"O Chefe da Máfia Se Vestiu de Papai Noel Para Uma Criança Que Não Queria Presente" Capítulo 2 — Papai Noel Chegou à Comunidade
Dez caminhões vermelhos entraram no Morro da Esperança atrás de um carro blindado preto.
As crianças correram para a rua. Algumas gritavam que o Papai Noel havia chegado. Outras pararam quando reconheceram o símbolo da Montenegro Urbanismo nos veículos de apoio.
Dante desceu ainda vestido de vermelho.
A barra da calça já estava suja. A barba falsa permanecia guardada no bolso. Quatro seguranças cercaram o carro, mas ele ordenou que ficassem para trás.
Clara saltou do ônibus do buffet e correu até ele.
“Você veio mesmo.”
“Eu disse que viria.”
“Adulto fala muita coisa.”
Dante olhou para Joana, que acabava de descer carregando duas caixas de alimentos.
“Ela aprendeu isso com você?”
“Aprendeu vivendo.”
O comboio parou diante da Igreja de São Judas. Colchões ocupavam o corredor central. Roupas molhadas pendiam entre imagens de santos. Famílias inteiras haviam improvisado espaço entre bancos e paredes.
Uma mulher idosa saiu da igreja apoiada em uma bengala. Dona Célia Alves tinha cabelos grisalhos, olhos atentos e um curativo no antebraço.
Clara a abraçou.
“Vó, eu trouxe o Papai Noel.”
Célia examinou Dante da cabeça aos pés.
“Trouxe o dono das máquinas.”
Não houve aplausos quando os funcionários abriram os caminhões. Os moradores observavam os presentes como se fossem uma nova forma de humilhação.
Dante tirou o casaco vermelho e o entregou a Rafael. Por baixo, usava camisa preta e suspensórios da fantasia.
“Distribuam primeiro cobertores, água e alimentos.”
“E os brinquedos?”, Patrícia perguntou.
“Depois.”
Joana entrou na igreja. Dante a seguiu.
O cheiro de umidade misturava-se ao de café ralo. Um bebê chorava dentro de uma caixa forrada com toalhas. Um homem idoso tentava consertar o aparelho de pressão quebrado.
Dante parou diante de uma família que dividia um único colchão.
“Por que ninguém foi levado para a acomodação temporária?”
Joana soltou uma risada sem humor.
“Qual acomodação?”
Ele abriu o relatório no celular.
“Trinta apartamentos mobiliados em Santo Amaro. Transporte, alimentação e auxílio de três meses.”
“Mostre um endereço.”
Dante desceu a página. Havia valores, assinaturas, fotografias e recibos. Nenhum endereço completo.
“As famílias receberam setenta mil reais cada”, ele disse.
Um murmúrio indignado atravessou a igreja.
Dona Célia aproximou-se.
“Se eu tivesse recebido setenta mil reais, minha neta não estaria dormindo atrás do altar.”
Joana abriu uma pasta plástica. Dentro havia notificações de despejo, contas antigas e fotografias das casas.
“Ofereceram cinco mil para cada família. Quem recusou ganhou uma marca vermelha na porta.”
“Nós não pagamos em dinheiro vivo.”
“Seus homens pagaram.”
Dante percebeu Rafael observando as saídas, desconfortável. O problema já não parecia uma falha administrativa. Alguém havia construído um sistema inteiro para roubar sem deixar espaço para perguntas.
“Vou colocar todos em hotéis hoje.”
Joana fechou a pasta.
“Não.”
“Há crianças dormindo no chão.”
“E amanhã?”
“A estadia será mantida enquanto for necessário.”
“Por quem? Pela mesma empresa que prometeu apartamentos que não existem?”
Dante respirou fundo.
“Você prefere manter sua filha aqui para provar uma ideia?”
Joana avançou um passo.
“Não use minha filha para me ensinar a ser mãe.”
Clara surgiu entre os dois segurando um pacote de fraldas.
“Não briguem no Natal.”
Joana se afastou, contendo a raiva.
Dante agachou-se diante da menina.
“Sua mãe não confia em mim.”
“Nem eu.”
“Mas me trouxe até aqui.”
“Porque você tem caminhão.”
Pela primeira vez, Rafael desviou o rosto para esconder um sorriso.
Dante levantou-se.
“Muito bem. Os moradores escolhem o hotel, o transporte e quem administra a hospedagem. O Instituto paga sem exigir assinatura de renúncia.”
Joana o estudou, procurando a armadilha.
“E as máquinas?”
“Continuam paradas.”
“Quero isso por escrito.”
“Você terá.”
Dona Célia bateu a bengala no chão.
“Antes de qualquer hotel, as crianças vão comer.”
A cozinha da igreja tinha apenas duas bocas de fogão. Joana organizou as mulheres, abriu as caixas do buffet e transformou ingredientes destinados a canapés em arroz, frango, farofa e salada.
Dante tentou ajudar.
Ela colocou uma faca em sua mão e apontou para uma pilha de cebolas.
“Sabe cortar?”
“Sei usar uma faca.”
“Não foi o que perguntei.”
Vinte minutos depois, as cebolas tinham tamanhos diferentes e os olhos de Dante lacrimejavam.
Clara riu tanto que quase derrubou um prato.
“O Papai Noel está chorando.”
