"Meu Marido Me Deu Um Tapa Por Sua Ex… 12 Horas Depois, Eu Desapareci Com Nossa Filha!" Capítulo 4 — Quarenta e Nove Ligações Não Apagam Um Tapa
Ricardo chegou ao edifício do Grupo Albuquerque pouco antes do almoço. Vestia o terno cinza que Marina costumava elogiar, mas seu rosto mostrava uma noite sem dormir.
Na recepção, pediu para falar com a esposa.
— A senhora Marina está em reunião — informou a atendente.
— Diga que é o marido dela.
A recepcionista consultou a agenda.
— O senhor tem horário marcado?
— Não preciso marcar horário para falar com minha mulher.
— Neste edifício, todos os visitantes precisam de autorização.
Ele estava prestes a insistir quando Camila apareceu.
— Senhor Vasconcelos, a doutora Marina concordou em recebê-lo por quinze minutos. O advogado dela participará por chamada.
Ricardo franziu a testa.
— Não preciso de plateia para conversar com minha esposa.
— Então o encontro não acontecerá.
Ele apertou os lábios e acompanhou Camila.
Marina o esperava numa sala menor, com paredes de vidro fosco. Sobre a mesa estavam uma garrafa de água e um envelope.
Ricardo parou na porta. A marca no rosto dela estava mais discreta, mas ainda visível.
— Marina...
— Sente-se, por favor.
A formalidade o atingiu como uma ofensa.
— Você não precisa falar comigo como se eu fosse um cliente.
— Você veio ao meu local de trabalho sem agendar. Estou oferecendo uma conversa breve.
Ele se sentou. André Ribeiro apareceu na tela do computador e se apresentou.
Ricardo ignorou a saudação.
— Por que você não me contou quem era?
Marina manteve as mãos sobre a mesa.
— Eu contei que minha família tinha empresas. Você nunca quis saber mais.
— Isso é diferente de ser herdeira de um império!
— E o que mudaria se você soubesse?
Ricardo abriu a boca, mas não encontrou resposta.
— Você me deixou pensar que eu sustentava tudo sozinho.
— Eu contribuía com minhas economias, cuidava da nossa filha e administrava nossa casa. Nunca disse que não tinha recursos.
— Você deveria ter confiado em mim.
Marina olhou diretamente para ele.
— Confiança? Você me bateu sem ouvir uma palavra minha.
Ricardo desviou os olhos.
— Eu perdi a cabeça. A Verônica estava chorando, todos estavam olhando...
— E você escolheu me agredir.
— Não foi assim que eu quis dizer.
— Foi exatamente o que aconteceu.
Ricardo respirou fundo.
— Desculpa. Eu não deveria ter feito aquilo.
Era o primeiro pedido de desculpas direto desde a noite do restaurante. Marina o ouviu sem interromper.
— Obrigada por reconhecer. Isso não muda minha decisão.
Ela empurrou o envelope na direção dele.
— São os documentos iniciais do divórcio. André vai explicar os próximos passos.
— Você quer destruir nossa família por causa de uma noite?
Marina sentiu a velha vontade de justificar cada escolha. De encontrar palavras que não o irritassem. Mas aquela mulher já não comandava sua vida.
— Não foi uma noite. Foram três anos de ausências, mentiras e humilhações. Aquela noite apenas tornou impossível continuar fingindo.
— E a Lívia? Você pensou nela?
— Penso nela em cada decisão.
— Ela precisa do pai!
— Sim. Precisa de um pai que respeite a mãe dela e saiba agir sem violência.
Ricardo bateu a palma na mesa.
— Não vou aceitar que me afastem da minha filha!
Marina não se moveu.
— Ninguém está propondo isso. Mas você não vai usar a Lívia para me obrigar a voltar.
Ricardo baixou a mão. Pela primeira vez, pareceu perceber o medo que seu gesto poderia provocar.
— Eu só quero conversar com ela.
— Vamos organizar isso com orientação adequada. Ela também precisa de tempo para entender a mudança.
Ricardo encarou o envelope fechado.
