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"O Chefe da Máfia Se Vestiu de Papai Noel Para Uma Criança Que Não Queria Presente" Capítulo 3 — A Ceia Debaixo da Chuva

正文开头

O primeiro trovão sacudiu os vitrais da igreja pouco depois da meia-noite.

Joana olhou para o teto. Uma gota caiu dentro da panela vazia. Outra atingiu o altar. Em menos de um minuto, a água começou a escorrer por três pontos diferentes.

“Acordem as crianças”, ela ordenou.

A chuva de verão desabou sobre o Morro da Esperança com violência. O vento arrancou uma lona da lateral da igreja e empurrou água pelas janelas quebradas.

Dante havia acabado de entrar no carro quando ouviu o sino tocar repetidamente.

Não era chamada para missa. Era alarme.

Ele voltou correndo, ainda de camisa preta e suspensórios vermelhos. Rafael e os seguranças vieram atrás.

Dentro da igreja, moradores levantavam colchões e carregavam bebês. Joana organizava a saída pelo corredor central.

“Clara!”, Dona Célia gritou.

Joana virou-se.

A filha não estava entre as crianças.

“Ela foi buscar o coelho na sala dos fundos”, disse um menino.

Um estalo veio do alto. Parte do forro cedeu, derrubando ripas e uma grande estrela de madeira usada na decoração.

Joana correu, mas Dante a segurou pela cintura antes que atravessasse a área instável.

“Solte-me!”

“O teto vai cair.”

“Minha filha está lá!”

O grito de Clara veio detrás da estrela tombada.

“Mamãe!”

Dante soltou Joana apenas para passar à frente dela.

“Rafael, tire todos daqui.”

“Dante, não entre.”

Ele já havia entrado.

A água cobria o piso. Fios elétricos balançavam perto da parede, lançando pequenas faíscas. Dante arrancou uma toalha do altar e a enrolou no braço antes de empurrar uma ripa.

Joana passou por baixo do braço dele.

“Eu disse para ficar lá fora.”

“E eu não trabalho para você.”

Encontraram Clara encolhida sob um banco, protegendo um coelho de pano. A estrela de madeira bloqueava sua saída.

Dante levantou uma das pontas. A estrutura era mais pesada do que parecia.

“Pegue-a.”

Joana rastejou. Quando seus dedos tocaram a mão da filha, outra parte do teto gemeu.

“Agora!”, Dante gritou.

Joana puxou Clara. Uma ripa caiu e atingiu o ombro de Dante. Ele perdeu o equilíbrio, mas continuou sustentando a estrela até as duas passarem.

Saíram segundos antes de o forro desabar.

Do lado de fora, Clara abraçou a mãe e chorou. Joana apalpou seus braços, rosto e pernas.

“Você está machucada?”

“O Alfredo estava sozinho.”

Ela mostrou o coelho, molhado e sem uma orelha.

Dante surgiu atrás delas com sangue escorrendo sob a camisa rasgada no ombro.

Clara estendeu a mão para ele.

“Você salvou nós duas.”

“Sua mãe não precisava ser salva. Ela entrou sem permissão.”

Joana segurou o olhar dele.

“Ainda bem que nenhum de nós espera permissão.”

Uma ambulância examinou Dante. Ele recusou ir ao hospital e deixou que o paramédico fizesse um curativo ali mesmo.

O médico insistiu que o corte precisava de pontos. Dante olhou para as famílias reunidas sob a chuva e respondeu que iria depois que todos estivessem abrigados.

正文1

Joana ouviu e se irritou.

“Não transforme irresponsabilidade em coragem.”

“Você entrou comigo.”

“Eu sou mãe dela.”

“E eu era o único forte o bastante para levantar a madeira.”

Clara colocou as mãos na cintura.

“Os dois estão de castigo.”

Algumas pessoas riram, quebrando a tensão. Dante deixou o paramédico fechar o ferimento no interior da ambulância, com a porta aberta para continuar acompanhando o resgate.

Joana levou Clara até o ônibus aquecido. A menina tremia, embora insistisse que não sentia frio.

Dante apareceu com o próprio casaco preto e o colocou sobre os ombros dela.

“Vai estragar”, Joana avisou.

“É um casaco.”

“Deve custar mais que nossa casa.”

“Então finalmente encontrou uma boa utilidade.”

Clara enfiou o rosto na gola grande demais.