“É a cebola.”
“Minha mãe fala isso quando não quer contar.”
Joana percebeu Dante pressionando discretamente o ombro ferido. O curativo já estava manchado.
“Sente-se.”
“Estou bem.”
“É o que todo homem diz cinco minutos antes de desmaiar e dar trabalho.”
Ela o levou até uma cadeira, retirou a faixa molhada e limpou o corte com o estojo de primeiros socorros da escola.
Dante contraiu o maxilar quando o antisséptico tocou a pele.
Clara aproximou o rosto.
“Dói?”
“Não.”
“Mentira”, disseram mãe e filha ao mesmo tempo.
As duas se entreolharam. Dante quase sorriu.
Joana refez o curativo com mãos firmes.
“Paulo também dizia que não doía.”
“Seu marido?”
“Ele trabalhava para a Montenegro Urbanismo. Fazia inspeção de segurança.”
Dante ficou imóvel.
“Eu não sabia.”
“Você não sabe o nome de quem constrói seus prédios.”
“Como ele morreu?”
“Caiu de um elevador de obra. Disseram que ignorou o protocolo.”
“Você acreditou?”
Joana apertou o nó da faixa um pouco mais do que precisava.
“Paulo conferia três vezes a trava da janela antes de Clara dormir. Não acredito que tenha entrado num elevador sem verificar o cabo.”
Dante guardou a informação. A data da ordem e a morte de Paulo já formavam uma coincidência difícil de ignorar.
“Quero o relatório do acidente.”
“Para quê?”
“Para ler desta vez.”
Joana encontrou vergonha verdadeira na resposta. Não era absolvição, mas era a primeira rachadura na armadura dele.
Joana tentou não sorrir. Dante percebeu.
O jantar foi servido em pratos de plástico. Ele esperou todos receberem antes de aceitar uma porção. Sentou-se no degrau da igreja, entre um pedreiro desempregado e uma costureira idosa.
Clara dividiu com ele o único pedaço de pudim que recebera.
“Metade é sua.”
“Você não precisa dividir.”
“Você trouxe os caminhões.”
“Sua mãe disse que isso não devolve as casas.”
“Não devolve.”
Clara colocou a colher na boca.
“Mas ninguém dorme com fome hoje.”
Depois da ceia, Marcelo chegou em um SUV prateado. Usava terno claro, apesar da lama, e trazia dois advogados.
“Que espetáculo bonito”, disse ao ver Dante entre os moradores. “Já podemos voltar à realidade?”
Os advogados abriram uma mesa dobrável e espalharam contratos.
Marcelo afirmou que todos haviam vendido as casas voluntariamente. Exibiu comprovantes de depósitos e páginas com assinaturas ou impressões digitais.
Joana encontrou o nome da mãe.
“Célia Alves. Setenta mil reais.”
Dona Célia aproximou-se e examinou o documento.
“Esse dedo não é meu.”
Marcelo sorriu com paciência ensaiada.
“A senhora pode não se lembrar. O procedimento ocorreu há quase um ano.”
Célia ergueu a mão direita. Faltava-lhe a ponta do polegar, perdida numa máquina de costura quando era jovem.
No contrato, porém, havia uma impressão digital perfeita.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Dante pegou a folha.
“Quem autenticou isso?”
Marcelo perdeu o sorriso por uma fração de segundo.
“Um cartório credenciado.”
Joana puxou outro documento. Na última página, abaixo das impressões falsas, estava a autorização geral de execução.
Ela colocou a folha contra o peito de Dante.
“A assinatura é falsa.”
Depois apontou para o nome dele.
“Mas a ordem tem o seu nome.”
Os moradores cercaram a mesa. Alguns queriam rasgar os contratos; outros exigiam a polícia. Joana impediu que tocassem nos papéis.
“Primeiro fotografem tudo. Quem viveu cinco dias sem documento sabe que papel desaparece depressa.”
Dante olhou para ela com respeito inesperado.
Rafael organizou uma fila para cada família verificar o próprio nome. Surgiram onze assinaturas de pessoas analfabetas, três contratos em nome de falecidos e duas vendas atribuídas a menores.
Marcelo tentou recolher as pastas.
“São documentos confidenciais.”
Dante colocou a mão sobre a tampa.
“Agora são provas.”
“Provas de quê? De que gastaram o dinheiro e se arrependeram?”
Uma costureira chamada Nena avançou com um bebê no colo.
“Meu marido morreu há seis anos. Aqui diz que recebeu setenta mil no mês passado. Quer que eu o chame para confirmar?”
Ninguém riu.
Marcelo alegou erro de cadastro. Dante ordenou que Rafael lacrasse as caixas e chamasse um tabelião independente.
Joana viu Marcelo sair para telefonar. Pelo vidro do carro, o executivo perdeu a calma pela primeira vez.
Clara puxou a mão de Dante.
“Agora acredita na minha mãe?”
“Acredito que alguém roubou essas famílias.”
“Não foi isso que eu perguntei.”
Dante se agachou diante dela.
“Sim. Acredito nela.”
Joana ouviu, mas não agradeceu. Ser acreditada não era favor. Era o mínimo que lhes haviam negado desde o primeiro dia.
Do lado de fora, a chuva começou a bater mais forte nas telhas da igreja.
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