"As Paredes Têm Ouvidos" Capítulo 2 — O SEGREDO ESCONDIDO DENTRO DAS PAREDES
Na escada, Dante encontrou uma fotografia antiga do casamento pendurada entre dois quadros.
Verônica sorria ao lado dele, impecável, enquanto ele atendia uma ligação mesmo durante a festa.
Lembrou-se de ter acreditado que uma vida bem administrada era o mesmo que uma vida feliz. Não sabia mais quando começara a delegar à esposa todas as decisões sobre as pessoas que trabalhavam ali.
A descoberta o incomodou de uma maneira inesperada: talvez a traição tivesse prosperado porque ele jamais perguntava o que acontecia depois que fechava a porta do escritório.
A menina, com uma boneca remendada, havia feito em minutos o que ninguém conseguira em anos: obrigá-lo a prestar atenção.
— Ninguém sai desta casa até eu entender o que está acontecendo — ordenou Dante.
A voz dele não se elevou. Não precisava. Rafael Moura, chefe da segurança havia seis anos, interrompeu a ligação e voltou ao depósito. Verônica permaneceu perto da porta, imóvel, como se calculasse a distância até a escada.
— Abra aquela grade — disse Dante, apontando para o teto.
Rafael buscou uma escada portátil. Sofia observava tudo sentada no colo de Helena. O barulho da chave de fenda fez a menina se encolher, mas ela não desviou os olhos.
— Talvez seja apenas um sensor antigo — comentou Verônica. — Você está transformando uma fantasia infantil em espetáculo.
O parafuso caiu no chão. Rafael retirou a grade e encontrou, preso por fita preta, um objeto do tamanho de uma moeda grossa. Havia uma pequena antena e um indicador luminoso.
— É um microfone sem fio — disse ele.
Verônica levou a mão ao peito.
— Meu Deus. Quem faria uma coisa dessas?
Dante não respondeu. O aparelho estava limpo. Alguém o verificava regularmente. O segurança desligou o transmissor, colocou-o num saco transparente e avisou que não deveriam tocar em mais nada antes da chegada da polícia.
— Quantos podem existir? — perguntou Dante.
— Não sei, senhor. Vou preservar as gravações das câmeras e isolar os acessos.
— Faça isso. E chame a delegada Camila Nogueira. Ela investigou a invasão dos nossos servidores no ano passado.
Verônica reagiu depressa.
— Você vai envolver a polícia por causa de um aparelho? Pense nos acionistas. Amanhã essa história estará em todos os jornais.
— Se alguém escuta minhas conversas dentro de casa, os acionistas já estão em risco.
Ele se aproximou de Sofia.
— Você sabia que aquilo estava ali?
— A mamãe mostrou um parecido. Disse que a casa tinha orelhas.
— Quando ela mostrou?
— Antes de ir embora.
A resposta caiu sobre a sala como um objeto pesado. Helena apertou a mão da menina. Verônica desviou o rosto e começou a digitar no celular.
— Guarde esse telefone — pediu Dante.
— Agora você vai controlar com quem eu falo?
— Quero que ninguém avise possíveis envolvidos antes da perícia.
— Está me acusando?
— Estou pedindo que colabore.
Verônica guardou o aparelho, mas a expressão de ofensa não escondia o medo. Dante a conhecia havia quase uma década. Ela costumava transformar qualquer pergunta difícil numa discussão sobre confiança. Naquela noite, a estratégia parecia velha demais.
A delegada chegou quarenta minutos depois, acompanhada de dois peritos. Camila Nogueira cumprimentou Dante sem cerimônia e se ajoelhou diante de Sofia.
— Oi, Sofia. Sou Camila. Você está segura agora. Não precisa responder nada que não queira.
A menina apertou a boneca e olhou para Dante, pedindo permissão. Ele assentiu.
— Minha mãe dizia para não falar perto das paredes — contou Sofia. — Só no quintal, onde tinha vento.