“Tem cheiro de você.”

“Isso costuma acontecer com roupas.”

“Cheira a café e homem bravo.”

Joana virou o rosto para esconder o sorriso.

Dante perguntou onde as duas dormiriam. A escola só tinha espaço até a manhã seguinte, e o hotel escolhido pelos moradores ainda preparava os quartos.

“Ficaremos com todos”, Joana respondeu.

“Posso colocar sua mãe e Clara numa suíte agora.”

“Se existe uma suíte, coloque dona Nena e o bebê. Ele está com febre.”

Dante não discutiu. Chamou Rafael e transferiu a vaga para a jovem mãe.

Joana percebeu a mudança: pela primeira vez, ele oferecera algo e aceitara que ela decidisse quem mais precisava.

Não era confiança. Ainda não.

Mas já não parecia apenas caridade feita de cima para baixo.

A tempestade havia destruído a ceia restante. Panelas estavam cheias de água, o arroz espalhara-se pelo chão e os presentes de papelão começavam a desmanchar.

Patrícia ligou oferecendo o serviço do restaurante de um hotel cinco estrelas.

Dante olhou para Joana.

Ela já separava alimentos ainda fechados.

“Quantas pessoas?”, ele perguntou.

“Cento e dezessete.”

“O hotel entrega em quarenta minutos.”

“Em quarenta minutos eu sirvo sopa.”

“Você sempre recusa ajuda?”

“Recuso quando a ajuda chega com câmera.”

Dante desligou o celular e o entregou a Rafael.

“Sem imprensa.”

Depois arregaçou as mangas.

“O que precisa?”

Joana apontou para mesas, fogareiros e caixas.

“Tudo.”

Os faróis dos caminhões iluminaram o pátio. Sob uma grande lona, moradores montaram uma cozinha improvisada. Dante carregou botijões, abriu latas e cortou legumes com a pouca habilidade adquirida naquela noite.

Ninguém o tratou como chefe. Dona Célia mandou que lavasse as mãos de novo. Uma senhora reclamou do tamanho das batatas. Clara exigiu que ele usasse um gorro vermelho limpo.

Ele obedeceu a todas.

Joana o observava quando pensava que ele não percebia.

O homem diante dela não parecia o rosto das placas que haviam cercado sua casa. Ainda era perigoso, rico e acostumado a mandar. Mas carregava pratos de sopa como se aquela fosse a única ordem importante.

“Por que está fazendo isso?”, ela perguntou.

“Porque as pessoas precisam comer.”

“Amanhã suas ações vão cair.”

“Pessoas não comem ações.”

A resposta a desarmou por um instante.

Clara sentou-se entre os dois durante a ceia. Guardara um pedaço de frango no prato.

“É para você”, disse a Dante.

“Eu já comi.”

“É mentira. Você deu o seu para aquele avô.”

Dante aceitou.

Joana cobriu a filha com uma manta. O corpo pequeno começava a pesar de sono.

“Ela gosta de consertar pessoas”, explicou.

“Puxou a você.”

“Eu não estou tentando consertá-lo.”

“Ainda bem. Não gosto de obras demoradas.”

Joana soltou uma risada antes de conseguir impedir. Foi breve, mas Dante a ouviu.

Quando a chuva diminuiu, os moradores transferiram os colchões para o salão de uma escola próxima. Joana voltou à igreja para buscar os pertences da família.

Clara insistiu em procurar uma caixa azul que pertencera ao pai.

“A caixa de ferramentas do papai estava debaixo do armário.”

Dante os acompanhou até a sala dos fundos. Removeram madeira molhada e encontraram uma caixa metálica enferrujada.

Joana passou os dedos sobre o nome PAULO gravado na tampa.

“Eu achei que tivesse sido levada com a casa.”

Dentro havia chaves, alicates, uma trena e um capacete antigo da Montenegro Urbanismo. Clara apertou um botão lateral sem querer.

O fundo falso se abriu.

Ali estava um caderno envolvido em plástico.

Joana reconheceu a letra do marido na primeira página. Eram anotações de inspeções, números de terrenos e nomes de empresas.

As últimas folhas estavam manchadas, mas uma frase permanecia legível.

Se alguma coisa acontecer comigo, procure Marcelo Valença.

Logo abaixo, Paulo havia escrito uma data.

Era a véspera de sua morte.

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