"O Chefe da Máfia Se Vestiu de Papai Noel Para Uma Criança Que Não Queria Presente" Capítulo 1 — A Menina Que Recusou o Presente
O presente escapou das mãos de Dante Montenegro e caiu aos pés do trono vermelho.
O salão inteiro ficou em silêncio.
Dentro da caixa aberta havia uma casa de bonecas cor-de-rosa, com janelas iluminadas, móveis em miniatura e uma família sorridente diante de uma árvore de Natal.
Clara Alves, de cinco anos, olhou para o brinquedo sem se abaixar.
Dante continuou sentado sob a barba branca e o gorro vermelho que a equipe de publicidade o obrigara a usar. Mesmo fantasiado de Papai Noel, ele parecia capaz de condenar alguém com um olhar.
Ao redor, dezenas de crianças seguravam pacotes brilhantes. Jornalistas filmavam. Convidados ricos sorriam para as câmeras sob os lustres do Instituto Montenegro.
Clara apontou para a casa de bonecas.
“Eu não quero.”
A coordenadora do evento perdeu o sorriso.
“É o presente mais bonito daqui, querida.”
“Mas não é a minha casa.”
Dante apoiou os antebraços nos joelhos. O enchimento da barriga falsa amassou sob o cinto preto.
“Então escolha outro.”
Clara levantou os olhos para ele. Tinha cachos escuros presos por duas fitas amarelas, um vestido simples e poeira seca nas sandálias.
“Não quero outro.”
Alguns convidados riram, esperando que aquilo fosse uma travessura infantil. Dante não riu.
Ninguém recusava o que ele oferecia.
“Por quê?”
A menina respondeu com a seriedade de quem aprendera cedo demais a explicar uma injustiça.
“Porque seus homens derrubaram a minha casa de verdade.”
Os sorrisos desapareceram.
Uma mulher atravessou a fila correndo. Usava uniforme cinza de serviço, sapatos gastos e uma rede prendendo os cabelos. O crachá da empresa de buffet trazia o nome JOANA.
“Clara!”
Joana Alves segurou a filha pelos ombros e a colocou atrás de si.
“Desculpe. Ela não sabia com quem estava falando.”
“Eu sei, sim”, Clara protestou. “É o homem da placa.”
Dante retirou lentamente a barba postiça.
O salão reconheceu o gesto como um aviso. Dois seguranças deram um passo à frente.
Joana abraçou a filha, mas não baixou a cabeça.
“Nós vamos embora.”
“Ainda não.”
A voz de Dante não precisou ser alta. Ela atravessou o salão como uma porta de aço se fechando.
A coordenadora, Patrícia, tentou recuperar o controle.
“Senhor Montenegro, deve ter havido algum engano. Essas famílias foram selecionadas por instituições parceiras. Talvez a menina esteja confundindo a construtora.”
Clara abriu a pequena bolsa de tecido pendurada no ombro. Tirou de dentro uma placa de alumínio amassada e a colocou sobre a caixa do brinquedo.
MONTENEGRO URBANISMO.
As câmeras se voltaram para Dante.
Joana fechou os olhos por um segundo. Encontrara aquela placa no meio dos escombros, mas não sabia que Clara a guardara.
Dante pegou o metal. Havia cimento seco nas bordas e uma mancha escura de fuligem.
“Onde você morava?”
“No Morro da Esperança.”
Patrícia se aproximou e falou junto ao ouvido dele.
“É uma área adquirida pelo grupo. A desocupação foi regular.”
Joana ouviu.
“Regular?”
Ela apontou para o próprio uniforme manchado de molho e farinha.
“Eu estava trabalhando quando as máquinas chegaram. Minha mãe teve dez minutos para tirar os remédios. Quarenta famílias perderam tudo três dias antes do Natal.”
“Havia ordem de retirada”, Patrícia rebateu.
“Havia homens armados.”
Os seguranças olharam para Dante, esperando que ele encerrasse a acusação. Ele continuou segurando a placa.
“Quem autorizou a operação?”
“A diretoria de urbanismo”, Patrícia respondeu. “Marcelo Valença acompanhou pessoalmente.”
O nome não causou surpresa imediata. Marcelo dirigia os projetos imobiliários de Dante havia oito anos. Era eficiente, discreto e nunca entregava um empreendimento atrasado.
Clara puxou a manga vermelha de Dante.
Todos prenderam a respiração.
Nenhuma criança tocava nele sem permissão.
“Moço…”
“Meu nome é Dante.”
“Você é o Papai Noel hoje.”
Ele olhou para a fantasia e quase pareceu contrariado com a lógica.
“O que você quer, Clara?”
Ela se virou e apontou para a montanha de presentes atrás do trono.
“Leva tudo para lá.”
“Tudo?”
“Tem criança dormindo no chão da igreja. O Mateus perdeu o carrinho. A Bia perdeu os cadernos. O bebê da dona Nena não tem cobertor.”
Joana tocou o braço da filha.
