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"As Paredes Têm Ouvidos" Capítulo 1 — A MENINA QUE CHAMOU O BILIONÁRIO DE PAPAI

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Dante Montenegro ouviu o choro antes de tirar o paletó. Era um som pequeno, quase engolido pelo corredor do segundo andar. Na mansão do Jardim Europa, onde até os relógios pareciam pedir licença para funcionar, uma criança chorando era algo impossível.

Ele havia voltado de Lisboa sem avisar. O motorista deixara as malas no hall; os empregados, surpresos, tinham se espalhado para anunciar sua chegada. Dante dispensou todos com um gesto. Queria apenas encontrar a esposa e dormir.

Então ouviu outra vez: um soluço, seguido do ruído de alguma coisa arrastada pelo chão. Vinha do antigo depósito, ao lado do quarto de hóspedes. Aquela porta permanecia trancada desde a reforma de três anos antes.

Dante girou a maçaneta. A porta cedeu.

Entre caixas cobertas por lençóis, uma menina se encolhia atrás de uma poltrona quebrada. Devia ter cinco anos. Usava um vestido amarelo amarrotado, um tênis sem cadarço e abraçava uma boneca de pano com um olho costurado.

Dante havia comprado aquela propriedade para oferecer segurança à família. Os muros eram altos, as câmeras modernas, e cada visitante precisava deixar documento na portaria.

Mesmo assim, ninguém parecia saber como uma menina entrara no andar superior. Pensou no que diria aos investidores se um estranho tivesse atravessado o mesmo caminho até seu escritório.

A preocupação empresarial durou pouco: o soluço voltou, e ele compreendeu que não estava diante de uma falha abstrata de segurança. Havia uma criança real esperando ajuda, com medo de fazer barulho.

— Ei — disse ele, sem avançar. — Você está machucada?

A menina ergueu o rosto. Os olhos castanhos estavam vermelhos de tanto chorar. Por um instante, pareceu reconhecer o homem que nunca vira pessoalmente.

— Papai…

Dante sentiu o corpo inteiro endurecer.

— O quê?

Ela saiu de trás da poltrona, tocou de leve o rosto dele e olhou para o teto.

— A mamãe disse que você escuta tudo.

— Quem é sua mãe? Como você entrou aqui?

A menina levou um dedo aos lábios. Não era uma brincadeira. Era medo.

— Ela falou que eu tinha que esperar você. Só você.

Passos apressados atravessaram o corredor. Verônica Montenegro apareceu à porta usando um conjunto de seda azul-clara. O sorriso que preparava desapareceu quando viu a criança.

— Dante! Você voltou? — Ela se recompôs depressa. — Meu amor, que susto! Estávamos resolvendo um problema com uma invasora.

— Uma invasora de cinco anos?

— A filha de alguém da vizinhança. Deve ter entrado pelo portão de serviço. Rafael já ia levá-la embora.

A menina agarrou a barra da calça de Dante.

— Não deixa ela me levar, papai!

Verônica empalideceu. O silêncio que se seguiu pareceu mais alto que o choro.

— Que absurdo! — ela exclamou. — Está vendo? Ensinaram essa criança a mentir. É algum golpe contra a nossa família.

Dante se abaixou até ficar na altura da menina.

— Como você se chama?

正文1

— Sofia.

— Sofia de quê?

Ela hesitou. Seus dedos apertaram a boneca até os nós ficarem brancos.

— Oliveira — respondeu quase sem voz.

Verônica deu um passo involuntário para trás. Dante percebeu. Era um sobrenome comum, mas a reação da esposa não tinha nada de comum.

— Rafael! — gritou Verônica para o corredor. — Tire essa menina daqui imediatamente!

O segurança apareceu, acompanhado de uma empregada. Antes que ele se aproximasse, Dante ergueu a mão.

— Ninguém toca nela.

— Dante, você não entende o risco. Pode haver pessoas esperando do lado de fora. Ela pode estar carregando alguma coisa!

