"As Paredes Têm Ouvidos" Capítulo 3 — A EMPREGADA QUE DESAPARECEU HÁ TRÊS ANOS
Antes de a delegada chegar, Helena pediu uma coisa a Dante.
Queria que ele não interrogasse Sofia como se fosse uma testemunha adulta. A criança repetia frases ensinadas pela mãe, mas não compreendia o perigo que as cercava.
Dante prometeu que as perguntas seriam conduzidas por profissionais e que a menina teria tempo para brincar, comer e descansar.
Ao falar, percebeu como aquelas necessidades simples tinham desaparecido de sua própria rotina.
Na empresa, resolvia crises com ordens; diante de Sofia, ordens não serviam. Era preciso oferecer presença.
Helena agradeceu em silêncio, ainda desconfiada.
Ela aprendera que promessas de patrões podiam desaparecer tão depressa quanto o salário de uma empregada injustamente demitida.
Na manhã seguinte, o Jardim Europa despertou sob chuva fina. Dante observou os portões pela janela e se perguntou quantas pessoas haviam passado por ali levando segredos que ele jamais notara.
A casa continuava bela, mas a beleza já não oferecia conforto. Dois carros descaracterizados permaneciam diante da mansão. Dante havia cancelado todas as reuniões. Pela primeira vez em anos, a agenda do grupo Montenegro estava vazia por decisão dele.
Verônica tomou café sozinha na sala de jantar. O marido não descera. Sofia dormia no antigo quarto de hóspedes, com Helena sentada numa poltrona próxima. Rafael organizava as imagens das câmeras para entregá-las à polícia.
Dante entrou na lavanderia pouco depois das oito. Helena dobrava toalhas, mas suas mãos tremiam.
— Preciso que me conte tudo sobre Marina Oliveira — disse ele.
A mulher pousou uma toalha na bancada.
— O senhor não quis ouvir naquela época.
A frase o atingiu mais que uma acusação. Era verdade.
— Eu sei. E não posso mudar isso. Mas posso ouvir agora.
Helena respirou fundo. Marina chegara à casa aos vinte e poucos anos, quando Sofia ainda usava fraldas.
Não morava sempre na mansão; passava algumas noites ali quando os Montenegro recebiam convidados. Nos outros dias, voltava a Santa Cecília.
— Ela trabalhava muito — contou Helena. — Nunca se queixava. Guardava dinheiro para comprar uma casinha e pagar uma escola boa para a filha. Às vezes trazia fotografias da menina para mostrar às outras funcionárias.
— E o roubo?
— Nunca acreditei. Dona Verônica disse que sumiram brincos de diamante, mas ninguém viu Marina pegar nada. Nem deixaram que ela abrisse a própria bolsa diante de uma testemunha.
Helena se lembrou da tarde em que a acusação foi feita. Verônica reunira as empregadas no corredor de serviço e chamara Marina de oportunista. A jovem chorara, insistindo que jamais tocara nas joias.
— Ela pediu para não perder o emprego — continuou Helena. — Falou que a filha precisava dela. Dona Verônica respondeu que gente como nós devia agradecer por entrar numa casa daquelas.
Dante fechou os olhos. Conseguia imaginar a cena, mas o pior era saber que nada fizera para impedi-la.
— Por que você não me procurou?
— Procurei. Deixei um bilhete na sua mesa. No dia seguinte, dona Verônica disse que o senhor tinha lido e não queria mais ouvir o assunto.
Dante sentiu um gosto amargo na boca. Não lembrava de bilhete algum. Lembrava apenas de ter assinado documentos entre dois voos.
— Marina parecia assustada antes de desaparecer?
— Muito. Ficava na lavanderia depois do expediente, mexendo num computador antigo. Uma noite, me pediu que, se alguma coisa acontecesse, eu não acreditasse na primeira história que contassem.
— Ela explicou por quê?
— Disse uma frase que nunca esqueci: 'A verdade está dentro desta casa.'