“Não peça nada.”
Clara olhou para a mãe.
“Não é para mim.”
A resposta atingiu Dante com mais força que a acusação anterior.
Ele observou os brinquedos comprados para as fotografias, os patrocinadores diante das logomarcas e os convidados que haviam pago fortunas para aparecer em uma festa de caridade.
Depois se levantou.
O salão pareceu menor quando ele ficou de pé.
“Rafael.”
O chefe da segurança aproximou-se.
“Sim, senhor.”
“Quantos caminhões temos?”
“Dez, contando os veículos de apoio.”
“Mande todos para o Morro da Esperança.”
Patrícia empalideceu.
“Mas a entrega oficial começa em vinte minutos. As emissoras estão transmitindo ao vivo.”
“Então vão transmitir de outro lugar.”
“Os patrocinadores não autorizaram mudança de endereço.”
Dante arrancou o gorro vermelho e o colocou novamente, desta vez com um gesto decidido.
“O evento leva meu nome. Eu autorizei.”
Os funcionários começaram a recolher os pacotes. Crianças bateram palmas sem entender completamente. Os adultos trocaram olhares inquietos.
Joana não demonstrou gratidão.
“Levar brinquedo não devolve as casas.”
Dante se aproximou dela. Sem a barba falsa, a fantasia tornava sua expressão severa ainda mais absurda.
“Eu sei.”
“Sabe mesmo?”
“Vou descobrir.”
“Homens como você sempre descobrem depois que os pobres já perderam tudo.”
Rafael moveu-se, incomodado com o tom. Dante ergueu uma mão e o conteve.
Joana pegou a filha no colo.
“Não quero dinheiro. Não quero hotel de luxo. Quero que pare as máquinas.”
“As máquinas serão paradas.”
“Promessa de Papai Noel?” Clara perguntou.
Dante encarou a menina.
“Ordem de Dante Montenegro.”
Uma repórter aproximou o microfone de Joana.
“A senhora procurou o evento para denunciar o Grupo Montenegro?”
“Eu vim trabalhar.”
“Então sua filha entrou na fila por acaso?”
Joana percebeu a intenção da pergunta. Em poucos minutos, tentariam transformá-la em mãe oportunista.
“Minha filha entrou na fila porque alguém lhe ofereceu uma senha. Ela não pediu para conhecer homem rico nenhum.”
Outro jornalista perguntou quanto dinheiro ela desejava receber.
Joana tirou o crachá do buffet e o colocou na bandeja de um garçom.
“Eu estava ganhando cento e cinquenta reais por este turno. Agora provavelmente perdi o trabalho. Se eu quisesse dinheiro fácil, teria ficado calada.”
Dante viu a gerente do buffet apontar discretamente para Joana. Não precisou ouvir para compreender.
“Ela não será demitida”, determinou.
Joana virou-se para ele.
“Não fale pelo meu patrão.”
“Não precisa voltar ao serviço hoje.”
“Preciso, sim. Minha filha come porque eu trabalho.”
Dante percebeu que cada oferta soava como tentativa de compra.
“Então será paga pelo turno completo e irá conosco como representante das famílias.”
“Eu não represento ninguém sem perguntar.”
Dona Célia ligou naquele instante. Joana colocou a chamada no viva-voz.
“Traga cobertores, filha. A chuva está chegando e o telhado da igreja não aguenta.”
Clara apertou o braço da mãe.
Dante tomou a decisão antes que Patrícia preparasse outra resposta pública.
“Rafael, carregue água, colchões, geradores e comida. Compre o que faltar no caminho.”
“Quantos moradores?”
Joana respondeu:
“Cento e dezessete. E não leve só brinquedo bonito. Leve fralda, remédio básico e absorvente.”
Dante assentiu.
Foi a primeira ordem naquela tarde que nasceu da voz dela, não da dele.
O celular dele vibrou. Marcelo Valença ligava.
Dante atendeu enquanto caminhava em direção à saída, seguido por seguranças, fotógrafos e funcionários carregando presentes.
“Dante, estou vendo a transmissão. Não transforme uma invasora em vítima.”
“Quantas casas foram derrubadas?”
Houve uma pausa curta demais para ser inocente.
“A área estava legalmente desocupada.”
“Não foi o que perguntei.”
“Quarenta e duas construções irregulares.”
Dante parou diante das portas de vidro.
“Suspenda a demolição.”
“Isso nos custará milhões.”
“Suspenda.”
Marcelo baixou a voz.
“Você assinou a ordem final, Dante.”
A ligação terminou.
Do lado de fora, os caminhões eram carregados sob uma chuva fina de verão. Clara apontava aos motoristas o caminho como se comandasse o próprio comboio.
Dante abriu no celular o arquivo enviado por Marcelo.
Na última página da ordem de demolição estava sua assinatura digital.
Logo abaixo, aparecia a data da aprovação.
Era o dia anterior à morte de Paulo Alves, marido de Joana e pai de Clara.
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