— Você já decidiu tudo.
— Decidi que não serei mais sua esposa. O restante será resolvido com responsabilidade.
Ao sair da sala, Ricardo encontrou Gabriel Monteiro no corredor. O advogado carregava uma pasta de contratos e cumprimentou Marina com naturalidade.
— A equipe técnica confirmou a reunião das duas, Marina. Preparei as cláusulas que você pediu.
— Obrigada, Gabriel. Estarei lá.
Ricardo observou a troca.
— Quem é ele?
— Um advogado que trabalha conosco.
— Desde quando vocês são tão próximos?
Gabriel percebeu o tom e se afastou discretamente.
Marina olhou para Ricardo com incredulidade.
— Você acabou de receber um pedido de divórcio e quer fiscalizar meus colegas?
— Só fiz uma pergunta.
— E eu respondi.
Camila apareceu para acompanhá-lo à saída. Ricardo tentou dizer algo mais, mas Marina já havia retornado à sala.
No elevador, ele encarou o próprio reflexo. Imaginara que bastaria aparecer, pedir desculpas e levar a família de volta para Campinas.
Não considerara que Marina pudesse realmente escolher uma vida sem ele.
Enquanto isso, no escritório de Verônica, uma televisão transmitia notícias financeiras. Ela observava a imagem de Marina entrando na sede do grupo.
Augusto Ferraz desligou o aparelho.
— Você disse que essa mulher era uma dona de casa sem influência.
— Era o que Ricardo dizia!
— Ricardo não sabe nada sobre a própria esposa. E você acreditou nele.
Verônica cruzou os braços.
— Podemos pressioná-la pelo projeto.
Augusto abriu uma pasta de relatórios.
— Pressão exige estratégia. Não um escândalo de restaurante.
— Ela está nos investigando.
— Então precisamos fazer os investidores questionarem a credibilidade dela primeiro.
Verônica olhou para o pai.
— O que pretende fazer?
— Você não precisa saber de todos os detalhes.
Na manhã seguinte, Camila entrou apressada no escritório de Marina.
— Temos um problema.
A reportagem não apresentava documentos verificáveis, mas citava fontes anônimas e insinuava irregularidades financeiras.
Marina leu tudo sem falar.
— Eduardo já está verificando a origem — explicou Camila. — O jurídico prepara um pedido de correção e preservação das provas.
— Não vamos responder com insultos — disse Marina. — Vamos responder com documentos.
Eduardo entrou com um relatório preliminar.
— Encontramos a empresa que controla o primeiro portal. Há participação indireta de uma subsidiária ligada ao Grupo Ferraz.
Camila levou a mão à boca.
— Verônica.
Marina ergueu os olhos.
— Pode ser. Mas ligação societária não prova quem ordenou a publicação.
Eduardo assentiu.
— Precisamos seguir o dinheiro e verificar os contratos de publicidade.
Marina caminhou até a janela. Lá embaixo, a cidade seguia seu ritmo, indiferente à tempestade que se formava no andar executivo.
O celular vibrou. Era uma mensagem de Ricardo: “Vi as notícias. Se precisar, posso ajudar.”
Ela não respondeu. Em vez disso, voltou para a mesa.
— Eduardo, quero uma análise das relações comerciais do escritório de Ricardo com o Grupo Ferraz. Comece pelos registros públicos e pelos contratos que possamos obter legalmente.
— Desde quando?
Marina lembrou-se da época em que abandonara a carreira para se casar.
— Desde três anos atrás. Quero saber quem financiou o crescimento daquela firma.
Eduardo anotou a instrução e saiu.
Camila permaneceu perto da porta.
— Você acha que seu casamento e esse ataque têm alguma ligação?
Marina observou a fotografia da filha sobre a mesa.
— Ainda não sei. Mas não vou ignorar nenhuma possibilidade.
Pouco depois, Eduardo enviou uma mensagem: “Encontrei os primeiros registros. Precisamos conversar pessoalmente.”
Marina fechou o notebook.
O passado que ela deixara em Campinas acabava de bater à porta de sua empresa.
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