenização. As peças não constavam de nenhum laudo pericial, apenas de uma lista preparada pela própria Verônica.

Rafael ajudou a localizar o cofre particular da esposa, num closet reservado. A abertura exigia autorização judicial, obtida com base nos elementos reunidos. Dante assistiu à operação sem tocar em nada.

Dentro de uma caixa de veludo, os peritos encontraram os brincos de diamante que Marina supostamente roubara. Havia também recibos de avaliação posteriores à data do desaparecimento.

— Então estavam aqui o tempo todo — disse Dante.

Camila fotografou cada peça.

— Isso enfraquece muito a história apresentada contra Marina. Mas ainda precisamos esclarecer quem colocou as joias no cofre e quando.

Verônica voltou à mansão no fim da tarde. Encontrou o closet isolado e reagiu com indignação teatral.

— Você deixou a polícia mexer nas minhas coisas?

— Encontraram os brincos — respondeu Dante.

Ela piscou, mas se recuperou.

— Eu os recuperei depois. Não contei porque não queria reabrir aquele pesadelo.

— E por que não avisou à polícia que Marina talvez fosse inocente?

— Porque não tinha certeza! Você sabe quantas pessoas passam por esta casa?

Dante sustentou o olhar.

— Sei que uma delas desapareceu. E sei que você estava ao lado dela na última imagem que temos.

O rosto de Verônica perdeu a cor. Ela levou a mão à garganta, como se o colar de ouro tivesse ficado apertado demais.

— Você não pode estar falando sério.

— Quero uma explicação.

— Eu a acompanhei para conversar. Ela estava nervosa, queria dinheiro. Depois foi embora. Não tenho culpa se desapareceu.

— Por que não contou isso há três anos?

Verônica começou a chorar. Disse que o marido nunca estava presente, que administrava tudo sozinha, que agora era punida por tentar preservar a reputação da família. Dante reconheceu o velho mecanismo: quando faltavam respostas, surgiam lágrimas e acusações.

— Você poderá contar essa versão à delegada — disse ele.

Ela o encarou com ódio por uma fração de segundo. Depois pegou a bolsa e saiu, prometendo procurar um advogado.

Naquela noite, Sofia recusou o jantar. Sentada na cama, segurava a boneca contra o peito. Dante entrou com uma bandeja de pão de queijo morno e um copo de leite.

— Helena disse que você gosta disso.

A menina aceitou um pedaço, mas não sorriu.

— A senhora ficou brava porque eu sou pobre?

— Ela estava errada. Eu conversei com ela.

— Minha mãe também era pobre — Sofia disse. — Mas ela fazia aniversário para mim com bolo de panela. Ficava gostoso.

Dante se sentou na ponta da cama. Imaginou Marina tentando criar a filha enquanto trabalhava numa casa onde ninguém se dera ao trabalho de ouvi-la. Uma culpa antiga ganhou rosto e nome.

— Sua mãe parece ser muito corajosa.

— Ela é. Quando eu tinha medo, dizia que coragem não era não chorar. Era fazer a coisa certa mesmo chorando.

Sofia ficou pensativa. Então puxou a costura aberta da boneca. De dentro do tecido, retirou um papel dobrado muitas vezes, protegido por um saquinho plástico.

— A tia mandou esconder aqui. Falou que eu só podia mostrar para você quando tivesse certeza de que você ia me proteger.

Dante recebeu o papel com cuidado. Reconheceu uma letra inclinada, parecida com a assinatura de Marina nos registros antigos. Havia uma frase escrita com caneta azul:

“Se eu desaparecer, procure a casa perto do mar.”

No verso, quase apagados pela umidade, apareciam três números e uma palavra: Santos.

Dante ergueu os olhos. Sofia o observava como se toda a esperança do mundo dependesse de sua resposta.

— Nós vamos encontrar essa casa — prometeu.

Do lado de fora, a chuva começou a bater com força nas janelas. Em algum lugar do litoral paulista, alguém talvez ainda estivesse esperando que aquela promessa fosse cumprida.

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