— Então vamos descobrir. Mas não vamos expulsar uma criança assustada no meio da noite.

Ele pegou Sofia no colo. Ela se agarrou ao pescoço dele com tanta força que Dante sentiu o coração disparar. Não tinha filhos. Não sabia o que fazer com aquele peso leve, nem com a confiança desesperada depositada nele.

— Helena — chamou à empregada. — Traga água, alguma coisa para ela comer e um cobertor limpo.

A mulher mais velha ficou imóvel ao ouvir o sobrenome. Os olhos se encheram de lágrimas, mas ela apenas assentiu.

Verônica cruzou os braços.

— Você vai acreditar nessa menina em vez de acreditar na sua esposa?

— Ainda não estou acreditando em ninguém. Estou fazendo perguntas.

— É exatamente assim que começam as chantagens. Uma criança aparece, chama um homem rico de pai e amanhã alguém exige milhões.

Sofia enterrou o rosto no ombro de Dante.

— Eu não quero dinheiro — murmurou. — Quero minha mãe.

Dante sentiu vergonha de não ter pensado nisso antes. Quem deixaria uma menina sozinha em um depósito escuro? E por que ninguém o avisara, mesmo sabendo que ele estava voltando?

— Onde está sua mãe, Sofia?

— Não sei. Faz muito tempo que ela não vem. A tia falou que eu precisava ser corajosa.

— Que tia?

A menina abriu a boca, mas a voz de Verônica a interrompeu.

— Isso já passou dos limites. Rafael, ligue para a polícia e diga que encontramos uma criança abandonada. Não quero esse assunto na imprensa.

— A polícia virá — disse Dante. — E você não vai decidir sozinha o que será dito.

Verônica o encarou como se tivesse levado um tapa. Durante nove anos de casamento, ele jamais a contradissera diante dos funcionários. O rosto dela endureceu, embora a voz permanecesse doce.

— Estou tentando proteger você, meu amor.

— Então comece me dizendo por que a porta estava destrancada e por que essa criança estava escondida aqui.

Verônica olhou para Rafael. O segurança desviou os olhos. Era um movimento mínimo, mas Dante conhecia homens acostumados a mentir por obrigação. Aquele desvio lhe disse que havia uma conversa anterior.

Helena voltou com um copo de água e pão com manteiga. Sofia comeu depressa, olhando para a porta a cada mordida. Quando a empregada tentou ajeitar seus cabelos, a menina reconheceu algo em seu rosto.

— Você conhece minha mamãe?

Helena levou a mão à boca.

— Eu… conheci uma moça com esse sobrenome.

— Helena! — Verônica disparou. — Não confunda a criança.

Dante colocou Sofia sentada na poltrona menos empoeirada e se voltou para a esposa.

— Basta. Quero conversar com Helena sem interrupções.

— Você está me humilhando na minha própria casa.

— Esta também é a casa onde uma criança ficou trancada, Verônica. A prioridade mudou.

Rafael recebeu uma ligação e saiu para atendê-la. Dante notou que ele fechou a porta do corredor com cuidado demais. Por que uma ocorrência doméstica exigia tantos segredos?

Sofia terminou o pão, mas não soltou a boneca. Dante perguntou se queria descansar em um quarto confortável. Ela balançou a cabeça, apavorada.

— Não posso dormir aqui. Ela ouve quando eu falo.

— Quem ouve?

A menina apontou para cima. Dante acompanhou o gesto até a grade estreita da ventilação. O metal tinha um parafuso mais novo que os outros. Uma luz quase invisível piscou atrás da sombra.

Verônica se aproximou imediatamente.

— Crianças inventam coisas. Você sabe disso.

Sofia segurou o rosto de Dante com as duas mãos, obrigando-o a olhar apenas para ela.

— Papai… ela está ouvindo a gente agora.

Dante levantou os olhos para a grade. Pela primeira vez, teve a sensação de que não estava sozinho dentro da própria casa.

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