Camila pediu a Helena que levasse a criança para a cozinha e providenciasse uma refeição quente. Depois ordenou que a equipe documentasse o depósito antes de prosseguir para outros cômodos.
O segundo microfone apareceu atrás de uma moldura no escritório. O terceiro, sob a mesa onde Dante assinava contratos. Um quarto estava instalado no quarto do casal, atrás da cabeceira estofada.
Dante contemplou o último aparelho por vários segundos. Lembrou-se de noites em que discutira com advogados, de telefonemas com o banco e de conversas particulares com a própria mãe. Tudo aquilo podia ter sido ouvido por desconhecidos.
— Alguém conhecia a rotina da casa — observou Camila. — E tinha acesso contínuo aos ambientes.
— Temos dezenas de empregados, fornecedores, prestadores de serviço — respondeu Verônica. — Qualquer um poderia ter feito isso.
— Por isso vamos investigar todos os acessos — disse a delegada.
Rafael apresentou os registros da reforma realizada três anos antes. A empresa contratada instalara um novo sistema de ventilação e substituíra parte da fiação. Uma nota de manutenção, porém, não correspondia ao projeto oficial.
— Este serviço foi solicitado diretamente pela administração da residência — explicou ele.
— Quem era responsável? — perguntou Dante.
Rafael demorou um segundo além do necessário.
— A senhora Verônica autorizava os serviços domésticos naquele período.
— Como qualquer esposa que administra uma casa! — ela rebateu. — Isso não significa que eu saiba o que cada técnico fez.
Camila pediu cópias de todos os contratos. Um perito fotografou uma etiqueta escondida no compartimento do escritório. O número de série indicava a compra de um lote inteiro de transmissores.
Na cozinha, Sofia já havia tomado sopa. Dante foi vê-la antes de voltar ao interrogatório. A menina o recebeu com uma pergunta que ele não soube responder.
— Você vai encontrar minha mãe hoje?
— Vou fazer tudo o que puder.
— A tia disse que homem importante sempre está ocupado.
Dante sentou ao lado dela.
— Hoje não estou ocupado demais para você.
Sofia abriu um sorriso tímido. Depois abaixou a cabeça.
— A moça bonita disse que minha mãe roubou coisas daqui.
— Que moça?
A menina apontou para a porta. Verônica passava pelo corredor com um copo de água.
— Ela. Disse que mamãe era ladra e que ninguém acreditaria na gente.
Dante sentiu o estômago contrair. A palavra ladra despertou uma lembrança que ele mantivera enterrada sob reuniões e viagens: Marina Oliveira, uma antiga funcionária acusada de furtar joias.
Três anos antes, Verônica lhe mostrara um boletim de ocorrência e dissera que a moça fugira durante a madrugada. Ele assinara a autorização para dispensá-la sem sequer pedir para ouvir sua versão.
— Helena — chamou. — Marina Oliveira tinha uma filha?
A empregada ficou pálida.
— Tinha, sim, senhor. Uma bebezinha. Chamava Sofia.
Verônica deixou cair o copo. O vidro se partiu no piso de mármore. Ninguém se moveu até Camila entrar, atraída pelo barulho.
— Encontramos uma coisa importante — anunciou a delegada.
Na tela de um tablet, ela mostrou o histórico técnico recuperado de um dos dispositivos. Havia datas de ativação, manutenção e sincronização. A primeira instalação ocorrera três anos antes.
Dante leu o dia e o mês. Era exatamente a semana anterior ao desaparecimento de Marina Oliveira.
— A menina não veio aqui por acaso — disse ele.
Camila não confirmou nem negou. Apenas ampliou a imagem do registro e apontou para uma assinatura digital ainda não identificada.
Do outro lado da cozinha, Verônica apertou tanto o copo de água que restara em sua mão que os dedos ficaram brancos. Dante percebeu que sua esposa reconhecera alguma coisa naquela tela.
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