Dante pediu que Helena escrevesse tudo para a delegada. Quando saiu da lavanderia, encontrou Beatriz Montenegro ao telefone, exigindo saber por que a polícia estava revistando o imóvel. Ele prometeu conversar depois. Não permitiria que outra voz abafasse Helena.
No escritório, Rafael projetou os arquivos antigos de segurança. A gravação da noite em que Marina desaparecera estava incompleta: duas câmeras ficaram fora do ar durante dezessete minutos.
— Foi registrada uma manutenção emergencial — explicou Rafael. — O pedido veio da administração da residência.
— Você aprovou?
— Eu estava acompanhando uma viagem sua ao Rio. Meu substituto assinou o acesso dos técnicos.
Dante olhou para a janela. O jardim perfeitamente aparado parecia uma encenação de tranquilidade. Quantas vezes atravessara aquela casa sem perceber o que acontecia a poucos metros dele?
Em outro ponto da cidade, Verônica entrou num escritório reservado da Vila Olímpia. Augusto Ferraz a aguardava de pé, diante de uma parede de vidro. Era o principal concorrente de Dante no setor de logística.
— A menina apareceu — disse ela, sem cumprimentá-lo.
Augusto se virou lentamente.
— Você me garantiu que ninguém chegaria perto dela.
— Alguém a colocou dentro da mansão. E ela sabe dos aparelhos.
— Como uma criança de cinco anos sabe disso?
— Marina ensinou alguma coisa. Não sei quanto.
Augusto bateu a mão na mesa.
— Eu avisei que aquela empregada tinha copiado arquivos demais! Você preferiu acreditar que o problema estava resolvido.
— Fale mais baixo.
— O problema está dentro da casa do seu marido, Verônica. Você entende o tamanho disso?
Ela se aproximou, fria.
— Entendo que você recebeu milhões graças às informações que consegui. Não tente colocar tudo nas minhas costas.
Augusto desviou o olhar. Por trás da arrogância, havia medo. O acordo entre os dois dependia de uma coisa: Dante jamais poderia descobrir a origem das informações vazadas.
Enquanto isso, Camila Nogueira pesquisava os registros do desaparecimento. Não havia pedido formal de demissão assinado por Marina.
Existia apenas uma declaração apresentada por Verônica e um boletim de ocorrência sobre joias supostamente furtadas.
— O documento não prova que ela roubou nada — explicou a delegada a Dante. — E a investigação foi encerrada sem localizar a suspeita.
— Como alguém desaparece por três anos sem que ninguém procure?
— Alguém procurou. Uma vizinha registrou preocupação, mas o endereço de Marina foi alterado no sistema. Estamos verificando quem forneceu a informação.
Dante pediu uma fotografia antiga da funcionária. Helena encontrou uma num álbum de festa junina dos empregados. Marina sorria, segurando Sofia ainda bebê. Havia farinha de milho na ponta do nariz da criança.
Dante levou a foto ao quarto. Sofia acordara e observava a chuva pela janela. Quando viu a imagem, correu até ele.
— Mamãe!
A palavra saiu como um grito feliz e desesperado ao mesmo tempo. Sofia beijou o rosto da fotografia, depois olhou para Dante.
— Você sabe onde ela está?
— Ainda não, princesa. Mas agora sei por onde começar.
— Ela falou que você era bravo — contou a menina. — Mas disse que, se eu chamasse você de papai, ia parar para me ouvir.
Dante ficou sem palavras. A mulher que ele deixara ser expulsa conhecia tão bem sua frieza que precisara inventar uma maneira de vencê-la.
À tarde, Camila voltou com uma imagem recuperada do sistema de acesso lateral. A câmera não mostrava o rosto de Marina, mas registrava sua saída pela porta de serviço na noite do desaparecimento.
Ao lado dela caminhava uma mulher de vestido claro, perfeitamente reconhecível. A mulher segurava o braço da empregada e a conduzia até um carro preto estacionado fora do alcance da câmera principal.
Dante aproximou o rosto da tela. Não havia dúvida.
Era Verônica.
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